Drogas e literatura

Eu tenho certa aversão a polêmica e a confusão. Especialmente na atual era da internet, onde são tão comuns as agressões gratuitas e os comentários grosseiros, onde muitas pessoas não têm filtro algum para escrever ataques que seriam incapazes de dizer pessoalmente a seus interlocutores, e onde abunda a perigosa combinação de analfabetismo científico com presunção e grosseria, eu evito confusão a todo custo.

Até mesmo aqui, no meu blog, que é meu e onde eu, dentro dos limites da legalidade e das normas do serviço que me hospeda (o WordPress), poderia falar sobre o que quiser, mesmo aqui eu evito tocar em temas polêmicos. Procuro não falar sobre religião, sobre ateísmo, sobre homossexualidade, sobre abortamento, sobre direitos animais, sobre vegetarianismo, sobre drogas… É bem certo que, caso eu fizesse e caso os comentários grosseiros e enfurecidos começassem a chover, eu poderia simplesmente eliminá-los, coisa que já faço vez por outra com alguns comentários escritos por certos camaradas “sem noção” (alguns eu até deixo, como testamento da estultícia de seu autor).

Mas prefiro não escrever. Hoje, contudo, vou abrir uma pequena e quase imperceptível brecha para o último tema da lista acima: drogas.

Tecnicamente falando, irei me referir a drogas psicotrópicas, e não a “drogas” apenas. Todo psicotrópico é uma droga, mas nem toda droga é um psicotrópico. Cetoprofeno, Penicilina, simeticona, omeprazol e diclofenaco são drogas (por sinal, vendidas na drogaria). Há um adesivo de carros onde se lê “as drogas matam”. Será? As drogas salvam milhões de vidas anualmente.

Portanto, estamos falando de psicotrópicos, um subgrupo dentro das drogas. E, no debate a respeito dos psicotrópicos, que é um debate importante no mundo atual, a quantidade de desinformação, de crendices e de inverdades é alarmante. E uma imensa parcela da culpa é da mídia. Desde “o crack vicia se usado uma única vez” até “o ice derrete o cérebro do usuário”, o papel da mídia na desinformação a respeito dos psicotrópicos é esmagador.

Por isso, resolvi escrever um livro, para colocar o meu ponto de vista, para contribuir um pouco neste debate. Não é um livro técnico, onde eu explico o que são os psicotrópicos, suas vantagens e desvantagens, o problema da “guerra às drogas”, a desinformação, o papel da mídia e dos governos etc. Não é nada disso. Leia de novo lá em cima: eu não quero conflito, e mantenho a minha opinião basicamente comigo mesmo, nem com certos amigos mais próximos me sinto à vontade em compartilhá-la.

capa

O que fiz foi um pouco diferente, na verdade bem diferente: escrevi um livro de ficção para falar de psicotrópicos. Seu nome é Os princípios ativos. São dez contos curtos, minha modalidade (ou forma) ficcional preferida. Publiquei-o na Kindle Store da Amazon, pelo menor preço que o sistema permite: 1 dólar. O Kindle é um excelente aparelho, sempre fui fã de tinta eletrônica (que é infinitamente melhor que LCD para ler livros). Mas, mesmo que você não tenha um Kindle, você pode comprar e ler os livros da Amazon (inclusive o meu!) em um celular, tablet, laptop ou desktop, baixando o aplicativo do Kindle, que está disponível para Android, iOS, Mac Os e Windows (quem usa Linux pode usar o Kindle Cloud Reader pelo navegador). Bem, eis o link para o meu livro na Kindle Store:

Os princípios ativos” na Kindle Store.

A loja norte-americana da Kindle, mas não a brasileira, permite ler o prefácio e as primeiras páginas (clicando aqui e depois em “look inside”).

Não posso revelar meu objetivo original ao escrever esses contos, não é algo adequado em se tratando de ficção. Para tentar descobri-lo, ou para criar sua própria explicação, você terá que ler os contos.

Mas um outro objetivo eu posso revelar aqui: mostrar que, apesar de fazerem parte de um conjunto que pode ser descrito e caracterizado, as drogas psicotrópicas são tão diferentes umas das outras em suas propriedades (efeitos, aplicações, toxicidade, tolerância, dependência etc) que o atual debate, da forma como é conduzido, é quase sem sentido. É como alguém que diz “eu gosto de música”, “ok, vou pôr uma música aqui, o que você quer?”, “qualquer uma, eu gosto de qualquer música”. Mas espere um pouco, qualquer música? Beethoven, Pink Floyd, Tim Maia, Nine Inch Nails, Charlie Parker, Depeche Mode, Os Mutantes, Erik Satie, Gerson King Combo, Bob Marley… é tudo igual? Claro que não. Não só eles têm públicos diferentes, mas são escutados em situações diferentes e com objetivos diferentes. Afirmar que “Alfredo é usuário de drogas” não é dizer muita coisa. Na verdade, é dizer quase nada, uma vez que, com exceção de bebês, praticamente todas as pessoas usam ou usaram cafeína, por exemplo.

O leitor mais sagaz rapidamente perceberá a minha primeira intenção, por ora velada. E, ao fazê-lo, o meu segundo objetivo, mostrar que os psicotrópicos são bem diferentes uns dos outros, ficará claro.

Mais não falarei… até mesmo para evitar a polêmica.

3 comentários sobre “Drogas e literatura

  1. Pingback: Drogas e literatura | Biólogo31

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