A importância de ser herege

Eu tenho um curioso interesse, desprovido de quase qualquer utilidade, por etimologia e filologia. Se pararmos para pensar, há algumas semelhanças entre o par etimologia/filologia e a biologia evolutiva, quando se estuda origens comuns, padrões de divergência, semelhanças compartilhadas e outras coisas do tipo, como já escrevi aqui. Mas admito que, em grande parte, meu interesse por etimologia é apenas uma curiosidade, sem aplicações práticas, uma vez que a língua é viva, alvo de intermináveis vicissitudes. Por exemplo, de nada adianta saber que a palavra virtude significava originalmente “as qualidades positivas do sexo masculino”, ou num português direto “macheza”, “masculinidade”, “virilidade”, pois virtude vem do latim vir, que significa “homem”, “pessoa do sexo masculino”. Porém, posso usar a palavra virtude hoje em dia para descrever tanto homens como mulheres, uma vez que a sua origem etimológica não tem mais quase importância alguma para o sentido atual da palavra, a não ser que o meu interlocutor seja um professor de latim.

Isso dito, é bem interessante perceber como algumas palavras passaram a significar quase que o contrário do que significavam originalmente, como bizarro, que originalmente significava “elegante” mas que hoje em dia significa algo como “estranho”, “esquisito” ou, se quisermos forçar a barra, “deselegante”. Isso me faz lembrar da palavra herege, razão desta breve postagem que, de certa forma, juntamente com as duas postagens anteriores, compõe uma trilogia sobre a importância da ciência.

Desnecessário dizer que herege nos trás à mente os mais terríveis defeitos: o herege é o ímpio, o malévolo, o perverso. Os hereges costumavam ser queimados vivos e, se assim o eram, deve ter sido por uma boa razão, pensa a maioria das pessoas. O herege é o ateu, o desprovido de fé, aquele que se recusa a aceitar as qualidades divinas e, por consequência, só pode ser um adorador do diabo, do belzebu, satanás, lúcifer. E, como tal, o herege é uma pessoa diabólica, intrinsecamente má.

Mas a etimologia da palavra herege nos revela outra coisa, muito mais sábia e louvável. E a perseguição que os hereges sofreram (e sofrem) ao longo dos séculos só depõe contra a cúria, essa sim historicamente um conjunto de criminosos, de indivíduos de péssimo caráter, que só se interessavam por poder e riqueza e que eram capazes de praticamente todo tipo de sordidez para manter esse poder.

Herege vem do grego αἱρέω, que significa “tomar com as mãos”, “tomar para si próprio”, “apreender” e, principalmente, “escolher”. Herege é aquele que escolhe. Entre todas as opções que lhe são dadas, o herege escolhe aquela que se apresenta a mais conveniente, a mais correta. A heresia, a livre escolha, é prerrogativa de uma mente livre, inquiridora, filosófica, interessada em compreender o mundo que a cerca. Não pode haver ciência sem livre pensamento, sem liberdade de escolha, sem heresia. É extremamente triste saber que por quase dois mil anos a heresia foi (e ainda é, em escala maior do que imaginamos) brutalmente repreendida: analisar as opções e escolher o que lhe parece mais correto era algo inaceitável numa sociedade onde o poder atemporal, que por sua própria natureza é avesso a toda forma de contestação e debate, dominava livre e impunemente.

A ciência não pode prosperar onde a opinião de uma autoridade caduca e eventualmente delirante vale mais que a observação e que o conhecimento. Galileu olhou para a Lua e observou, clara e incontestavelmente, que sua superfície era irregular. Mas Cremonini sequer quis aceitar essa observação do objeto, pois, segundo ele, se Aristóteles afirmou que os corpos celestes eram esferas perfeitas eles só poderiam ser esferas perfeitas, e fim de conversa. Galileu não tinha o direito de contestar uma autoridade como Aristóteles, cuja opinião valia mais que a própria observação da superfície da Lua. Galileu era um herege, e, como tal, deveria sofrer as consequências reservadas para quem “escolhesse a heresia” (pleonasmo proposital), e por muito pouco Galileu não foi morto.

