A internet e a estupidez humana

A humanidade tem ficado mais estúpida desde a popularização da internet?

A resposta é tanto “sim” como “não”.

Comecemos com o “não”.

É um fenômeno comum e recorrente em diversas culturas humanas achar que as gerações mais novas são mais rudes, mais mal-educadas, menos instruídas e menos intelectualizadas que as gerações mais antigas. Sempre que eu ouço alguém falar algo do naipe “antigamente se respeitava os mais velhos” me lembro das minhas aulas de grego clássico: não em apenas um, mas em diversos textos da época da guerra do Peloponeso (há dois milênios e meio), como por exemplo em muitas das peças de Aristofanes, se fala da corrupção dos jovens, que não respeitam mais os idosos, que não se interessam mais em aprender e que são mais fúteis e perdulários que a saudosa geração passada, essa sim composta de pessoas sábias e educadas.

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Eu e a psicanálise

Estava um dia desses relendo meu livro, procurando por erros de português — que, como uma maldição, parece que se multiplicam entre uma revisão e outra — quando me ocorreu algo sobre o qual nunca havia pensado. O título do meu livro é uma clara referência ao título de um livro de psicanálise, como eu explico na introdução. Acontece que, ao saber disso, o leitor pode achar que eu gosto ou mesmo que eu defendo a psicanálise, e isso está longe de estar correto. Continuar lendo

O doodle e a marcha

O Google publicou, recentemente, um doodle em homenagem ao 41º aniversário de descoberta de Lucy, o famoso fóssil de Australopithecus afarensis. Ao que parece, o doodle irritou algumas pessoas impermeáveis às ciências. Quando o Google fizer um doodle sobre Copérnico os defensores do geocentrismo também deverão se irritar, e quando o doodle for sobre Pasteur os defensores do movimento antivacinação irão protestar. Bem, eu também não gostei muito do doodle, mas por uma razão diametralmente oposta! Continuar lendo

Sobre o óbvio

Quando pensamos nos gênios que a humanidade teve a honra de ver surgir nos últimos mil anos, é difícil não vir à mente a figura barbuda de Galileu Galilei. Entre suas várias realizações está a solução para o problema do movimento, solução essa que atualmente conhecemos pelo nome de inércia e que foi formalmente descrita algum tempo depois por Newton em seu Philosophiae Naturalis Principia Mathematica. Convém lembrar que, poucas páginas após descrever a lei da inércia, Newton afirma que foi Galileu quem a descobriu, aparentemente uma das poucas passagens no Principia em que Newton dá créditos à outra pessoa. Continuar lendo

Percepção e realidade

Uma palavra: umwelt.

Quando comecei a estudar etologia, há muitos anos, esse foi um dos conceitos que mais me marcou, e um dos que mais me fascina até hoje. De uma maneira extremamente resumida e simplória, umwelt é o mundo como ele é experimentado por um determinado organismo. Como é o mundo para uma gaivota? Como é o mundo para um carrapato? Como é o mundo para um besouro? Tente não cometer aqui um erro básico: quando Thomas Nagel perguntou “como é ser um morcego”, muita gente tentou imaginar como deve ser a experiência de uma mente humana tendo acesso ao mundo exterior através dos órgãos sensoriais de um morcego, ou, de forma mais simplificada, como seria se você transportasse magicamente uma mente humana para o corpo de um morcego. Mas não é isso que entendemos por umwelt: a umwelt do morcego, ou seja, “como é ser um morcego”, só pode ser corretamente compreendida quanto imaginamos de que forma a mente de um morcego (e não a de um ser humano), usando os órgãos sensoriais de um morcego, percebe o mundo, a realidade externa subjetiva. Continuar lendo

Como calcular a RFR (Riqueza Filética Relativa)

Neste momento, dependendo de quem você é, você pode estar curioso ou preocupado. Caso você seja um estudante ou apenas uma pessoa que se interessa eventualmente pela biologia evolutiva, você está curioso para saber o que é essa tal de Riqueza Filética Relativa. Porém, caso você seja um professor ou um profissional da área, você deve estar começando a ficar preocupado. “O que raios é RFR?”, você se pergunta. “Como nunca ouvi falar nisso antes?”. Nesse momento, você começa a questionar sua competência e seu conhecimento, e talvez decida, sorrateiramente, dar uma checada no Google, antes de continuar a leitura, como quem mente para si mesmo “eu sei o que é, mas me escapou no momento, vou apenas dar uma relembrada…” Continuar lendo

A importância de ser herege

Eu tenho um curioso interesse, desprovido de quase qualquer utilidade, por etimologia e filologia. Se pararmos para pensar, há algumas semelhanças entre o par etimologia/filologia e a biologia evolutiva, quando se estuda origens comuns, padrões de divergência, semelhanças compartilhadas e outras coisas do tipo, como já escrevi aqui. Mas admito que, em grande parte, meu interesse por etimologia é apenas uma curiosidade, sem aplicações práticas, uma vez que a língua é viva, alvo de intermináveis vicissitudes. Por exemplo, de nada adianta saber que a palavra virtude significava originalmente “as qualidades positivas do sexo masculino”, ou num português direto “macheza”, “masculinidade”, “virilidade”, pois virtude vem do latim vir, que significa “homem”, “pessoa do sexo masculino”. Porém, posso usar a palavra virtude hoje em dia para descrever tanto homens como mulheres, uma vez que a sua origem etimológica não tem mais quase importância alguma para o sentido atual da palavra, a não ser que o meu interlocutor seja um professor de latim. Continuar lendo