Seleção e evolução não são sinônimos

Disse Borges (ou escreveu) no prólogo de Elogio das sombras: “O tempo ensinou-me algumas astúcias: evitar os sinônimos, que têm a desvantagem de sugerir diferenças imaginárias”. Enquanto Borges, discorrendo sobre sua estética, levantou a questão de se imaginar diferenças onde elas não existem, a presente e breve nota tem o intuito oposto: mostrar que abundam diferenças entre conceitos que julgamos perfeitamente intercambiáveis. Continuar lendo

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O prazer na estampagem sexual

Prolegômeno: creio ser prudente avisar antecipadamente que essa nota, um pouco mais extensa que de costume, é um ensaio: apesar dos primeiros parágrafos conterem concepções já bem estabelecidas da etologia, o argumento final é apenas uma concepção particular e um exercício filosófico, e não há referências científicas que o corroborem.

O processo evolutivo modula não apenas caracteres morfológicos, como é comum se pensar, mas também outros atributos dos organismos animais que ocasionalmente são esquecidos na descrição da constituição fenotípica de um indivíduo ou espécie, como é o caso dos caracteres comportamentais.  Devendo ser compreendido não como algo separado da estrutura biológica (como se fora uma anima inserida em algum momento da conceição) mas sim como algo intrinsecamente ligado ao animal como um todo, o comportamento é — como todo o resto — fundamental para o ajustamento (fitness) do indivíduo em seu meio natural de adaptação (isto é, o ambiente no qual o comportamento faz algum sentido, traz algum benefício, aumenta sua freqüência nas gerações futuras e é, evolutivamente, fixado e continuamente refinado). Continuar lendo

Mãe, obrigado pelas mitocôndrias!

Passado o dia das mães, é hora de contar um episódio relacionado a essa data comemorativa. Um professor de uma cadeira de pedagogia nos contou em sala de aula sobre a idéia criativa que ele tivera certa vez para um cartão de dias das mães. A história surgiu quando discutíamos a noção de que uma brincadeira ou uma frase de efeito só faz sentido quando o receptor possui alguns conhecimentos específicos sobre o assunto, e nosso professor nos deu um exemplo particular de um processo comunicativo que falhou exatamente por essa razão. Bem intencionado e achando que sua idéia faria sucesso, ele fez um cartão onde se lia “Mãe, obrigado pelas mitocôndrias!”. Mas, para sua frustração, sua mãe não entendeu do que se tratava… Continuar lendo

Cortem as cabeças!

“Alice no país das maravilhas” acabou sendo o primeiro longa metragem em 3D que eu vi. Não sei ao certo o que dizer sobre a projeção 3D: com bem pouco tempo de filme, eu já não percebia mais que se tratava de uma projeção em três dimensões, pois estava mais ocupado em curtir a história e o filme em si. É mais ou menos o que o meu sistema nervoso faz em uma projeção tradicional: ele assume que o cenário está em três dimensões, do mesmo modo que ele assume a veracidade da narrativa. Ou seja, em minha humilde e tresloucada opinião, tanto faz o filme ser projetado de forma tradicional ou em 3D, o que é uma informação valiosa para a economia de alguns trocadinhos futuros. Continuar lendo