Seleção e evolução não são sinônimos

Disse Borges (ou escreveu) no prólogo de Elogio das sombras: “O tempo ensinou-me algumas astúcias: evitar os sinônimos, que têm a desvantagem de sugerir diferenças imaginárias”. Enquanto Borges, discorrendo sobre sua estética, levantou a questão de se imaginar diferenças onde elas não existem, a presente e breve nota tem o intuito oposto: mostrar que abundam diferenças entre conceitos que julgamos perfeitamente intercambiáveis.

Um desses falsos sinônimos, do qual eu gosto especialmente de falar, é o par reprodução e sexo. Para a maior parte dos que têm um conhecimento mais elaborado de ciências esses termos não significam a mesma coisa, apesar do público leigo não perceber isso tão facilmente. Ainda assim, mesmo os que têm maior intimidade com a biologia derrapam quando tentam conceber sexo sem reprodução. Vejamos:

O tratamento matemático que usarei com esses termos consiste em estabelecer que há reprodução sem sexo e que há sexo sem reprodução. Não temos muitas dificuldades na primeira das tarefas, pois quase todo mundo conhece ou já ouviu falar de reprodução assexuada, também chamada em biologia de clonagem. Nesse processo, há produção de cópias sem que ocorram alterações no material genético dos envolvidos, lembrando que em biologia o termo sexo significa recombinação genética, embaralhamento do material genético. Até agora, sem problemas. Porém, isso dito, é fácil perceber porque muitos, mesmo os que conhecem um pouco mais sobre biologia, se atrapalham na segunda tarefa: encontrar casos onde ocorre sexo sem que haja reprodução. Sexo sem reprodução não é, como se costuma pensar, casais tendo relações com camisinha ou usando pílula anticoncepcional. A cópula, que pode resultar ou não em uma reprodução, não é sexo no sentido biológico do termo (eis aqui, portanto, outro par de falsos sinônimos em biologia: sexo e cópula). Quando um casal tem relações sexuais usando preservativo, não ocorre nem reprodução nem sexo. O que seria, portanto, sexo sem reprodução? Deve ser um processo de recombinação genética (sexo), sem que haja produção de novas cópias. Com isso em mente, é fácil encontrarmos um exemplo de sexo sem reprodução: a conjugação, como a famosa troca de micronúcleos em Paramecium (a maioria dos alunos do ensino médio e de seus professores, tão apegados a conceitos consagrados unicamente pelo uso e incapazes de abandoná-los, estrebuchar-se-ão até o fim, jamais aceitando que conjugação não é um tipo de reprodução…).

Dois protozoários da espécie "Paramecium caudatum" em processo de conjugação (Fonte: Science Photo Library)

O objetivo dessa nota, contudo, é desatar outro par de falsos sinônimos, um par bastante presente na biologia evolutiva: evolução e seleção. Fazendo o mesmo tratamento matemático que fiz com o par reprodução/sexo, podemos dizer que há evolução sem seleção e, de forma inversa, há seleção sem evolução.

Evolução sem seleção é, certamente, bem mais simples de explicar. Antes de tudo, é necessária uma definição, nem que seja uma “definição de trabalho”, do que é evolução. De forma bastante resumida, evolução é a alteração da constituição gênica de uma população. Com esse conceito em mente, podemos ver que a seleção é uma, mas de forma alguma a única, das forças que promovem evolução: mudanças na constituição genética do pool, afetadas por fatores tão fortuitos como a segregação cromossômica e o encontro dos gametas, são devidas principalmente ao acaso, e nós humanos temos grandes dificuldades em aceitar a ocorrência do acaso, bem como suas conseqüências. Uma população que origina uma geração seguinte tem muitas semelhanças com um sorteio da loteria federal ou, para os mais saudosos, aquelas ridículas montanhas de cartas dos programas de TV da década de oitenta, nos quais um apresentador abobalhado tentava determinar, ao pegar as cartas jogadas para o ar, o feliz ganhador de uma cafeteira elétrica ou se uma bicicleta. Gerar um descendente é como colocar as mãos em dois sacos gigantescos de bolas numeradas e retirar uma de cada saco, sendo que nesse caso as bolas são os gametas.