“Galileu mostrando ao Doge de Veneza como utilizar o telescópio”, de Giuseppe Bertini.

Perceba que eu não estou criticando Aristóteles, que de fato não tem nada a ver com isso: Aristóteles pensou o que pensou e escreveu o que escreveu porque vivia num mundo livre, onde os filósofos tinham o direito de analisar, ponderar, criticar e escolher. Não é culpa de Aristóteles se, quase 1900 anos depois de sua morte, as autoridades usavam seus livros como dogmas indiscutíveis e perseguiam e matavam quem ousasse contestá-los.

É lugar comum nas aulas de história que “o conhecimento do passado nos permite evitar erros semelhantes no futuro”. A forma com que a heresia, ou melhor, o livre pensamento e a liberdade de escolha foram tratadas na história recente da humanidade é uma vergonhosa mácula da qual não podemos nos esquecer (aliás, seria conveniente lembrar que ainda hoje em dia a heresia e a apostasia são crimes cuja a pena em diversos países é a morte, mas convém não polemizarmos por enquanto).

O cientista tem que ser um herege, tem que ser capaz de pensar livremente, e tem que ter franqueado o acesso a todas as salas da biblioteca do conhecimento. Assim como um bom detetive não pode descobrir corretamente o criminoso se algumas perguntas não forem permitidas ou se alguns figurões presentes na cena do crime não puderem ser livremente interrogados, a ciência é incompatível com uma sociedade que dita os limites para o conhecimento, que diz que certos pensamentos são inaceitáveis e que determina que certas ideias e opiniões devem ser aceitas sem questionamentos.

Para finalizar, convém advertir que ser herege não significa ignorar os fatos, e que ter a “mente aberta” não significa aceitar indiscriminadamente qualquer tipo de sandice. Se, por exemplo, algum cientista conjecturar que a caspa é uma condição que surge quando se assiste a filmes de humor em noites de terça feira e não uma infecção micológica, ele tem todo o direito de levar esse questionamento à frente. Ele tem o direito de construir sua hipótese, de coletar dados, de analisar as evidências. Isso é heresia, livre pensamento. Contudo, se uma quantidade formidável de evidências mostrarem que sua hipótese ou conceito estão incorretos e não fazem sentido, e se ainda assim ele continuar abraçando aquela hipótese ou conceito, isso não é heresia, é estupidez mesmo.

Os erros da biologia evolutiva

“Anacronismo” é um fenômeno ou uma situação que ocorre num tempo ou numa época na qual não se esperava que ela ocorresse. Às vezes, o anacronismo ocorre quando conhecimentos e costumes recentes são transferidos para o passado, como em Os Flintstones. Em outras ocasiões, mais infelizes por não se tratarem de uma obra de ficção, elas ocorrem quando costumes antigos persistem nos tempos modernos, como a astrologia – aliás, já compartilhei o pensamento de Feynman a esse respeito aqui. Continuar lendo

Quando a democracia é inaceitável – o caso do movimento antivacinação

Dizem por aí que “para toda regra há uma exceção”. Sendo esse o caso, há regras sem exceção. A explicação é bem simples: o enunciado “para toda regra há uma exceção” é ele mesmo uma regra, e ele estipula que para toda regra – no caso ele próprio – há uma exceção. A conclusão é que há regras sem exceção. Do mesmo modo, eu costumava ouvir muito, nos meus tempos de professor, “sempre que um enunciado possuir a palavra sempre, ele está errado”. Ora, a conclusão disso é que há enunciados que possuem a palavra “sempre” e que estão corretos. Como distinguir o correto do errado? Não há uma fórmula, temos que analisar cada enunciado individualmente. Continuar lendo

Abaixo com os filos!

