Câncer e os becos sem saída evolutivos

Quando um termo científico é criado especificamente para denominar uma estrutura ou descrever um fenômeno quase não há margem para mal-entendidos ou confusões de significação: aquele termo simplesmente não existia anteriormente. Essa é uma das principais vantagens dessas construções gregas ou latinas que abundam nas ciências e que infelizmente parecem afugentar os iniciantes e o público leigo em geral: diaheliotropismo, leucocitopenia, paramagnetismo, entalpia, hipercolesterolemia, pirólise, cromossomo, termodinâmica… são todos eles termos que dão pouco espaço para interpretações equivocadas. É bom lembrar, para os mais incautos, que apesar de esses nomes conterem raizes gregas ou latinas, eles não existiam na Grécia ou em Roma: μεταβολή, mudança (que origina o termo “metabolismo”), é uma palavra que existia no grego antigo; já hemodiálise, polissacarídeo, entropia e tigmonastismo são termos construídos a partir de palavras gregas, mas que não existiam no grego clássico: se você abrisse a boca e falasse “polissacarídeo” na Atenas de Péricles, significaria algo como “o filho de muitos doces”… Continuar lendo

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Seleção e evolução não são sinônimos

Disse Borges (ou escreveu) no prólogo de Elogio das sombras: “O tempo ensinou-me algumas astúcias: evitar os sinônimos, que têm a desvantagem de sugerir diferenças imaginárias”. Enquanto Borges, discorrendo sobre sua estética, levantou a questão de se imaginar diferenças onde elas não existem, a presente e breve nota tem o intuito oposto: mostrar que abundam diferenças entre conceitos que julgamos perfeitamente intercambiáveis. Continuar lendo

Você não irá evoluir. Nunca!

Na postagem anterior, sobre a unidade Haldane, havia dito que muitos dos artigos desse weblog referem-se a temas que não quis ou não pude tratar em meu livro sobre biologia evolutiva. A presente nota é um caso precisamente oposto: discuti-a bastante em meu livro; contudo, como a internet possui uma visibilidade e um alcance bem maiores, gostaria de discutir esse tema aqui também. Continuar lendo

Reversão geomagnética e equilíbrio pontuado: uma possível relação?

Este artigo não é um “post” no sentido convencional: não é um ensaio sobre algum assunto já conhecido, nem a análise de algum tema em biologia evolutiva. Na verdade, trata-se de uma idéia para pesquisa, provavelmente inexeqüível, que me veio à mente quando li um livro sobre Teoria do Caos. Costumo pensar em propostas de pesquisas em algumas áreas que nem são a minha; elaborar hipóteses é uma tarefa divertida. Como a maioria delas não podemos, por uma razão ou outra, testar, porque não divulgá-las, caso alguém se interesse em pesquisá-las? É o que pretendo fazer aqui. Esse “post”, portanto, é direcionado para quem trabalha nesta área de pesquisa. Já adianto, contudo, que a hipótese não se apresenta cientificamente rigorosa, e penso que é um trabalho muito complicado pô-la à prova. Continuar lendo

A fossilização gênica e os peixes de cavernas

Quando comecei a ensinar biologia, o que já faz relativamente um bom tempo, estava despreparado (como muitos de nós…) para uma série de questionamentos, e desconhecia boa parte do que sei hoje a respeito do corpo teórico da biologia evolutiva. Mea culpa. Esse despreparo me fez tomar certos caminhos em sala de aula que hoje, certamente, não tomaria; o tema deste artigo é um exemplo disso. Naquela época, como ainda hoje, os livros didáticos forneciam quase sempre os mesmos exemplos e as mesmas analogias nos capítulos sobre evolução: o pescoço das girafas, as patas anteriores de tetrápodos, o apêndice cecal, os olhos dos peixes cavernícolas etc… isso não só é maçante como, em algumas ocasiões (o pescoço das girafas…), incorreto. Lembro-me de estar numa turma de segundo grau (ainda não se chamava de ensino médio) falando de transmissão de caracteres adquiridos e da história da biologia evolutiva no século XIX quando um aluno me perguntou algo mais ou menos assim: “Se os peixes das cavernas descendem de ancestrais com olhos, e se seus olhos não são mais usados, deveríamos encontrar na população peixes com olhos, pois não há pressão seletiva para a perda dos olhos”. Logicamente, o aluno não se expressou exatamente com estas palavras, mas essa era a idéia central do seu questionamento: porque os peixes cavernícolas não têm olhos, se não há transmissão de caracteres adquiridos? Continuar lendo