Cortem as cabeças!

“Alice no país das maravilhas” acabou sendo o primeiro longa metragem em 3D que eu vi. Não sei ao certo o que dizer sobre a projeção 3D: com bem pouco tempo de filme, eu já não percebia mais que se tratava de uma projeção em três dimensões, pois estava mais ocupado em curtir a história e o filme em si. É mais ou menos o que o meu sistema nervoso faz em uma projeção tradicional: ele assume que o cenário está em três dimensões, do mesmo modo que ele assume a veracidade da narrativa. Ou seja, em minha humilde e tresloucada opinião, tanto faz o filme ser projetado de forma tradicional ou em 3D, o que é uma informação valiosa para a economia de alguns trocadinhos futuros.

Quanto ao filme em si, confesso que fui ao cinema já munido de certa ressalva, pois havia descoberto um dia antes que se tratava de uma Alice adulta, que já não lembrava mais do país das maravilhas e que ao voltar para lá acidentalmente encontra seus habitantes numa situação de perigo (Não pude evitar lembrar imediatamente de “Hook”, a versão de Peter Pan de Spielberg, de 91, com Dustin Hoffman e Robin Williams: um Peter Pan adulto, que já não lembrava mais da terra do nunca, que por sua vez estava em perigo e precisava de sua ajuda). Apesar de eu estar esperando uma obra artística do porte de “Big Fish” (2003), que é para mim o melhor filme de Tim Burton, devo dizer que “Alice” é um filme bastante interessante, com momentos impagáveis, mas também com cenas que eu definitivamente modificaria (a cena do futterwacken, ou passo maluco, me fez sentir a famigerada “vergonha alheia”…). Entre os momentos impagáveis estão as aparições da neurótica Rainha de Copas, com aquele hilário cabeção, ordenando decapitações a torto e a direito.

A neurótica e hilária Rainha de Copas

No filme, a Rainha de Copas é constantemente chamada de “Rainha Vermelha”, em oposição à Rainha Branca, à qual Alice se alia. Acontece que, na obra de Carroll, a Rainha Vermelha é outro personagem, que por sinal não aparece no “Alice’s adventures in wonderland”, e sim em sua sequência, “Through the looking-glass”. Essa rainha, uma peça de xadrez, protagoniza um episódio curioso, que veio a nomear uma das hipóteses evolutivas recentemente elaboradas para tentar explicar um dos mais vexatórios problemas da biologia evolutiva: a origem do sexo.

Há um pequeno livrinho de John Maynard Smith, intitulado “Os problemas da biologia” (título que, segundo Smith, foi inspirado em “Os problemas da filosofia”, de Bertrand Russel), em que se trata dos principais temas que ainda demandam respostas adequadas e consistentes. Entre esses problemas não poderia faltar a questão do sexo. Todos sabemos que sexo se trata de recombinação genética, e todos compreendemos o papel do sexo em aumentar a variação (é sempre bom lembrar que variação e variabilidade não são sinônimos…) genética em uma população. O problema não é esse; o problema aqui é explicar como o sexo pode, evolutivamente, ter surgido. Segundo Smith:

A origem do processo sexual continua a ser um dos problemas mais difíceis em biologia. Não posso tentar encontrar uma resposta para ele nesse contexto, mas posso explicar em que reside a dificuldade […] A recombinação genética expande enormemente as possibilidades de modificação evolutiva. Mas essa é uma vantagem prospectiva a longo prazo e não imediata. A seleção natural não possui capacidade de antevisão. Uma característica não é selecionada apenas por vir a ter efeitos benéficos em determinado momento futuro. São apenas as vantagens atuais que contam.

O sexo é, de fato, algo muito estranho, quando se tem em vista um processo de reprodução. Quando pensamos em reprodução, pensamos normalmente em copiar algo de forma fiel, ou seja, produzir uma cópia que seja a mais parecida possível com o original. A reprodução sexuada é o oposto disso. Dia desses, em uma aula, imaginei um exemplo prático, porém irreal, para tentar explicar o absurdo que é a reprodução sexuada. Disse para imaginarmos uma máquina fotocopiadora, a popular máquina de Xerox. Mas essa seria uma máquina de Xerox sexuada, ou seja, que faria uma reprodução sexuada do original. Conectada à rede, sempre que alguém pusesse um texto para cópia, a máquina o escanearia, faria um OCR do texto impresso e procuraria na internet parágrafos para intercalamento. Por exemplo, metade dos parágrafos do original seriam mantidos, e a outra metade seria coletada da rede e inserida nos espaços vazios. Teríamos uma máquina bem interessante: Em primeiro lugar, a cópia nunca seria igual ao original. E em segundo lugar, o mais importante, caso sejam feitas n cópias de um dado original, nenhuma das cópias seria igual à outra.

