Diferenças

Um bom biólogo evolutivo deve ser capaz de explicar adequadamente, para uma pessoa leiga, que certos conceitos e ideias que ela toma como claros e sólidos são, para os familiarizados com a ciência, toscos e absurdos. Algumas das perguntas mais comuns que ouvimos são tão incoerentes que sequer têm resposta, como, por exemplo, “quem é mais evoluído, A ou B?”. Perguntar isso é como perguntar quanto é oito dividido por zero. Uma bobagem como essa não tem resposta e não se deve tentar respondê-la, pois isso seria dar crédito à pergunta e, por fim, validá-la. Ao contrário, deve-se explicar para o interlocutor que não há divisão por zero, e que não há sequência evolutiva de entidades atualmente existentes. Continuar lendo

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A idade média é agora: uma pequena nota sobre gatos

Até meados do século XVIII praticamente não havia uma história natural ou, em termos mais modernos, um estudo da natureza em que seus elementos fossem considerados por si só, independente de alguma relação que pudessem ter com o ser humano. De forma geral, não apenas a existência da natureza como um todo era encarada por um ponto de vista extremamente antropocêntrico (os demais seres vivos existiam com o único propósito de servir ao ser humano), mas o próprio mundo da vida selvagem encontrava-se repleto de “imagens especulares para as relações humanas”, como nos diz Keith Thomas em seu “Man and natural world”. Enquanto as plantas eram imbuídas de assinaturas, entre os animais encontrávamos as mais variadas facetas dos comportamentos humanos. Cada animal simbolizava uma qualidade ou um defeito dos homens. Continuar lendo

Seleção para o comportamento

Prolegômeno: Antes que os puristas da língua e gramáticos de plantão reclamem do título da presente nota (“quem seleciona seleciona algo”, dirão, “portanto é seleção de, e não seleção para”), a fórmula seleção para tem um sentido bem determinado em biologia evolutiva, conforme proposto por Sober. Esse, por sinal, pode ser o tema para uma nota futura.

Que muitas pessoas vivem de aparência não é novidade pra ninguém. Um infeliz exemplo disso é a triste condição de uma quantidade inimaginável de cães abandonados e em perfeitas condições para adoção, preteridos em favor de cães “de raça”, seja isso o que for (para quem não compreendeu o sarcasmo, eis uma nota a respeito), comprados em pet shops ou, absurdo dos absurdos, em puppy mills. Escolhendo o seu cão por critérios puramente estéticos, esquecem ou escolhem ignorar a principal característica dos cães, aquilo que tanto contribuiu para nossa relação com essa variedade de lobo: seu comportamento. Continuar lendo

Psicologia evolutiva, oogamia, homossexualidade e outros assuntos

Em seu livro escrito num campo de prisioneiros russo (intitulado postumamente como “The natural science of human species”, mas que eu chamo simplesmente de “Manuscrito russo”), Lorenz defende uma união das psicologias em suas várias abordagens, uma união que se dê no seio de uma ciência mais abrangente, na qual as psicologias (o plural aqui é proposital) seriam inseridas, e essa ciência mais abrangente seria a biologia. O que Lorenz propôs não foi uma subordinação das psicologias à biologia, muito menos que se implementasse na psicologia esse tão nefasto e indesejável fenômeno chamado reducionismo (vale lembrar que Lorenz era um incansável crítico do behaviorismo e de seu reducionismo positivista). O que Lorenz propunha, isso sim, é que as psicologias entendessem o ser humano como uma entidade natural, dentro de um mundo orgânico evolutivamente formado e diversificado. A mente humana, bem como a mente de outros mamíferos, não pode ser “reduzida” ao funcionamento de seus neurônios; apesar disso, dentro de uma perspectiva materialista, a mente dos animais (o homem incluído), por mais complexa que seja, resulta de processos biológicos. Freud tece uma opinião semelhante (até certo ponto…) em seu “Projeto para uma psicologia científica” de 1895. Continuar lendo

Seleção e transmissão cultural

Quando estava a ponto de concluir o capítulo sobre seleção do meu livro me deparei com um problema de definição para o qual não havia atentado antes. Quase que ao acaso, deixando as idéias fluírem livremente, havia começado a escrever sobre um comportamento de defesa em elefantes africanos (que descreverei pormenorizadamente em seguida), e então me vi numa encruzilhada: como associar a transmissão cultural ao conceito de seleção atualmente utilizado pela larga maioria dos biólogos evolutivos? Continuar lendo