Sobre o óbvio

Quando pensamos nos gênios que a humanidade teve a honra de ver surgir nos últimos mil anos, é difícil não vir à mente a figura barbuda de Galileu Galilei. Entre suas várias realizações está a solução para o problema do movimento, solução essa que atualmente conhecemos pelo nome de inércia e que foi formalmente descrita algum tempo depois por Newton em seu Philosophiae Naturalis Principia Mathematica. Convém lembrar que, poucas páginas após descrever a lei da inércia, Newton afirma que foi Galileu quem a descobriu, aparentemente uma das poucas passagens no Principia em que Newton dá créditos à outra pessoa.

E o que era o problema do movimento? Tratava-se do seguinte: quando um objeto é arremessado ou impelido para frente, como por exemplo a flecha de um arqueiro ou uma pedra que atiramos com a mão, o que faz o objeto continuar o movimento após ele ter perdido contato com a causa de seu deslocamento? Nos exemplos que eu dei, o que faz a flecha continuar seu movimento após ela perder contato com o arco ou a pedra após ela sair da nossa mão?

O problema do movimento perdurou na física (no sentido aristotélico) e na filosofia por quase dois mil anos. A solução mais famosa, dada por Aristóteles, é que partículas do ar sairiam da frente da flecha (ou da pedra) e iriam para trás dela, impelindo-a para frente, e assim por diante. Esse constante fluxo de partículas empurrando a flecha por trás asseguraria seu movimento para frente. Muitos discordavam dessa explicação de Aristóteles, mas ela era a melhor que havia e, mais que isso, era praticamente a explicação oficial e incontestavelmente aceita (como muitas das outras “teorias” de Aristóteles).

O que faz uma flecha continuar a se mover depois que ela se separou do arco? (fonte: Pixabay)

O que faz uma flecha continuar a se mover depois que ela se separou do arco? (foto: Pixabay)

Entra então em cena a “sacada” genial de Galileu, que nos dias de hoje qualquer garota ou garoto do ensino fundamental conhece: não é necessário criar suposições mirabolantes para explicar por que os objetos continuam em movimento, mas sim o contrário! O problema correto é: por que os objetos não continuam em movimento? Galileu explicou que, uma vez posto em movimento, o movimento é agora propriedade do objeto, e se nada acontecer para impedir esse movimento o objeto continuará em movimento ad infinitum. Se um objeto não continua em movimento é porque algo interveio, como o atrito com o ar reduzindo a velocidade da flecha ou da pedra. Essa é a noção básica de inércia, que vai ser ampliada por Newton algumas décadas depois.

E aqui surge a razão de ser desta breve postagem. Muita gente diz, eu mesmo já ouvi algo desse naipe, que Galileu não era tão genial assim porque o conceito de inércia é óbvio. Eu gostaria de me deter um pouco mais na noção de “óbvio”. Não quero fornecer uma descrição lexicológica da palavra, não é necessário, você pode perfeitamente procurar num dicionário se quiser: basta abrir outra aba no navegador, não leva nem trinta segundos. O que eu quero comentar é outra coisa: a noção de inércia é “óbvia” para pessoas que nasceram, cresceram, foram educadas e instruídas ouvindo essa noção, estudando esse conceito. É óbvio que é óbvio, se me desculpam essa frase ecoante. Mas tente imaginar que você nasceu não no século XX ou XXI, mas no século XV ou XVI, e que, caso você tenha sido um dos poucos afortunados capazes de frequentar uma escola ou uma universidade, você nunca tenha ouvido falar de inércia e que Aristóteles fosse a autoridade cujos postulados eram aceitos como verdades incontestáveis. E agora, é tão óbvio assim?

Deixe-me mostrar que o óbvio não é assim tão óbvio de outra forma.

