Discordando de Darwin

O título dessa postagem, não estou alheio a esse perigo, pode atrair a atenção de alguns criacionistas — mais ainda aquela cepa de criacionistas que leem apenas o título do artigo — que prontamente irão compartilhá-lo com uma descrição do tipo “até o autor do blog Biologia Evolutiva diz que evolução não existe”. Contudo, qualquer pessoa um pouco mais lúcida perceberá, lendo o post, que não se trata disso, mas sim de algo bem diferente: para a ciência não interessa quem disse, mas o que foi dito. Argumentos de autoridade não têm lugar nas ciências. Não importa se Einstein disse isso, ou se Newton disse aquilo: se o enunciado está errado, não importa quem o enunciou, ele está errado e acabou. Por isso, discordar de autoridades é não apenas saudável para as ciências, mas na verdade uma de suas características sine qua non. Continuar lendo

Evolução: testável e falseável

Eu tive um professor de filosofia bastante competente, do qual eu e boa parte da turma gostávamos muito. Na verdade, ele nos deu aulas em uma cadeira intitulada introdução à filosofia, que possuía apenas um terço da carga horária da cadeira de filosofia que meu curso originalmente possuía. Não irei citar seu nome aqui por uma questão elementar de privacidade — se ele ler esse post, o que é altamente improvável, ele vai saber que falo dele; para os demais leitores do blog, o que interessa é a história, e não os personagens. Oriundo das ciências humanas, ele tinha uma visão epistemológica um pouco diferente da nossa, criados dentro das ciências naturais, e seguia uma linha popperiana. Devo confessar (confissões são muito perigosas na internet atual, e portanto confessarei apenas o necessário) que nunca li Popper, o que conheço das ideias dele é o que li de terceiros, ou seja, o que outros autores escreveram sobre Popper. Já tive o prazer de ler Kuhn e, se Popper for uma leitura tão agradável quanto Kuhn, definitivamente vale a pena. Continuar lendo

O paradoxo de Dawkins

(parte 1 de uma postagem dividida em duas partes)

Paradoxos são declarações ou postulados bem curiosos. Muitos dos paradoxos são claramente falsídicos, onde um ou outro detalhe despercebido nos leva a uma conclusão absurda. Contudo, me interessa aqui o que denominamos de paradoxos verídicos: uma declaração verídica, verdadeira, nos leva a uma conclusão aparentemente absurda, que contradiz o senso comum, mas que, apesar disso, está correta. Continuar lendo

Do cão à tamarutaca: como nós vemos o mundo

Está na descrição deste blog, no fim da coluna lateral à direita: Meu objetivo principal é produzir divulgação científica, e por isso muitas das ideias que discutirei aqui parecerão óbvias para os especialistas. Este é precisamente o caso da postagem atual, um tema, como se verá, que todo (bom) filósofo e biólogo cognitivo deve (ou deveria) saber. Ainda assim, convém repetirmos o que já é conhecido, pois não é raro que um conceito ou teoria comum na ciência seja ampla e impiedosamente ignorado por boa parte das pessoas comuns. Afinal, se os divulgadores científicos pararem de comentar o óbvio e o já bem estabelecido, limitando-se a focar as novidades e as descobertas recentes, não serão poucos os que, ao se depararem com um conceito científico básico e ainda assim para eles inédito, dirão “mas eu nunca li sobre isso!”. Continuar lendo

O caráter especulativo da biologia evolutiva

Como é bem sabido, a biologia evolutiva é eminentemente uma ciência histórica, ou seja, uma ciência que se debruça sobre o que já ocorreu, que observa eventos passados e, a partir desses eventos, tenta estabelecer a história evolutiva dos seres vivos. É certo que se trata de uma ciência capaz de estabelecer previsões, testar hipóteses e, coisa que poucos percebem, elaborar e conduzir experimentos (em laboratório ou em campo). Mas, não podemos negar, o aspecto historiográfico da biologia evolutiva é o que mais prevalece, é o que mais se sobressai. Continuar lendo

O design estúpido

Costumo falar que um fato histórico deve ser compreendido e analisado dentro do contexto histórico no qual está inserido. É muito simples dizermos que os europeus pós império romano eram um bando de sujismundos, que fugiam dos banhos como um vampiro foge de uma cruz. De fato, a queda de Roma, com suas mais de 950 casas de banho (thermae), é também a queda da higiene na Europa. Não há como não compararmos os romanos, cuja esmagadora maioria da população se banhava diariamente, com Luis XIV e seus famigerados três banhos em toda a vida adulta, e seu palácio, Versailles, que só foi ter um banheiro – para banhos – em 1768 (há uma anedota romana, em que um estrangeiro pergunta “por que vocês, romanos, tomam um banho todos os dias?”, e o romano responde “porque não temos tempo de tomar dois”). Contudo, convém considerarmos historicamente esse hábito europeu de não tomar banho. Em primeiro lugar, a ascensão do cristianismo após a queda do Império Romano reduziu ou mesmo proibiu o contato com o corpo, a limpeza das partes e a atividade, certamente erótica, do banho. Não é exagero dizer que o cristianismo, com sua pudicícia mórbida, é a religião da falta de higiene (como nos diz Foucault em seu A história da sexualidade, volume II). Além disso, convém percebermos a vertiginosa queda tecnológica, quando comparamos o Império Romano com as idades média e moderna que seguem-no. Tomar um banho quente era fácil em Roma, mas desconfortavelmente difícil na Europa medieval. Esquentar a água não é uma coisa simples, não é como entrar debaixo de um chuveiro elétrico nos dias de hoje e, pra quem nunca morou na Europa, principalmente na Europa setentrional, saiba que o troço é frio! Em terceiro lugar, o banho era uma atividade perigosa: a relação causal entre bactérias (ou microorganismos em geral) e doenças só foi estabelecida por Koch em 1876; logo, não era incomum as pessoas pensarem que o banho poderia adoecê-las. Bem, toda essa contextualização histórica não altera o terrível fedor que deveria imperar no palácio de Versailles no século XVIII. Contudo, permite que nós o compreendamos mais adequadamente, que saibamos quais suas razões. Continuar lendo

Cabeleira cabeluda

“Por que isso é assim? Por que aquilo é assado?”. As ciências têm que responder uma série de perguntas, e elas são infinitas. Para muitas pessoas leigas, contudo, pode ser bastante decepcionante o fato de que a certeza estatística não é a mesma coisa que elas definem como certeza, que correlações não implicam em causalidade, e que em muitas situações os cientistas não querem ou não podem (lembre-se que o operador “ou” pode incluir ambas as opções) responder as perguntas que lhes são endereçadas. No caso da biologia evolutiva, creio sinceramente que há uma série de perguntas que não apenas não podem ser adequadamente respondidas como, eventualmente, é uma perda de tempo tentar respondê-las, pelo menos quando aquela área de conhecimento ainda não acumulou informações o bastante. Continuar lendo