A internet e a estupidez humana

A humanidade tem ficado mais estúpida desde a popularização da internet?

A resposta é tanto “sim” como “não”.

Comecemos com o “não”.

É um fenômeno comum e recorrente em diversas culturas humanas achar que as gerações mais novas são mais rudes, mais mal-educadas, menos instruídas e menos intelectualizadas que as gerações mais antigas. Sempre que eu ouço alguém falar algo do naipe “antigamente se respeitava os mais velhos” me lembro das minhas aulas de grego clássico: não em apenas um, mas em diversos textos da época da guerra do Peloponeso (há dois milênios e meio), como por exemplo em muitas das peças de Aristofanes, se fala da corrupção dos jovens, que não respeitam mais os idosos, que não se interessam mais em aprender e que são mais fúteis e perdulários que a saudosa geração passada, essa sim composta de pessoas sábias e educadas.

Portanto, achar que as novas gerações são mais burras e inúteis que as gerações anteriores é um fenômeno psicológico comum. Mas ele não é o único responsável por essa impressão de embrutecimento coletivo, de imbecilização em massa, essa sensação de “idiocracy” que impera nos dias de hoje. Há algo mais ocorrendo aqui, e Umberto Eco descreveu-o com precisão: sempre houve imbecis, o “idiota da vila” sempre existiu, mas antigamente a opinião do idiota da vila ficava perdida nas vielas ou nos bares, e dali não saia. Ninguém dava muita importância a ele, e a vida continuava como de hábito. Mas, hoje em dia, a opinião do idiota da vila — nos comentários do YouTube ou dum site de notícias qualquer — ganha o mundo e a posteridade. É levada adiante, é lida a milhares de quilômetros de distância do supracitado idiota, é respondida, copiada, republicada.

Muito provavelmente o mundo sempre foi como é agora, repleto de idiotas, de rancorosos, racistas, covardes, misóginos, homofóbicos e todas as demais características desabonadoras presentes no dicionário. A diferença é que, agora, a internet — com seu Facebook, seu YouTube, seus jornais e seus blogs — funciona como um grande espelho, e de repente descobrimos o quão podre e tenebrosos somos enquanto coletividade. Tomamos um susto ao ver nossa verdadeira face, nosso rosto de Dorian Gray.

O curioso, na verdade o hilário, é que, logo após Umberto Eco ter dito isso, ano passado, inúmeras pessoas — incluindo muitos de meus amigos no facebook — tacharam-no de elitista, de preconceituoso ou de “coxinha”, caso queiram, alegando que ele era contra a inclusão digital e contra os simples, contra os com pouca erudição, os pobres e os oprimidos. A ironia disso é saborosa! Houve inclusive um que chegou a escrever “quem é que esse Umberto Eco pensa que é? Nunca ouvi falar desse sujeito”. Ok, ele é apenas um dos maiores escritores do século XX. Um comentário como esse é saborosamente irônico porque mostra exatamente o que Eco quis evidenciar: trata-se de um idiota, cuja voz se faz ouvir globalmente.

O fabuloso Umberto Eco.

O fabuloso Umberto Eco.

Não só é possível que a humanidade sempre tenha tido a mesma parcela de ignóbeis, como também a anonimidade dos comentários em muitos sites e o fato de eles serem escritos sem contato com o interlocutor — o que caracteriza os famosos keyboard warriors, valentes atrás de um teclado porém tímidos no contato pessoal — faz com que nós mesmos, nós que nos achamos civilizados, educados e superiores, tenhamos nossos momentos de preconceito, de generalização, de racismo, de raiva gratuita e de estupidez — eu já tive vários — estravazados pelo teclado. O lado negro da força fala mas forte quando você está prestes a escrever um comentário em um post.

Muito bem, esse é o “não”: a internet não deixou a humanidade mais estúpida, ela simplesmente mostrou a dimensão da estupidez, que portanto sempre existiu.

Agora vem a vez do “sim”.

É possível que, de fato, a internet esteja contribuindo — e, na verdade, em grande parte causando — um fenômeno novo e global, avassalador, uma assombrosa erosão da intelectualidade humana e um gigantesco aumento de nossa estupidez enquanto coletividade. E o que eu vou argumentar abaixo não é mutuamente excludente com o que eu acabei de expor acima.

Antigamente, na era pré-internet, era relativamente difícil ser publicado — quer seja um livro técnico, uma obra de ficção, uma coluna num jornal, um artigo numa revista de variedades ou mesmo um quadrinho num gibi. Essa é uma característica da comunicação impressa, desde Gutenberg até meados da década de 90, quando a internet começou para valer. E essa dificuldade era de certa forma um filtro, que assegurava uma qualidade “mínima” (de acordo com os critérios da publicação em questão) daquilo que era publicado. Você podia ler uma revista com certa confiança no fato de que o colunista, articulista ou jornalista checou as informações ou que ele tem o mínimo de conhecimento do assunto em questão.

