Eu e a psicanálise

Estava um dia desses relendo meu livro, procurando por erros de português — que, como uma maldição, parece que se multiplicam entre uma revisão e outra — quando me ocorreu algo sobre o qual nunca havia pensado. O título do meu livro é uma clara referência ao título de um livro de psicanálise, como eu explico na introdução. Acontece que, ao saber disso, o leitor pode achar que eu gosto ou mesmo que eu defendo a psicanálise, e isso está longe de estar correto. Continuar lendo

Por que dormimos? Por que sonhamos?

Quando comecei a me interessar por psicanálise (interesse que se esvaeceu em pouco tempo…) tive a chance de participar de um congresso comemorativo dos cem anos de publicação da “Interpretação dos sonhos”, de Freud. Confesso que essa é uma obra que não li, pois sou mais interessado no chamado ciclo “antropológico” de Freud (“o mal estar na civilização”, “o futuro de uma ilusão”, “totem e tabu”, “Moisés e o monoteísmo” etc.), mas conheço um pouco do livro, e já li algumas passagens. Deixando de lado a questão da validade das hipóteses freudianas, é interessante notar que a natureza dos sonhos depende necessariamente das particularidades únicas do aparelho psíquico humano, que se supõem inexistentes em outras espécies animais. Nesse congresso em particular a maior parte dos palestrantes tinha uma orientação lacaniana, e daí a importância dada à palavra e aos discursos na atividade onírica: boa parte das análises e interpretações baseavam-se na natureza do discurso, nos detalhes às vezes mínimos da associação das palavras. Pode-se supor que não há sonhos se não houver linguagem, da mesma maneira que muitos teóricos afirmam que não há pensamento se não houver linguagem; logo, não há sonhos se não houver linguagem e pensamento. Desta forma, mesmo que validemos as hipóteses freudianas e lacanianas, não poderíamos utilizar (ou pelo menos não da forma que hoje se encontra…) o que foi construído pela psicanálise para tentar explicar a origem do sono e dos sonhos, por uma razão bastante simples: uma grande quantidade de outros animais dorme e sonha. Continuar lendo

Psicologia evolutiva, oogamia, homossexualidade e outros assuntos

Em seu livro escrito num campo de prisioneiros russo (intitulado postumamente como “The natural science of human species”, mas que eu chamo simplesmente de “Manuscrito russo”), Lorenz defende uma união das psicologias em suas várias abordagens, uma união que se dê no seio de uma ciência mais abrangente, na qual as psicologias (o plural aqui é proposital) seriam inseridas, e essa ciência mais abrangente seria a biologia. O que Lorenz propôs não foi uma subordinação das psicologias à biologia, muito menos que se implementasse na psicologia esse tão nefasto e indesejável fenômeno chamado reducionismo (vale lembrar que Lorenz era um incansável crítico do behaviorismo e de seu reducionismo positivista). O que Lorenz propunha, isso sim, é que as psicologias entendessem o ser humano como uma entidade natural, dentro de um mundo orgânico evolutivamente formado e diversificado. A mente humana, bem como a mente de outros mamíferos, não pode ser “reduzida” ao funcionamento de seus neurônios; apesar disso, dentro de uma perspectiva materialista, a mente dos animais (o homem incluído), por mais complexa que seja, resulta de processos biológicos. Freud tece uma opinião semelhante (até certo ponto…) em seu “Projeto para uma psicologia científica” de 1895. Continuar lendo

Por que sou utilitarista

Quando estou numa aula de biologia evolutiva, ou num seminário sobre evolução, ou mesmo nos intermináveis debates sobre criacionismo versus ciências, percebo que há dois conceitos-chave das idéias de Darwin e da biologia evolutiva atual (pois, como é adequado lembrar, são coisas diferentes) que incomodam bastante aqueles que têm um pensamento mais profundamente religioso, mais místico, e que são mais devotos de forma geral. Uso aqui o termo religioso em sua concepção mais simples, referindo-me àquele que tem escrúpulos religiosos, em oposição ao humanista; poderíamos pensar em qualquer religião moderna, mas baseado em minhas experiências pessoais, estou aqui me referindo às variantes cristãs, o catolicismo e o protestantismo. Continuar lendo