A evolução devida ao acaso, que denominamos deriva, é o fenômeno ubíquo, comum; constitui nossa hipótese nula, a null hypothesis, a H0. Ela é presumivelmente verdadeira, a não ser que as mudanças evolutivas não se devam ao acaso. Nesse caso, quando mudanças genéticas em uma população comprovadamente não se devem a processos aleatórios, vamos descartar a deriva em favor de nossa hipótese alternativa, nossa H1, que é a seleção.

Antes de continuarmos, uma breve digressão: “e as mutações”, dirão alguns, “as mutações também não alteram a constituição genética do pool?”. Sim, poderíamos listar esses três fatores: deriva, seleção e mutações. Acontece que o peso matemático das mutações para o pool gênico é tão baixo que podemos desprezá-la aqui. Nunca é demais lembrar, portanto, que as mutações constituem a mais fraca das forças capazes de alterar a constituição genética de uma população.

Seleção é uma diferença consistente nas taxas reprodutivas entre entidades biológicas distintas. Essa definição, como já mencionei diversas vezes nesse weblog, é a de Futuyma e, como já deu para perceber, a que eu mais uso (há outras formas de definirmos seleção, que apresentam vantagens e desvantagens particulares mas que, essencialmente, dão no mesmo). Assim sendo, quando uma variante populacional A tem uma taxa reprodutiva significativamente diferente de uma variante populacional B (para mais ou para menos), dizemos que há seleção. Logo, é fácil percebermos que os processos seletivos alteram a constituição genética da população ao longo das gerações. Contudo, é momento de indagarmos: se evolução sem seleção é algo fácil de explicar, o que dizer de seleção sem evolução? É possível?

A resposta é sim, e a explicação está em como definimos o processo seletivo: se houvéssemos definido seleção como uma diferença consistente nas taxas reprodutivas entre entidades biológicas geneticamente distintas, o termo “geneticamente” faria toda a diferença. Veja: quando dizemos que A tem uma taxa reprodutiva maior que B, supomos imediatamente que A se reproduzirá mais e que a porcentagem de Azinhos nas gerações seguintes aumentará. Mas isso só é verdadeiro se supusermos que a característica responsável pelo aumento do fitness (taxa reprodutiva média per capita) de A é determinada geneticamente, o que nem sempre é verdade. Quando as cores de uma espécie de borboleta são determinadas geneticamente, se as borboletas azuis têm uma taxa reprodutiva maior que as borboletas vermelhas, podemos licitamente concluir que a freqüência de borboletas azuis irá aumentar nas gerações seguintes, o que constitui um processo evolutivo. Porém, se imaginarmos que as diferenças na coloração são resultado de diferentes alimentos consumidos pelos insetos e não de suas diferenças genéticas, mesmo que haja uma seleção clara e mensurável, não teremos evolução: os filhotes das borboletas azuis e vermelhas terão, após sua muda imaginal, essencialmente as mesmas cores. Além disso, a constituição genética da população manter-se-ia inalterada.

Quando as diferenças nas taxas reprodutivas entre entidades biológicas não se devem a fatores genéticos, nem a resultados de diferenças genéticas (as borboletas azuis do exemplo hipotético poderiam, por exemplo, ter um comportamento geneticamente distinto, capaz de modular seus hábitos alimentares de forma a buscar pelos alimentos que modifiquem satisfatoriamente sua cor), não há porque pensar que a seleção, mesmo ocorrendo, altere a composição genética das gerações seguintes. Assim, ocorre seleção sem que ocorra evolução.

3 comentários sobre “Seleção e evolução não são sinônimos

    • Penso que não, pois na seleção estabilizadora há uma clara alteração na constituição genética da população, bem como uma alteração mensurável nas frequências alélicas. O que nos faz achar que não há seleção é o fato da média, da mediana e da moda da característica quantificável em questão permanecer inalterada.

  1. No Ano Internacional da Biodiversidade, o Museu Exploratório de Ciências (MC) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) realiza no dia 12 de agosto, em Campinas, o fórum “Biodiversidade em perspectiva: patrimônio genético, patentes e pirataria”. Afinal, a quem deve pertencer os royalties das descobertas científicas no Brasil e no resto do mundo?
    O evento é gratuito e acontece no Auditório do Centro de Convenções da Unicamp (CDC) das 9 às 17 horas. Podem participar pesquisadores, professores, estudantes e demais interessados no assunto. As inscrições devem ser realizadas no site http://www.cgu.unicamp.br até o dia 10 de agosto.

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