Mas a internet mudou isso radicalmente. Hoje em dia, o idiota da vila não só pode deixar comentários raivosos como pode produzir, escrever e publicar artigos raivosos. Qualquer idiota pode escrever e publicar o que quiser.

Como eu, exatamente agora!

E aqui nós nos deparamos com um problema da alçada da biologia evolutiva, que lida também com comportamento e, neste caso específico, com aquilo que denominamos de cultura ou comportamento cultural. Aparentemente, nós não estávamos preparados para lidar com esse aspecto altamente democrático da internet, e nossos cérebros nos pregam uma terrível armadilha: se está publicado, é correto e verossímil.

Isso parece se dever, sem dúvida, aos séculos da linguagem escrita, cujas obras impressas (e aqui eu incluo até mesmo revistas de fofocas ou aquelas revistas multicoloridas para pré-adolescentes) tinham uma qualidade média muito superior à qualidade média daquilo que é publicado na internet hoje em dia. Parece que não estávamos culturalmente preparados para isso (nem haveria como estarmos), e continuamos a confiar em qualquer bobagem publicada.

Isso vale não só para o idiota da vila, mas para todo mundo. Hoje em dia ninguém verifica mais nada. Chegamos ao ponto ridículo (e é de fato ridículo) em que um blog como o meu tem mais credibilidade que várias revistas relativamente famosas, porque eu checo e verifico as informações que eu público — a não ser quando a postagem é um artigo de opinião ou uma suposição. E não deveria ser assim.

Tenho poucos amigos no Facebook, e a maioria tem uma escolaridade bastante alta. Ainda assim, minha timeline é repleta de citações incorretas de Shakespeare ou de Kafka, de Clarice Lispector ou de Charles Bukowski. E é muito fácil perceber. Eu já li tudo de Kafka e uma certa parcela de Shakespeare. Quando me deparo com algo como “Contemple o sol, aprecie as flores, aproveite a vida, seja mais otimista – Shakespeare”, eu já sei imediatamente que é uma citação incorreta. Não preciso nem pesquisar. Quando tenho alguma dúvida, consigo determinar a veracidade ou não da citação em 30 segundos ou menos, com a ajuda do meu amigo Google. Por que as pessoas não fazem isso?

Porque ninguém se importa. E quem se importa é tachado de chato. Há um par de anos um colega meu compartilhou uma imagem de Carl Sagan ou de Feynman, não lembro mais, com uma frasezinha boba de auto ajuda. Eu imediatamente avisei, “colega, ele não disse isso”. A resposta dele foi “não interessa, eu gostei da frase, o que interessa é o que a frase significa”.

Ora bolas! Gostou da frase? O que interessa é a frase, e não quem a disse? Está sem tempo de verificar a autoria? Então faz o seguinte: da próxima vez, publica só a frase, sem Platão, Einstein, Shakespeare, Tesla, Sagan, Clarice Lispector ou Charles Chaplin embaixo!

Nesse momento, você poderia argumentar: acreditar em citações incorretas não é algo tão grave, não é algo capaz de emburrecer assim a humanidade.

O problema é que esse é só o topo do iceberg. O fenômeno é muito mais amplo, e não se restringe só a fotos com frases na sua timeline. Vai muito mais além, e engloba praticamente a internet inteira. O resultado disso é que quase ninguém hoje em dia sabe mais a diferença entre a BBC, o The Onion, a Reuters, o Sensacionalista, o Buzzfeed, a Nature ou o blog do fulano de tal. Tudo tem a mesma validade, a mesma fidedignidade, está tudo no mesmo saco. Pessoas bem instruídas compartilham todo tipo de sandice, de notícia inventada, de “fatos” sem o menor fundamento. Jornalistas profissionais republicam hoaxes em seus jornais, que já não se diferenciam mais de um blog qualquer.

Não passará despercebido para absolutamente nenhum leitor o meu tom de frustração e de desilusão. Por quê? Porque minha paciência já encheu. Não aguento mais ler bobagens sem sentido sobre OGMs causarem câncer, sobre aspartame ser tóxico ou sobre vacinas levarem ao autismo. E de nada adianta tudo o que eu estudei e li na minha vida inteira: quando digo que glutamato não é carcinogênico, que a soja não é um “antinutriente” ou que o efeito estufa é antropogênico, meu interlocutor contra-argumenta com um post de um site qualquer, que pode ser tanto o site da Oprah Winfrey como o site da Associação dos Lunáticos Furiosos de Uqbar. Tanto faz, porque geralmente a pessoa sequer checa a URL.

