Eu e a psicanálise

Estava um dia desses relendo meu livro, procurando por erros de português — que, como uma maldição, parece que se multiplicam entre uma revisão e outra — quando me ocorreu algo sobre o qual nunca havia pensado. O título do meu livro é uma clara referência ao título de um livro de psicanálise, como eu explico na introdução. Acontece que, ao saber disso, o leitor pode achar que eu gosto ou mesmo que eu defendo a psicanálise, e isso está longe de estar correto.

Antes de prosseguirmos, cabe aqui uma breve explicação para quem não tem muita familiaridade com a psicologia: psicologia e psicanálise não são sinônimos. Psicologia é uma ciência, um ramo do saber. A psicologia possui diferentes abordagens ou escolas, e a psicanálise é apenas uma delas, juntamente com a Gestalt, o Behaviorismo, a ACP, a Psicologia Sistêmica e a Cognitivo-Comportamental, para citar apenas algumas.

Eu possuo (ou melhor, possuía) muitos livros de não-ficção, e muitos deles eu comprei sem saber exatamente o que o autor alegava — logicamente, se eu já soubesse, eu não precisaria ler o livro! Por isso, a presença de um determinado livro na minha estante não significa necessariamente que eu concorde com ele. Até em áreas bem mais técnicas e menos sujeitas à subjetividade, como muitos dos ramos da biologia, há livros dos quais eu gosto muito e há livros dos quais eu discordo bastante.

Eu já li a ESB (Edição Standard Brasileira) de Freud quase toda, e gosto muito do que eu chamo de brincadeira de a série antropológica, que são quatro livros: Totem e tabu, O futuro de uma ilusão, O mal estar na civilização e Moisés e o monoteísmo. Acontece que, quanto ao resto, apesar de concordar aqui e ali, eu discordo da maioria das explicações e conclusões, e tenho inúmeras críticas à psicanálise enquanto ciência e enquanto abordagem psicológica. Como diria Malinowski, “I found myself less and less inclined to accept in a wholesale manner the conclusions of Freud, still less those of every brand and sub-brand of psycho-analysis”, ou seja, eu me senti cada vez menos inclinado a aceitar a granel as conclusões da psicanálise. Aqui eu tenho que medir com cautela minhas palavras, pois há dois países onde a psicanálise ainda é forte, e um deles é o Brasil. Por isso, as chances de que algum simpatizante da psicanálise leia este post são grandes. Desta forma, eu não quero neste post listar aqueles que eu creio serem os problemas da psicanálise, nem iniciar um debate sobre essa abordagem versus aquela abordagem, não, isso é cansativo e não me interessa nem um pouco. Ao contrário, o que eu quero aqui é compartilhar o evento, um evento só, que me afastou de vez da psicanálise e, ao fazê-lo, tentar criar uma crítica construtiva, uma crítica tal que até os defensores da psicanálise irão concordar com ela.

Estávamos no ano de 2005. Nessa época, minha mulher ainda cursava psicologia e, sem haver ainda se decidido, estudava diferentes abordagens. Como eu sou um bibliófilo, eu lia muitos dos livros dela, e eu mesmo comprava alguns para mim. Pouco antes de 2005 eu havia comprado a ESB e já havia lido boa parte dela, o que não foi tarefa difícil: mesmo que eu discorde de muito do que Freud escreveu, devo dizer que o estilo dele é muito agradável, é uma escrita clara, bem elaborada, prazerosa, como é raro de se achar hoje em dia (em livros de não-ficção). E olha que eu estava lendo a tradução da tradução! Assim, curioso, eu comecei a frequentar alguns congressos e simpósios sobre psicanálise, e foi aí que meu interesse começou a minguar. Pois bem, em 2005 ocorreu a comemoração dos 100 anos do livro Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, e houve um simpósio sobre esse livro, uma série de palestras que durou uns dois dias, se não me falha a memória, em um hotel. A maioria dos professores convidados era da UFRJ, se não me falha novamente a memória, e eram professores bons, devo dizer, a crítica que estou prestes a fazer é uma crítica construtiva, e não um ataque pessoal.

Depois da palestra de uma determinada professora veio a sessão de perguntas. Como isso foi há mais de dez anos, não me recordo exatamente do diálogo, mas vou tentar reproduzir a ideia geral. Peguei o microfone e perguntei:

“Nos três ensaios, Freud explica as causas da inversão. Mas o livro já tem cem anos, e muita coisa nova foi descoberta de lá para cá. Assim, minha pergunta é a seguinte: quais são as causas da inversão para a psicanálise atual, o que foi descoberto de novo, o que foi modificado em relação aos três ensaios?”

Para quem não sabe, inversão é, grosso modo, o mesmo que homossexualidade.

A professora olhou para mim meio confusa. Ela disse:

“Como assim?”

“O que há de novo, o que foi descoberto de novo nesses últimos cem anos? O que foi mudado na teoria freudiana da inversão?”, respondi.

E ela então respondeu:

“Não há nada de novo. Nada foi mudado. A inversão ocorre da maneira descrita por Freud.”

E o microfone foi passado para o próximo na lista. Nesse momento “caiu a ficha”, e cheguei a ficar envergonhado. Percebi claramente onde eu estava. Percebi claramente que os palestrantes não eram cientistas, na concepção cética do termo. Eram pessoas que estavam tratando o que Freud escreveu há 100 anos (agora 110 anos) de forma quase religiosa, como se fossem cláusulas pétreas.

