Quando a democracia é inaceitável – o caso do movimento antivacinação

Dizem por aí que “para toda regra há uma exceção”. Sendo esse o caso, há regras sem exceção. A explicação é bem simples: o enunciado “para toda regra há uma exceção” é ele mesmo uma regra, e ele estipula que para toda regra – no caso ele próprio – há uma exceção. A conclusão é que há regras sem exceção. Do mesmo modo, eu costumava ouvir muito, nos meus tempos de professor, “sempre que um enunciado possuir a palavra sempre, ele está errado”. Ora, a conclusão disso é que há enunciados que possuem a palavra “sempre” e que estão corretos. Como distinguir o correto do errado? Não há uma fórmula, temos que analisar cada enunciado individualmente.

Vejamos: “O ferro 2 (ou ferroso) tem sempre um nox menor que o ferro 3 (ou férrico)”. Esse é um enunciado perfeitamente correto e válido, para o qual não há exceção. Do mesmo modo, “a aceleração que uma força impõe a um corpo macroscópico sólido é sempre dependente da massa desse corpo” também é válida e verdadeira.

Porém, há uma série de afirmações contendo a palavra sempre que são quase unanimemente consideradas como verdades absolutas, mas cuja análise mais detalhada nos mostra vez por outra não ser o caso. Tomemos uma delas, “a vida humana é sempre mais valiosa que qualquer outra coisa”. Será?

Vamos supor o seguinte diálogo, entre Alice e Beto:

Beto: A vida humana é sempre mais valiosa que qualquer outra coisa.
Alice: Qualquer outra coisa?
Beto: Sim, qualquer outra coisa.
Alice: Ok, imagine que uma pessoa está doente, e que para salvá-la a gente tem que gastar 10 mil dólares. Ele vale esse gasto?
Beto: É claro que vale!
Alice: E um bilhão de dólares?
Beto: Vale!
Alice: E se, para salvá-lo, tivermos que sacrificar 50 mil ratos de laboratório?
Beto: Vale!
Alice: E uma baleia azul?
Beto: Vale!
Alice: E 100 baleias azuis?
Beto: Mmmm… Ainda assim, vale.
Alice: E todas as espécies de baleia da terra?
Beto: Opa, espera aí…
Alice: E se para salvá-lo tivermos que destruir a Amazônia inteira?
Beto: Ei, eu disse espera aí…
Alice: Ou 10 sistemas planetários inteiros?
Beto: Espera! Você está sendo radical!

Mas Alice não está sendo radical. Dizer que a vida humana sempre vale mais que qualquer coisa é que é um enunciado radical, porque qualquer coisa é qualquer coisa! Pode ser inclusive o universo inteiro, no qual o enfermo está inserido. Portanto, a vida humana não é sempre mais valiosa que qualquer coisa: cada situação deve ser analisada individualmente.

E assim chegamos a outra afirmação comum, razão de eu ter escrito este post: “A democracia é sempre a melhor forma de tomada de decisões numa comunidade”. Eu não irei aqui tecer um ataque à democracia, nem afirmar que a tirania, a anarquia ou qualquer outra -ia é melhor que a democracia, não é isso. Trata-se apenas de questionar aquele sempre no enunciado. Há situações em que a vontade da maioria não pode ser aceita, e outras em que a vontade da maioria não deve sequer ser indagada!

Como exemplo da primeira situação temos algo relativamente comum no Brasil: o desprezo pelos direitos humanos. Não sei como está a situação hoje em dia, uma vez que já faz algum tempo que não leio notícias sobre o Brasil, mas creio que até a década passada um plebiscito com a pergunta “você concorda que um ‘bandido’ capturado ao tentar roubar/assaltar alguém seja publicamente espancado até a morte?” corria o sério risco de ter o “SIM” como opção vencedora. O que se dá, porém, é que o código penal deve ser estabelecido por juristas e especialistas na área, e não pela vontade popular, seja ela qual for.

E, como exemplo da segunda situação, onde a vontade da maioria não deveria ser sequer indagada, temos o tema deste blog inteiro… A ciência!gravidade

A ciência é uma das grandes invenções da humanidade. É a vela que ilumina a escuridão da ignorância. A ciência nos permite desvendar os mistérios do mundo e compreender toda a maravilhosa e complexa natureza que nos cerca e que nos compõe. Porém, para de fato entender o universo e compreender os fenômenos que nele se desenrolam, a ciência não deve, e nem pode, ouvir a vontade da maioria.

Imagine numa sala de aula o professor de física perguntando “Vamos lá, quem acha que a gravidade deve ser 4 m/s2 levanta a mão… 6 votos. Quem acha que deve ser 10? 3 votos. E 15 m/s2? 31 votos! Pronto, turma, nosso g será 15 m/s2 então”. Acontece que a aceleração da gravidade no nível do mar é de 9,831 m/s2 (obrigado, WolframAlpha), independente da vontade da maioria.

