Como calcular a RFR (Riqueza Filética Relativa)

Neste momento, dependendo de quem você é, você pode estar curioso ou preocupado. Caso você seja um estudante ou apenas uma pessoa que se interessa eventualmente pela biologia evolutiva, você está curioso para saber o que é essa tal de Riqueza Filética Relativa. Porém, caso você seja um professor ou um profissional da área, você deve estar começando a ficar preocupado. “O que raios é RFR?”, você se pergunta. “Como nunca ouvi falar nisso antes?”. Nesse momento, você começa a questionar sua competência e seu conhecimento, e talvez decida, sorrateiramente, dar uma checada no Google, antes de continuar a leitura, como quem mente para si mesmo “eu sei o que é, mas me escapou no momento, vou apenas dar uma relembrada…” Continuar lendo

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Abaixo com os filos!

(parte 2 de uma postagem dividida em duas partes)

Todos nós usamos muletas, figurativamente, é claro. Uma muleta é um objeto ou, nesse caso, um processo mental que te ajuda a enfrentar uma dificuldade passageira. A palavra fundamental aqui é essa: passageira.  Todo mundo concorda que apesar dos seus benefícios as muletas, literais ou figuradas, devem ser abandonadas mais cedo ou mais tarde, se você quiser realmente progredir e alcançar níveis mais elevados. Isso tudo é muito bonito, lugar comum em tudo quanto é palestra motivacional e livro bobo de autoajuda. Mas, mais uma vez, é muito mais fácil falar do que fazer. Continuar lendo

O nicho hipervolumétrico

Já fazia um par de anos que não íamos ao cinema, eu e minha mulher, principalmente porque as opções eram sofríveis. Até que resolvemos ir assistir ao Interstellar. Tão logo eu soube que era um filme do Christopher Nolan, decidi ir vê-lo logo que estreasse. Já assisti ao Inception diversas vezes, um filme com incontáveis possibilidades e interpretações, que inspirou diversos blogs, podcasts, infográficos e que “arruinou” para sempre Rien de rien (não posso mais escutar essa música sem lembrar do filme!). Instertellar é, nesse sentido, bem parecido com Inception: fale bem, fale mal, mas fale de mim: você passa a semana seguinte inteira pensando e discutindo sobre o filme. Adorei muita coisa, odiei outras. Meu amigo Carlos Oliveira, do AstroPT, aparentemente leu minha mente e escreveu aqui exatamente o que eu gostei e o que eu detestei no filme (aviso, nível de spoiler: máximo!). E há coisas que detestei e adorei ao mesmo tempo. Por exemplo (alerta de spoiler, pule para o próximo parágrafo), quando o Dr. Mann explode parte da Endurance, a estação sai girando pelo espaço em apenas um eixo, o que permite que Cooper tente acoplar o ranger. Mas qual a chance da estação girar no eixo y mas não girar nada no eixo z ou x após uma explosão como aquela? Eu respondo: zero! Mas, ainda assim, a acoplagem que Cooper faz, a estação e o ranger girando a mais de 60 rotações por minuto, é uma das cenas mais fantásticas do cinema nos últimos anos. Continuar lendo

Os vírus são ou não são seres vivos? Uma perspectiva evolutiva

Já que nessa era da internet as pessoas só têm tempo para artigos cada vez mais resumidos e concisos, vou facilitar as coisas e ir direto ao ponto: sim. Em minha opinião, vírus são seres vivos.

Como eu poderei sustentar minha posição usando uma perspectiva evolutiva? Bem, penso que a primeira coisa a ser feita é deixar bem claro o que é uma perspectiva evolutiva. Para isso, os conceitos que precisaremos são apenas dois: homologia e apomorfia. Vamos lá: Continuar lendo

Genes e alelos

Eu já fui bem mais intransigente quanto às mudanças da língua: acreditava que a maneira correta de escrever determinada palavra ou sentença era aquela e somente aquela, e que toda variante deveria ser eliminada. Eu era o que poderíamos chamar de language maven. Devo minha mudança de atitude às pacientes preleções da minha mulher e à indulgência trazida pela idade. Hoje aceito que a língua tem suas vicissitudes e que se todos passarmos a falar “nós vai estudar”, com o tempo “nós vai estudar” será o correto. Aliás, isso já aconteceu: por que o português, ao contrário do grego e do latim, usa a terceira pessoa no lugar da segunda (“você é feliz”) e no lugar da primeira (“a gente é feliz”)? Continuar lendo

Diferenças

Um bom biólogo evolutivo deve ser capaz de explicar adequadamente, para uma pessoa leiga, que certos conceitos e ideias que ela toma como claros e sólidos são, para os familiarizados com a ciência, toscos e absurdos. Algumas das perguntas mais comuns que ouvimos são tão incoerentes que sequer têm resposta, como, por exemplo, “quem é mais evoluído, A ou B?”. Perguntar isso é como perguntar quanto é oito dividido por zero. Uma bobagem como essa não tem resposta e não se deve tentar respondê-la, pois isso seria dar crédito à pergunta e, por fim, validá-la. Ao contrário, deve-se explicar para o interlocutor que não há divisão por zero, e que não há sequência evolutiva de entidades atualmente existentes. Continuar lendo

Afinal, o que é um macaco?

Prolegômeno: Quem me conhece e acompanha o blog sabe que eu costumo criticar os grupos parafiléticos. Ao contrário de alguns estudiosos, eu penso que grupos parafiléticos deveriam ser, quase todos eles, eliminados. Nunca pensei que eu defenderia o uso de um grupo parafilético. Pois bem, é chegado o momento.

Eu não tenho TV e, ultimamente, tenho acompanhado muito negligentemente os sites de notícias (além de praticamente não ter mais entrado no Facebook). Por isso, estava completamente por fora dessa história de futebol, racismo, bananas, macacos e da hashtag SomosTodosMacacos. Agradeço à minha mulher, que consultei logo após um seguidor do meu Tumblr ter perguntado a minha opinião a respeito, por ter me posto a par de toda a história. Bem, quero adiantar que, se você chegou até aqui através de um mecanismo de busca (a.k.a. Google), eu não vou falar sobre racismo, nem sobre a situação do racismo nos estádios, nem sobre a copa do mundo, nem sobre questão social alguma. Fique à vontade para sair desta página. Este é um blog sobre evolução e biologia evolutiva, e o que eu quero discutir é outra coisa: afinal, o que é um macaco? Continuar lendo