Estava recentemente lendo o mais novo livro do Mlodinow, chamado “The Upright Thinkers” (não foi lançado ainda em português, mas com certeza alguma editora deve estar traduzindo), e no epílogo Mlodinow tenta explicar exatamente que em ciência muitas coisas atualmente consideradas óbvias não eram tão óbvias assim, e que só são consideradas “óbvias” porque um gênio foi capaz de abordar o problema de outra forma, mais sagaz ou mais criativa, e ver o que ninguém estava conseguindo ver. Para exemplificar isso, Mlodinow fornece um enigma (que não é dele, foi publicado na seção de quebra-cabeças da Scientific American), que irei reproduzir abaixo:

Um monge sai de um monastério, ao nascer do sol, para caminhar até um templo, no alto de uma montanha. A montanha tem apenas uma trilha, estreita e sinuosa, e o monge às vezes caminha num passo mais rápido, outras vezes num passo mais lento em uma parte da trilha mais íngreme ou com mais pedras, e por fim acaba chegando ao templo ao pôr do sol. Na manhã seguinte ele percorre a trilha de volta, saindo do templo ao nascer do sol, descendo pelo mesmo caminho por onde subira e chegando ao monastério lá embaixo ao pôr do sol. A pergunta é: existe algum ponto ao longo da trilha o qual o monge atingirá exatamente no mesmo horário em ambos os dias?

Essa não é uma daquelas charadas em que há uma pegadinha, em que a solução está na interpretação de uma palavra ou num detalhe ínfimo que passou despercebido. Nada disso, é um problema de física bem simples e direto. Não vá pensar em latitude, ou que a hora do nascer e do pôr do sol muda lentamente de um dia para o outro (considere que “nascer do sol” e “pôr do sol” são dois horários fixos quaisquer, como 6am e 6pm, por exemplo), nem procure alguma informação camuflada ou que falta, como a velocidade instantânea do monge em cada trecho. Nada disso é necessário. A questão é bem direta: existe algum ponto na trilha que é atingido exatamente no mesmo horário, tanto na ida como na volta?

Pense um pouco, reflita sobre o problema. Não continue a leitura. Na verdade, eu aconselho que você feche esta aba, volte daqui a algumas horas ou mesmo amanhã. Quando eu li sobre esse enigma fechei o livro e pensei por uns 10 minutos, até o bondinho chegar à minha parada. Pensei, pensei e pensei, e cheguei à conclusão errada! Fiquei deprimido e frustrado comigo mesmo por todo o dia, e devo dizer que meu conceito sobre mim mesmo caiu bastante — me considero um pouco mais burro agora. Bem, nos veremos daqui a pouco.

(Pausa para refletir sobre o problema)

Já está de volta? Já tem uma resposta? Então vamos lá.

A primeira coisa que pensei (e é o que muita gente pensa) é que, caso a velocidade do monge fosse constante, haveria um ponto exatamente no meio da trilha que satisfaria a pergunta. Mas a velocidade do monge não é constante (ou melhor, não precisa ser constante e sequer importa para a resolução do problema), e o próprio enunciado deixa claro que é uma pessoa real andando, não um daqueles problemas de física hipotéticos: logo, às vezes você anda mais rápido, às vezes mais lento, às vezes dá uma parada para descansar, urinar ou beber água. Então, pensei em seguida, como as velocidades mudam o tempo todo, as chances estatísticas de existir um ponto ao longo da trilha que seja atingido no mesmo horário tanto na subida como na descida são mínimas, tão mínimas que devem ser próximas de zero. Com “quase zero” como resposta, ou seja, “muito provavelmente não existe tal ponto”, continuei a leitura. Eis a explicação de Mlodinow:

O que caracteriza certos gênios nas ciências é a capacidade de abordar um problema por outro ângulo, por outro ponto de vista, usando outro raciocínio. Isso dito, ao invés de imaginar o monge subindo a trilha num dia e voltando no dia seguinte, imagine dois monges, caminhando pela trilha no mesmo dia: ao nascer do sol, um deles sai do monastério em direção ao templo e o outro sai do tempo em direção ao monastério, cada um chegando ao seu destino ao pôr do sol. É óbvio (olha só a palavra aqui!) que eles vão ter que se encontrar em algum ponto da trilha, e esse ponto satisfaz a pergunta do enigma. Perceba que não só existe um ponto o qual o monge atinge no mesmo horário em ambos os dias, como na verdade obrigatoriamente deve existir tal ponto! Se você não gostou da explicação que põe dois monges caminhando no mesmo dia, eu posso fornecer uma explicação mais tecnológica: filme a subida do monge no primeiro dia e, quando ele estiver descendo no dia seguinte, reproduza a filmagem do primeiro dia projetando uma imagem holográfica do monge subindo. O monge (descendo) vai em algum ponto passar pela sua imagem holográfica subindo (que representa o dia anterior), e esse é o ponto que o enigma pergunta se existe.

