Abaixo com os filos!

(parte 2 de uma postagem dividida em duas partes)

Todos nós usamos muletas, figurativamente, é claro. Uma muleta é um objeto ou, nesse caso, um processo mental que te ajuda a enfrentar uma dificuldade passageira. A palavra fundamental aqui é essa: passageira.  Todo mundo concorda que apesar dos seus benefícios as muletas, literais ou figuradas, devem ser abandonadas mais cedo ou mais tarde, se você quiser realmente progredir e alcançar níveis mais elevados. Isso tudo é muito bonito, lugar comum em tudo quanto é palestra motivacional e livro bobo de autoajuda. Mas, mais uma vez, é muito mais fácil falar do que fazer. Continuar lendo

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O paradoxo de Dawkins

(parte 1 de uma postagem dividida em duas partes)

Paradoxos são declarações ou postulados bem curiosos. Muitos dos paradoxos são claramente falsídicos, onde um ou outro detalhe despercebido nos leva a uma conclusão absurda. Contudo, me interessa aqui o que denominamos de paradoxos verídicos: uma declaração verídica, verdadeira, nos leva a uma conclusão aparentemente absurda, que contradiz o senso comum, mas que, apesar disso, está correta. Continuar lendo

Gould e a sistemática filogenética

Efetuei alguns ataques a certas idéias e concepções de Richard Dawkins em posts passados. Poderia até paracer que sou contrário às suas idéias, ou mesmo que eu antipatizo com ele; contudo, não é o caso. O “gene egoísta”, por exemplo, foi fundamental à minha estruturação como um amante da biologia e, principalmente, da biologia evolutiva, quando eu tinha por volta de dezesseis ou dezessete anos. As idéias de Dawkins eram água fresca e límpida para a minha sede, sobretudo quando postas tête-à-tête com a imensidão de absurdos que eu li e ouvi durante meu segundo grau (não consigo escrever ensino médio…). Certas passagens, como a que tratava dos replicadores nos mares primitivos ou a em que Dawkins atacava a seleção de grupo, me pareceram fundamentais e modificaram substancialmente a forma como eu entendia e pensava o processo evolutivo. Gostaria muito de ter ido ao encontro da Animal Behavior Society ano passado (no qual Dawkins estava presente) em Goiás, mas minha liseira, de caráter crônico, progressivo e degenerativo, não me permitiu. Continuar lendo

Eu não acredito em evolução

Não, o título desse artigo não é uma brincadeira, nem algum outro tipo de ironia. Significa exatamente o que quer significar: eu não acredito em biologia evolutiva, não mais do que eu acredito em zoologia ou botânica. Do mesmo modo, não acredito em física — muito menos no modelo padrão da física quântica —, nem em química, nem na geologia ou na astronomia. Deixe-me discorrer sobre o porquê disso. Continuar lendo

O dilema do prisioneiro e a crítica ao reducionismo

Tive um professor de filosofia que, em suas aulas, reiterava sempre que não compreendia os alunos que diziam detestar química. “O que eles querem dizer com isso, que detestam seus próprios corpos? Que detestam a roupa que vestem, a cadeira em que sentam, o mundo em que vivem?”. O que o professor estava fazendo era chamar nossa atenção para a importância do discurso: não gostar de estudar química é uma coisa; dizer que “detesta a química” é dizer que detesta os hádrons e os léptons, os bósons e os férmions — ou seja, o mundo inteiro. É importante tomar cuidado com o discurso, pois num piscar de olhos estamos fazendo um elogio à ignorância, quando dizemos coisas como “detesto química”. Bem melhor seria dizer que a química enquanto ciência é importante, que respeita quem a estuda, mas que “não é minha praia”. É bem mais bonito e elegante; além disso, se nós fomos obrigados a estudar disciplinas com as quais não nos identificamos, é culpa de nossos professores e pedagogos, e não da disciplina em si… Eu, por exemplo, respeito bastante o trabalho dos engenheiros; adoro assistir programas como “megaconstruções”, “o segredo das coisas” ou “obras incríveis”, no National Geographic e no Discovery. Contudo, jamais poderia ser engenheiro ou físico, pois não tenho quase nenhuma habilidade matemática… Já se vão quase vinte anos que fiz cálculo I, e para mim, hoje em dia, integral é um leite que não foi desnatado. Assim sendo, admiro quem utiliza desenvoltamente a matemática, pois “não é minha praia”. Continuar lendo

A questão da seleção multinível

No capítulo sobre seleção do meu livro ensaiei iniciar uma discussão sobre a “unidade de seleção” nos processos seletivos, ou seja, qual a entidade biológica que tem sua frequência aumentada em virtude dos processos de seleção. Esse é um tema bastante controverso em biologia evolutiva, e rapidamente resolvi abandoná-lo no livro, para me focar na explicação dos conceitos fundamentais relacionados à seleção propriamente, pois desde o começo planejei escrever uma obra bastante resumida e curta. Agora, porém, posso tentar escrever uma linha ou duas sobre a unidade de seleção; esse artigo é uma primeira e superficial exploração deste tema. Continuar lendo