Dá-me vontade de rir (na verdade, de chorar) quando eu leio sobre o imbróglio dos criacionistas, principalmente nos EUA. Coisas como isto: “Os pais sabem o que é o melhor para os seus filhos. Não cabe à escola empurrar o evolucionismo goela abaixo nos nossos filhos. A escola deve ensinar o evolucionismo e o criacionismo, e nós, os pais, devemos decidir qual o melhor”.

Bem, primeiramente, cada vez que alguém escreve ou fala a palavra “evolucionismo” um coala morre. Em segundo lugar, os pais – geralmente – amam os seus filhos, quanto a isso não há dúvidas, e normalmente, mas com alguns tropeços, escolhem o que julgam sendo o melhor para eles… Contudo, os pais não são especialistas! Eles não conhecem o assunto, e não cabe a eles decidir o currículo escolar dos filhos. Se você não concorda com o que eu acabei de enunciar, imagine a mesma situação: Numa aula do curso de engenharia civil, o professor diz “alunos, eu vou ensinar quatro técnicas de construção de vigas. Só uma delas funciona, as outras três não funcionam e o prédio vai desabar. Mas como somos uma universidade democrática, eu vou ensinar as quatro, e cabe a vocês escolher a de que mais gostam”. Isso é inaceitável. Nenhum conselho ou entidade de engenheiros aceitaria isso, e esse curso seria fechado.

Recentemente, não faz sequer uma semana, li quase que exatamente a mesma argumentação em relação ao movimento antivacinação. Mais uma vez, não sei como está a situação atual no Brasil, mas ao redor do mundo o movimento antivacinação é a mais nova estupidez capaz de causar um dano gigantesco. O que eu li, nos comentários (sempre os comentários!) em um jornal online, foi algo assim: “O governo não pode determinar o que eu tenho ou não que fazer com meu filho. O governo deve apenas oferecer a vacina. Cabe a nós, os pais, que sabemos o que é o melhor para nossos filhos, decidir se os vacinamos ou não”.

Acontece que os pais não são especialistas. Se fossem, saberiam que não há nenhuma dúvida na comunidade científica em relação ao funcionamento das vacinas, ou quanto à relação, inexistente, entre vacinas e distúrbios mentais. E pensar que tudo isso, todo esse movimento (deixando de lado a questão dos quiropraxistas) se deve a um artigo fraudulento, UM artigo, já há muito eliminado do jornal que o publicou!

Convém lembrar o óbvio: o fato dos pais terem gerado seus filhos e serem responsáveis por eles não torna esses filhos suas propriedades, nem permite que os pais façam o que quiserem com eles. Pelo contrário: sendo os responsáveis, é dever dos pais zelar pelos filhos da melhor maneira possível, e isso inclui ouvir os especialistas. Os especialistas podem estar errados, mas hoje em dia, ao contrário da idade média, em que os próprios especialistas eram a fonte da legitimidade daquilo que diziam, uma teoria científica deve ser substituída por outra teoria igualmente científica.

A ciência não está sempre certa, ela erra às vezes. Mas o fantástico é que a ciência possui, dentro de si (e essa é uma das suas principais características) um sistema de detecção de erros, um sistema de teste e eliminação de hipóteses falsas. No entanto, a democracia não faz parte desse sistema.

“Então a ciência não é democrática”, você deve estar se perguntando. Bem, nesse sentido, não… Mas, ao mesmo tempo, a ciência é uma das coisas mais democráticas que existem atualmente. Qualquer um pode fazer ciência, você mesmo pode fazer ciência, agora mesmo, sem sequer uma graduação! Pouca gente percebe que não há uma profissão chamada “cientista”. Se você coletar dados corretamente, analisá-los estatisticamente e testar as suas hipóteses adequadamente, você pode publicar um artigo científico! Não precisa ser doutor, mestre ou seja o que for. A ciência está aí, aberta, disponível para quem quer que queira estudá-la, compreendê-la e praticá-la. Não é um clube fechado, você não paga nada, e está acessível a qualquer pessoa, independentemente de suas crenças, de seu gênero, de sua idade, da cor da sua pele ou do lugar onde você nasceu. Há poucas coisas mais democráticas que isso.

Abaixo com os filos!