O que é irônico nessa situação é que o próprio Freud, ao que me parece, não era assim! Ele revisava os seus livros repetidamente, mudava conceitos, abandonava ideias. Posso estar enganado, mas se Freud vivesse hoje em dia ele mais que alegremente iria verificar a imensa quantidade de novos dados acumulados e reescrever o que fosse preciso reescrever, ou mesmo abandonar o que fosse preciso abandonar. Principalmente o Freud mais jovem que, ao contrário do Freud mais velho, tinha uma mente mais científica, como fica claro em alguns pontos do Projeto para uma psicologia científica de 1895. Eu não sei como Freud reagiria se ele estivesse, em pessoa, nessa palestra de 2005, mas não consigo deixar de pensar em Marx quando disse “se isso que vocês estão defendendo é marxismo, então eu não sou um marxista!”.

Esboço de uma rede de células nervosas desenhado por Freud para o "Projeto", 1895. Essa imagem é impressionante porque, na época, a estrutura do tecido nervoso ainda estava sendo descoberta!

Esboço de uma rede de células nervosas desenhado por Freud no “Projeto para uma psicologia científica”, de 1895. Essa imagem é impressionante porque, na época, a estrutura do tecido nervoso ainda estava sendo descoberta!

Esse foi o último contato que eu tive com a psicanálise.

A ciência avança, muda, progride. Eu não me canso de dizer que, hoje em dia, A origem das espécies é uma curiosidade histórica, ultrapassada, tão cheia de erros que com um marcador vermelho o livro parecerá estar com catapora. Foi um livro fundamental, um dos mais importantes livros na história da humanidade, mas se uma pessoa quiser aprender evolução hoje em dia, em 2016, eu indico o livro do Futuyma, não o do Darwin!

Se você é psicanalista, defensor ou simpatizante da psicanálise, eis a minha crítica construtiva: não trate ninguém como autoridade inquestionável, seja Freud ou Lacan. Questione tudo e todos. Acumule dados, entenda as evidências. E, principalmente, mude ou abandone as suas ideias, se as evidências apontarem em outra direção. É isso o que significa a palavra “ciências” no termo “ciências humanas”.

4 comentários sobre “Eu e a psicanálise

  1. Olá Gerardo,
    Muito bom o seu post. Sou psicólogo, não sou psicanalista, e trabalho com avaliação psicológica. Como trabalho com técnicas projetivas, a psicanálise muitas vezes surge como uma linguagem necessária para analisar esses instrumentos. Concordo com suas críticas sobre o caráter quase religioso com que a Psicanálise (e outras abordagens psicológicas) é encarada por seus seguidores. Aqui entra um problema que a Psicologia ainda está longe de resolver: Nem tudo ligado à Psicologia é ciência. Em alguns casos, nem mesmo há a pretensão de ser ciência. Conheço psicanalistas que defendem que a Psicanálise não deve ter pretensões de se adequar ao método científico. Isso para não falar daqueles que achando que estão “atualizando” a Psicanálise começam a estabelecer relações atá com a Física Quântica! O grande problema é que a Psicologia sendo uma área de interface (pode estar ligada à biologia, estatística, sociologia, filosofia, etc.) atrai muitos profissionais que até entendem de psicologia, mas que tem pouca condição de analisar mais profundamente as bases epistemológicas do conhecimento das diversas “psicologias”. Acredito que isso vem mudando, lentamente, nos cursos de graduação, mas ainda vai levar algumas décadas para a Psicologia Científica consiga se diferenciar mais claramente das pseudociências.
    Abraços, e escreva mais (sinto falta de mais posts…),
    Fred Abreu.

  2. Sinto-me agraciado por ter a chance de Lê-lo, Gerardo. Cada vez mais, parece ser um daqueles polímatas! Revelo minha quase completa ignorância sobre o assunto (com vergonha, claro, porque, se há autoestima, não pode nascer satisfação com a ignorância), mas também meu aprendizado em ler seu tópico! Aliás, muito bem redigido também o comentário do Fred Abreu, que o denuncia também como um leitor de alto nível!
    Abraço!

  3. Acabei chegando aqui pelo AstroPT, e aproveitando a coincidência por estar hoje pensando em psicanálise gostaria de fazer alguns comentários. A psicanálise, embora tenha se popularizado durante o início do século XX, tem muito mais “jeito” de algo do século XIX. É interessante pensar que os prêmios Nobel de medicina e fisiologia de 1904 e 1906 foram dados a Pavlov e Golgi & Cajal, respectivamente. Freud passou sua vida esperando o prêmio Nobel que nunca veio, já que ele se considerava um cientista, inclusive se colocando entre Copérnico e Darwin como você deve se lembrar de um livro dele que agora não me lembro qual. Cogitou-se dar-lhe o Nobel de literatura, mas isso também seria injusto, já que ele não era um autor de ficção – apesar de ter criado um instrumento de análise literária. A formação dele como neurologista é anterior à descoberta do neurônio e do mecanismo da sinapse, a sua compreensão de como o sistema nervoso funcionava não era muito diferente da de Descartes, relacionada mais ao sistema circulatório e, portanto, funcionando em termos de hidráulica e tendo a pressão como força motriz. Ainda hoje, pela falta de conhecimento do quanto a psicologia comportamental se desenvolveu, há muitos neurocientistas confundindo correlação com causa e efeito, procurando homúnculos e fantasmas na máquina ao invés de analisarem comportamento e variáveis fisiológicas. É curioso escutar as pessoas no dia a dia dizendo coisas como “eu entendo isso, mas no meu cérebro é como se…” Muito bom o seu texto, parabéns.

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