Depois que você leu a resposta, me diga: não é óbvio? Agora responda: era óbvio antes?

Esse caráter mutante do que é ou não óbvio e essa capacidade dos gênios em ver o óbvio onde ninguém mais o enxergava tem muito a ver com Darwin. Quando eu li pela primeira vez a Origem das espécies eu já era professor e já conhecia, por segunda mão, muito do que havia no livro. Ainda assim, não conseguia parar de dizer de mim para mim mesmo “nossa, isso tudo é óbvio! Como é que ninguém pensou nisso antes?”. Tão óbvio que, após ter lido A Origem das Espécies pela primeira vez, Thomas Huxley disse:

How extremely stupid not to have thought of that!

Variedades distintas têm características distintas e taxas reprodutivas distintas, e aquelas com maior taxa reprodutiva aumentam suas frequências na população. Isso é óbvio, mas é óbvio hoje em dia: Não era tão óbvio assim há 160 anos.

Dizer que Darwin foi um “mestre do óbvio” não é desmerecer seu trabalho, pelo contrário, é elevá-lo à posição de gênio, pois por “mestre do óbvio” eu estou me referindo à capacidade de ver aquilo que estava presente na frente de todo mundo, basicamente sendo esfregado nas suas caras, mas que ninguém foi capaz de perceber ou de compreender.

Convém deixar claro, porém, que para se tornar um “mestre do óbvio” não basta uma inteligência mais astuta e um insight feliz numa tarde de primavera. Darwin, Newton, Einstein, Bohr, Boyle, Descartes, Pasteur, Mendeleev e tantos outros tiveram que trabalhar suas ideias, e trabalharam muito, dias e noites sem conta, para chegar às conclusões que chegaram. Um insight não vem assim, do nada.

Aliás, essa é uma das diferenças entre Darwin e Wallace. Ambos chegaram mais ou menos às mesmas conclusões em relação à seleção. Mas Darwin acumulou décadas de evidência em favor de suas hipóteses, que iam bem além de tratar apenas de seleção. “Ver o óbvio” não se deveu apenas a um insight feliz, súbito e repentino, mas ao lento e gradual acúmulo de observações e de dados, dados que trazem consigo questões, questões que vão sendo lentamente ruminadas, por anos ou décadas… Até que se chega à resposta, e ela era óbvia!

4 comentários sobre “Sobre o óbvio

  1. Quando vi o título, me lembrei de outro texto, com mesmo nome, do Darci Ribeiro. As conexões entre a capacidade “genial” (com ou sem aspas) a as descobertas científicas são sempre necessárias de desvendamento e esclarecimento – nem sempre se vê o óbvio…

    • Acabei de achar esse texto do Darcy Ribeiro, baita coincidência o título, eu não conhecia!
      E o primeiro parágrafo do Darcy resume quase perfeitamente o que eu escrevi:
      “Nosso tema é o óbvio. Acho mesmo que os cientistas trabalham é com o óbvio. O negócio deles – nosso negócio – é lidar com o óbvio. Aparentemente, Deus é muito treteiro, faz as coisas de forma tão recôndita e disfarçada que se precisa desta categoria de gente – os cientistas – para ir tirando os véus, desvendando, a fim de revelar a obviedade do óbvio. O ruim deste procedimento é que parece um jogo sem fim. De fato, só conseguimos desmascarar uma obviedade para descobrir outras, mais óbvias ainda.”

  2. Um texto genial para falar de algo tão óbvio!😉
    E, cá entre nós… Acho que você já poderia ter visto, sim, o título do Darcy Ribeiro, mas não se lembrava, ficava lá no fundo, assoprando… Pelo menos, foi o que se deu comigo!
    Abraço!

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