Assim, o meu Lehninger ou o meu Ganong têm tanta validade quanto o UOL, o Terra, o site da revista Caras ou o blog do Luisinho ali da rua em frente. Acredita-se em tudo o que se lê e, já aviso, existe o site da “Sociedade da Terra Chata”. Ele será usado como prova contrária quando você afirmar que a terra é esferoidal.

Eppur si muove.

Eu e a psicanálise

Estava um dia desses relendo meu livro, procurando por erros de português — que, como uma maldição, parece que se multiplicam entre uma revisão e outra — quando me ocorreu algo sobre o qual nunca havia pensado. O título do meu livro é uma clara referência ao título de um livro de psicanálise, como eu explico na introdução. Acontece que, ao saber disso, o leitor pode achar que eu gosto ou mesmo que eu defendo a psicanálise, e isso está longe de estar correto. Continuar lendo

O doodle e a marcha

O Google publicou, recentemente, um doodle em homenagem ao 41º aniversário de descoberta de Lucy, o famoso fóssil de Australopithecus afarensis. Ao que parece, o doodle irritou algumas pessoas impermeáveis às ciências. Quando o Google fizer um doodle sobre Copérnico os defensores do geocentrismo também deverão se irritar, e quando o doodle for sobre Pasteur os defensores do movimento antivacinação irão protestar. Bem, eu também não gostei muito do doodle, mas por uma razão diametralmente oposta! Continuar lendo

Sobre o óbvio

Quando pensamos nos gênios que a humanidade teve a honra de ver surgir nos últimos mil anos, é difícil não vir à mente a figura barbuda de Galileu Galilei. Entre suas várias realizações está a solução para o problema do movimento, solução essa que atualmente conhecemos pelo nome de inércia e que foi formalmente descrita algum tempo depois por Newton em seu Philosophiae Naturalis Principia Mathematica. Convém lembrar que, poucas páginas após descrever a lei da inércia, Newton afirma que foi Galileu quem a descobriu, aparentemente uma das poucas passagens no Principia em que Newton dá créditos à outra pessoa. Continuar lendo

EvoluZoa

Há uma discussão meio cansativa (e inútil) sempre que uma obra literária é adaptada para o cinema: qual o melhor, o livro ou o filme? E, além de cansativa e inútil, é uma discussão baseada numa pergunta que não faz muito sentido, pois a literatura e o cinema são meios distintos, artes distintas, com características e propriedades diferentes. Há coisas que podem ser exploradas e transmitidas na literatura mas não no cinema, enquanto outras podem ser exploradas no cinema mas não na literatura. Continuar lendo

Discordando de Darwin

O título dessa postagem, não estou alheio a esse perigo, pode atrair a atenção de alguns criacionistas — mais ainda aquela cepa de criacionistas que leem apenas o título do artigo — que prontamente irão compartilhá-lo com uma descrição do tipo “até o autor do blog Biologia Evolutiva diz que evolução não existe”. Contudo, qualquer pessoa um pouco mais lúcida perceberá, lendo o post, que não se trata disso, mas sim de algo bem diferente: para a ciência não interessa quem disse, mas o que foi dito. Argumentos de autoridade não têm lugar nas ciências. Não importa se Einstein disse isso, ou se Newton disse aquilo: se o enunciado está errado, não importa quem o enunciou, ele está errado e acabou. Por isso, discordar de autoridades é não apenas saudável para as ciências, mas na verdade uma de suas características sine qua non. Continuar lendo

Uma função para o DNA não codificante?

Há um par de anos (que, em tempo relativo de internet dá mais ou menos umas duas décadas) circulou um meme um tanto nerd, em relação à constante matemática π (pi). Segundo a versão mais famosa do meme, π seria um “número decimal infinito e não repetitivo, significando que qualquer sequência numérica possível pode ser encontrada na constante π, desde o nome de todas as pessoas que você conheceu até o bitmap de todas as fotos que você já viu, incluindo o DNA de todos os organismos do universo”. Segundo versões alternativas desse meme, na sequência numérica da constante π é possível encontrar na íntegra o texto de Crime e castigo — incluindo versões alternativas onde é a velha quem mata Raskolnikov ou uma na qual Raskolnikov é um papagaio transexual gago — ou o texto de Dom Quixote, o bitmap de fotos de Brigitte Bardot ou até mesmo os 136 minutos de filme da Laranja mecânica. Mas a coisa não para por aqui: π conteria fotos de pessoas que nunca foram fotografadas (como Isaac Newton, por exemplo), infinitas versões alternativas da sua vida, o relevo de todos os planetas rochosos do universo ou mesmo o DNA de todos os terráqueos que ainda irão nascer — por que não? Como cúmulo do cúmulo poderíamos afirmar que π conteria em sua sequência a Biblioteca de Babel (um universo contendo um universo… essa brincadeira só os fãs de Borges irão entender). Continuar lendo