Entre dois mundos

Recentemente um colega veio, pela internet, pedir a minha opinião a respeito de uma questão de vestibular. Segundo ele, os professores estavam se digladiando, alguns a favor do gabarito oficial, outros contra. Quando ele me mandou a questão reconheci-a imediatamente. Eu já havia visto a questão, e já sabia que ela possuía duas opções corretas (coisa que, dependendo do concurso, faz com que a questão seja anulada). Dei minha opinião, com a qual ele concordou, mas me disse que a polêmica continuava. Felizmente, estou a três mil quilômetros dessa briga… Continuar lendo

A scala naturae no vestibular

Não é do desconhecimento de praticamente ninguém que lide com educação que no Brasil nós vivemos uma situação bastante peculiar: o vestibular determina os conteúdos que serão ensinados no Ensino Médio, e não o contrário.  O resultado disso é que o Ensino Médio torna-se quase um refém dos vestibulares: já vi inúmeras vezes um assunto ser inserido no Ensino Médio porque o vestibular daquele fim de ano anunciou que iria passar a cobrar aquele assunto, bem como um assunto ser eliminado do conteúdo programático do Ensino Médio porque o vestibular deixou de cobrá-lo. Continuar lendo

Mudando sem mudar muita coisa…

Uma das conclusões que poderíamos ser levados a tomar depois de ler “A estrutura das revoluções científicas”, de Thomas Kuhn, é que, para um novo paradigma científico realmente se estabelecer, temos que esperar que todos os professores mais velhos morram e que sejam substituídos por professores mais novos, defensores do novo paradigma. É um exagero, admito. Mas não está muito longe da verdade, em relação a algumas áreas particulares da ciência. Continuar lendo

Ensinando evolução: A história vem por último

Existem certos padrões interessantes nas práticas pedagógicas. Alguns podem ser explicados ou justificados, o que contudo não os torna menos curiosos. Por exemplo, por que será que todos os livros de histologia (desconheço alguma exceção), sejam os do nível superior, os do ensino médio ou os do fundamental, começam discutindo os tecidos epiteliais, passam para os tecidos conjuntivos e musculares e finalizam com tecido nervoso? Por que essa sequência, especificamente? Consigo pensar em uma ou duas boas razões para isso, mas não deixa de ser curioso o fato de todos, absolutamente todos os livros de histologia trazerem a mesma sequência. Há muitos outros exemplos semelhantes, não só no ensino da biologia, mas no ensino das ciências em geral. Contudo, no meu entender, há certos padrões repetitivos (o pleonasmo foi proposital) que deveriam ser eliminados, não só por prejudicarem o ensino daquele assunto mas principalmente por desviarem o foco daquilo que realmente importa, daquilo que os alunos realmente deveriam saber. Um desses padrões encontra-se profundamente sedimentado na maneira de ensinamos evolução no Brasil. Continuar lendo

O ENEM e o pobre Lamarck

Não, não pretendo falar sobre a confusão que orbita a mais recente edição do Enem; isso as mais diversas agências de informação podem fazer melhor. O que me interessa aqui é discorrer brevemente sobre algo que foi praticamente deixado de lado, que é o conteúdo do exame, especificamente no que diz respeito à única questão diretamente relacionada com a biologia evolutiva. Continuar lendo

A grande falha de Darwin?

Há certos enunciados que atingem o patamar de verdade científica apenas pela repetição constante e maciça. A biologia — esse ramo das ciências tão marcado pelas subjetividades — e em particular a biologia evolutiva está repleta desses enunciados e conceitos que são verdadeiros apenas pela repetição. Temos, portanto, uma legião de professores, de alunos e principalmente de leigos aceitando argumentos ad populum, verdades que só são verdades porque todo mundo diz que são, ora bolas! Continuar lendo

We are the fishes, my friend

Deposito uma grande esperança na sistemática filogenética não apenas como uma ferramenta poderosa para os cientistas que trabalham direta ou indiretamente com biologia evolutiva, zoologia, botânica, micologia etc., mas sobretudo como uma sistemática que possibilite uma visão mais adequada por parte dos estudantes, tanto dos colégios como das universidades, do que vem a ser a diversidade biológica, e especialmente do que foi a história evolutiva do planeta. Numa palavra, deposito uma grande esperança no aspecto didático da sistemática filogenética, que possa finalmente alçar a biologia, pelo menos na visão dos estudantes, a um ramo das ciências caracterizado pela estruturação, pela coerência e pela lógica, e não pela imensidão de memorizações de bobagens erradas e ultrapassadas, que caracterizou a biologia nos meus anos de aluno de segundo grau, na década de oitenta. Continuar lendo

Cladogramas e o ensino da sistemática

Nós, professores, costumamos nos enganar sobre como os alunos compreenderão um conceito ou um corpo teórico que, de antemão, classificamos como fácil ou como difícil. Eu, pelo menos, costumo quebrar a cara com certa freqüência. Às vezes discorro rápida e até displicentemente sobre determinado assunto, certo que todos estão entendendo tudo, dada a facilidade daquele conceito, até perceber que ninguém está entendendo quase nada, e ao que eu achava facílimo a cognição da garotada é completamente refratária. Outras vezes se dá o contrário, o diametralmente oposto: preparo-me para quebrar uma pedreira, imagino gastar 30 ou 40 minutos para esclarecer um conceito, quando na prática em cinco minutos eles entendem o que você planejou explicar. Continuar lendo