Epigenética e Lamarquismo

Costumo introduzir meus artigos com um assunto aparentemente sem relação alguma com o tema central. Esse costume não é de forma alguma uma ideia original minha, aprendi a escrever assim lendo os ensaios de Stephen Jay Gould na Natural History. Minha mulher, por sinal, detesta essas “enroladas desnecessárias”, e preferiria que eu escrevesse indo direto ao ponto. Às vezes eu mesmo, ao reler alguma postagem, acho esse meu hábito meio chato. O presente artigo, contudo, é sobre um assunto tão complexo e indigesto que terei que abandonar completamente esse meu hábito Gouldiano de “enrolar”, se eu quiser que algum leitor entenda alguma coisa. Na verdade, farei até mesmo um breve roteiro do que irei explorar, um roadmap, a fim de aumentar a compreensão do leitor: irei inicialmente defender que a ciência é um processo objetivo, que procura eliminar a subjetividade, os preconceitos e as paixões humanas, e irei defender que isso é possível. Farei isso para poder, de forma objetiva e imparcial, passar para o tópico seguinte, que é o de esclarecer o conceito de “lamarquismo”, e já adianto que não é o que a imensa maioria dos livros didáticos e dos sites da internet dizem ser. Em seguida, irei brevemente explicar o que é epigenética, seus mecanismos e as recentes descobertas nesse campo. Ao final, irei discorrer sobre se a epigenética representa ou não um renascimento do lamarquismo, e qual a importância disso para a biologia evolutiva. Muito bem, mãos à obra. Continuar lendo

O ENEM e o pobre Lamarck

Não, não pretendo falar sobre a confusão que orbita a mais recente edição do Enem; isso as mais diversas agências de informação podem fazer melhor. O que me interessa aqui é discorrer brevemente sobre algo que foi praticamente deixado de lado, que é o conteúdo do exame, especificamente no que diz respeito à única questão diretamente relacionada com a biologia evolutiva. Continuar lendo

Darwin, Lamarck e a influência do mundo real

Os professores do ensino médio (e eu estou incluído nesse peculiar grupo social) repetem tão exaustivamente certos conceitos que acabam por minar quase que completamente nossa capacidade analítica, nossa capacidade de pensar e estabelecer relações por nós mesmos. É certo que vários aspectos do processo cognitivo requerem repetições, mas não outros – muito menos todos! Uma dos exemplos curiosos dessas repetições nem sempre “adequadas” é a relação que acabamos sedimentando em nossas mentes das diferentes hipóteses evolutivas (que muitos chamam de “teorias”, como na famigerada frase “a teoria de Lamarck…”) com o mundo real, a realidade tangível. Senão vejamos. Continuar lendo

Darwin, Lamarck e formigas

Quem acompanha este blog já deve ter percebido que tenho uma série de críticas à maneira como a biologia evolutiva é explorada no ensino médio (sempre acabo sem querer escrevendo “segundo grau”), bem como à maneira como esses conhecimentos são avaliados. Não só há incorreções, como elas são praticamente as mesmas, em diferentes materiais didáticos, de diferentes cidades e épocas. Na verdade, os livros de biologia de ensino médio do Brasil são assombrosamente parecidos: até a sequência dos capítulos é a mesma! Lembro-me de em 94 ter vindo às minhas mãos, por acidente, um livro de biologia francês, de um nível equivalente ao nosso segundo grau (mas um pouco mais aprofundado, pois era para o baccalauréat scientifique)… fiquei fascinado: não porque o livro fosse fantástico, mas sim porque a abordagem era tão diferente, a sequência dos capítulos e a estruturação em geral era tão incomum, as questões eram tão inesperadas… devo confessar que me arrependo até hoje de ter devolvido o livro para o dono; mas, enfim, temos que praticar a honestidade. Continuar lendo