(parte 2 de uma postagem dividida em duas partes)

Todos nós usamos muletas, figurativamente, é claro. Uma muleta é um objeto ou, nesse caso, um processo mental que te ajuda a enfrentar uma dificuldade passageira. A palavra fundamental aqui é essa: passageira.  Todo mundo concorda que apesar dos seus benefícios as muletas, literais ou figuradas, devem ser abandonadas mais cedo ou mais tarde, se você quiser realmente progredir e alcançar níveis mais elevados. Isso tudo é muito bonito, lugar comum em tudo quanto é palestra motivacional e livro bobo de autoajuda. Mas, mais uma vez, é muito mais fácil falar do que fazer. Continuar lendo

O nicho hipervolumétrico

Já fazia um par de anos que não íamos ao cinema, eu e minha mulher, principalmente porque as opções eram sofríveis. Até que resolvemos ir assistir ao Interstellar. Tão logo eu soube que era um filme do Christopher Nolan, decidi ir vê-lo logo que estreasse. Já assisti ao Inception diversas vezes, um filme com incontáveis possibilidades e interpretações, que inspirou diversos blogs, podcasts, infográficos e que “arruinou” para sempre Rien de rien (não posso mais escutar essa música sem lembrar do filme!). Instertellar é, nesse sentido, bem parecido com Inception: fale bem, fale mal, mas fale de mim: você passa a semana seguinte inteira pensando e discutindo sobre o filme. Adorei muita coisa, odiei outras. Meu amigo Carlos Oliveira, do AstroPT, aparentemente leu minha mente e escreveu aqui exatamente o que eu gostei e o que eu detestei no filme (aviso, nível de spoiler: máximo!). E há coisas que detestei e adorei ao mesmo tempo. Por exemplo (alerta de spoiler, pule para o próximo parágrafo), quando o Dr. Mann explode parte da Endurance, a estação sai girando pelo espaço em apenas um eixo, o que permite que Cooper tente acoplar o ranger. Mas qual a chance da estação girar no eixo y mas não girar nada no eixo z ou x após uma explosão como aquela? Eu respondo: zero! Mas, ainda assim, a acoplagem que Cooper faz, a estação e o ranger girando a mais de 60 rotações por minuto, é uma das cenas mais fantásticas do cinema nos últimos anos. Continuar lendo

Os vírus são ou não são seres vivos? Uma perspectiva evolutiva

Já que nessa era da internet as pessoas só têm tempo para artigos cada vez mais resumidos e concisos, vou facilitar as coisas e ir direto ao ponto: sim. Em minha opinião, vírus são seres vivos.

Como eu poderei sustentar minha posição usando uma perspectiva evolutiva? Bem, penso que a primeira coisa a ser feita é deixar bem claro o que é uma perspectiva evolutiva. Para isso, os conceitos que precisaremos são apenas dois: homologia e apomorfia. Vamos lá: Continuar lendo

Declínio e queda das estruturas vestigiais

Prolegômeno: há exatos cinco anos eu supus, aqui no blog, que os ossos pélvicos dos cetáceos não são estruturas vestigiais, que eles deveriam ter alguma função. Curiosamente, ao que parece, a função foi recentemente descoberta.

 

cb2Elas estão entre os mais famosos exemplos de processos evolutivos, e estão invariavelmente listadas como uma das principais evidências da evolução biológica: as estruturas vestigiais. Porém, quanto mais eu penso sobre elas, quanto mais eu estudo o que elas de fato significam, mais eu me convenço que a importância das estruturas vestigiais tem sido bastante exagerada. Muito provavelmente, os principais exemplos de estruturas vestigiais — o apêndice vermiforme dos humanos e os ossos pélvicos dos cetáceos — não são sequer estruturas vestigiais. Em minha atual opinião, não apenas as estruturas vestigiais devem ser bastante raras de se encontrar como, talvez, sequer existam. É uma posição radical, eu sei, e tentar defendê-la é o fito desta breve postagem. Continuar lendo

O azul é a cor mais quente

Já faz mais de um mês desde minha última postagem. Não posso dar atenção ao blog, uma vez que se trata de um hobby não remunerado, adequado para quem está com a vida ganha — o que não é, definitivamente, o meu caso atualmente. Mas, como eu sempre me guiei pela máxima “blog parado é blog morto”, é fundamental que eu escreva alguma coisa, qualquer coisa, nem que seja uma breve nota como essa que segue, cuja ideia acabei de ter no banheiro (não no vaso sanitário, berçário não creditado de ideias, mas na pia, lavando as mãos). Continuar lendo

Genes e alelos

Eu já fui bem mais intransigente quanto às mudanças da língua: acreditava que a maneira correta de escrever determinada palavra ou sentença era aquela e somente aquela, e que toda variante deveria ser eliminada. Eu era o que poderíamos chamar de language maven. Devo minha mudança de atitude às pacientes preleções da minha mulher e à indulgência trazida pela idade. Hoje aceito que a língua tem suas vicissitudes e que se todos passarmos a falar “nós vai estudar”, com o tempo “nós vai estudar” será o correto. Aliás, isso já aconteceu: por que o português, ao contrário do grego e do latim, usa a terceira pessoa no lugar da segunda (“você é feliz”) e no lugar da primeira (“a gente é feliz”)? Continuar lendo