(parte 2 de uma postagem dividida em duas partes)

Todos nós usamos muletas, figurativamente, é claro. Uma muleta é um objeto ou, nesse caso, um processo mental que te ajuda a enfrentar uma dificuldade passageira. A palavra fundamental aqui é essa: passageira.  Todo mundo concorda que apesar dos seus benefícios as muletas, literais ou figuradas, devem ser abandonadas mais cedo ou mais tarde, se você quiser realmente progredir e alcançar níveis mais elevados. Isso tudo é muito bonito, lugar comum em tudo quanto é palestra motivacional e livro bobo de autoajuda. Mas, mais uma vez, é muito mais fácil falar do que fazer. Continuar lendo

O nicho hipervolumétrico

Já fazia um par de anos que não íamos ao cinema, eu e minha mulher, principalmente porque as opções eram sofríveis. Até que resolvemos ir assistir ao Interstellar. Tão logo eu soube que era um filme do Christopher Nolan, decidi ir vê-lo logo que estreasse. Já assisti ao Inception diversas vezes, um filme com incontáveis possibilidades e interpretações, que inspirou diversos blogs, podcasts, infográficos e que “arruinou” para sempre Rien de rien (não posso mais escutar essa música sem lembrar do filme!). Instertellar é, nesse sentido, bem parecido com Inception: fale bem, fale mal, mas fale de mim: você passa a semana seguinte inteira pensando e discutindo sobre o filme. Adorei muita coisa, odiei outras. Meu amigo Carlos Oliveira, do AstroPT, aparentemente leu minha mente e escreveu aqui exatamente o que eu gostei e o que eu detestei no filme (aviso, nível de spoiler: máximo!). E há coisas que detestei e adorei ao mesmo tempo. Por exemplo (alerta de spoiler, pule para o próximo parágrafo), quando o Dr. Mann explode parte da Endurance, a estação sai girando pelo espaço em apenas um eixo, o que permite que Cooper tente acoplar o ranger. Mas qual a chance da estação girar no eixo y mas não girar nada no eixo z ou x após uma explosão como aquela? Eu respondo: zero! Mas, ainda assim, a acoplagem que Cooper faz, a estação e o ranger girando a mais de 60 rotações por minuto, é uma das cenas mais fantásticas do cinema nos últimos anos. Continuar lendo

Os vírus são ou não são seres vivos? Uma perspectiva evolutiva

Já que nessa era da internet as pessoas só têm tempo para artigos cada vez mais resumidos e concisos, vou facilitar as coisas e ir direto ao ponto: sim. Em minha opinião, vírus são seres vivos.

Como eu poderei sustentar minha posição usando uma perspectiva evolutiva? Bem, penso que a primeira coisa a ser feita é deixar bem claro o que é uma perspectiva evolutiva. Para isso, os conceitos que precisaremos são apenas dois: homologia e apomorfia. Vamos lá: Continuar lendo

Declínio e queda das estruturas vestigiais

Prolegômeno: há exatos cinco anos eu supus, aqui no blog, que os ossos pélvicos dos cetáceos não são estruturas vestigiais, que eles deveriam ter alguma função. Curiosamente, ao que parece, a função foi recentemente descoberta.

 

cb2Elas estão entre os mais famosos exemplos de processos evolutivos, e estão invariavelmente listadas como uma das principais evidências da evolução biológica: as estruturas vestigiais. Porém, quanto mais eu penso sobre elas, quanto mais eu estudo o que elas de fato significam, mais eu me convenço que a importância das estruturas vestigiais tem sido bastante exagerada. Muito provavelmente, os principais exemplos de estruturas vestigiais — o apêndice vermiforme dos humanos e os ossos pélvicos dos cetáceos — não são sequer estruturas vestigiais. Em minha atual opinião, não apenas as estruturas vestigiais devem ser bastante raras de se encontrar como, talvez, sequer existam. É uma posição radical, eu sei, e tentar defendê-la é o fito desta breve postagem. Continuar lendo