Uma máquina dessas não faria sucesso algum, e dificilmente contabilizaria uma venda sequer. Mas, comparações ridículas à parte, todo mundo sabe discorrer a respeito das vantagens da reprodução sexuada. Os alunos do ensino médio são praticamente obrigados a repetir à exaustão: a reprodução sexuada aumenta a variação genética na população. Muito bem, isso é inegável. Mas, como já havia dito Maynard Smith, esse é um efeito futuro. Um processo, e em especial um processo tão maluco e destrambelhado como a reprodução sexuada, não pode ser selecionado por seus efeitos futuros. Em termos de biologia evolutiva, efeitos futuros não elevam o fitness. E, apesar disso, é impressionante como a maioria dos profissionais da área pensa que essa é a justificativa evolutiva para a origem do sexo!

Se efeitos futuros não podem (a não ser que você acredite em teleologias…) elevar o fitness, como explicar evolutivamente a origem do sexo? É aqui que voltamos para Alice e sua Rainha Vermelha.

No capítulo 2 de “Through the looking glass”, Alice encontra a Rainha Vermelha e, em determinado momento, as duas passam a correr, de mãos dadas. Acontece que, por mais que corram, ao que parece não saem do lugar:

The most curious part of the thing was that the trees and the other things round them never changed their places at all: however fast they went, they never seemed to pass anything. “I wonder if all the things move along with us?” thought poor puzzled Alice. And the Queen seemed to guess her thoughts, for she cried, “Faster! Don’t try to talk!”

Not that Alice had any idea of doing that. She felt as if she would never be able to talk again, she was getting so much out of breath: and still the Queen cried “Faster! Faster!” and dragged her along. “Are we nearly there?” Alice managed to pant out at last.

“Nearly there?” the Queen repeated. “Why, we passed it ten minutes ago! Faster!” And they ran on for a time in silence, with the wind whistling in Alice’s ears, and almost blowing her hair off her head, she fancied.

“Now! Now!” cried the Queen. “Faster! Faster!” And they went so fast that at last they seemed to skim through the air, hardly touching the ground with their feet, till suddenly, just as Alice was getting quite exhausted, they stopped, and she found herself sitting on the ground, breathless and giddy.

The Queen propped her up against a tree, and said kindly, “You may rest a little now.”

Alice looked round her in great surprise. “Why, I do believe we’ve been under this tree the whole time! Everything’s just as it was!”

“Of course it is,” said the Queen, “what would you have it?”

“Well, in our country,” said Alice, still panting a little, “you’d generally get to somewhere else — if you ran very fast for a long time, as we’ve been doing.”

“A slow sort of country!” said the Queen. “Now, here, you see, it takes all the running you can do, to keep in the same place. If you want to get somewhere else, you must run at least twice as fast as that!”.

A slow sort of country, um tipo lento de país. Essa é uma descrição interessante! O que a rainha nos diz é que em seu país, ao contrário do nosso, é preciso muito esforço apenas para ficar onde já se está. É essa filosofia que dá título à famosa hipótese da rainha vermelha.

Originalmente proposta por Van Valen em 1973, a metáfora com a rainha vermelha foi utilizada não para explicar o problema da origem da reprodução sexuada, e sim para descrever um fenômeno bem mais prosaico na biologia evolutiva, a corrida armamentista entre presas e predadores, ou entre hospedeiros e parasitas. Um organismo A evolui e modifica-se para escapar de B, ao passo que B evolui para capturar A; A modifica-se mais ainda para escapar de B, enquanto B continua a evoluir para capturar A, e assim por diante.

Foi Matt Ridley (não confundir com Mark Ridley; curiosamente, como se não bastasse a semelhança do nome, ambos são zoólogos e formados em Oxford) que popularizou a hipótese da rainha vermelha para explicar a origem da reprodução sexuada. O que nós teríamos aqui não deixa de ser uma corrida armamentista entre hospedeiros e parasitas: antes da origem da reprodução sexuada, há mais de um e meio bilhão de anos, tais relações já deveriam existir. Organismos eram atacados por outros organismos, e os detalhes finos das interações protéicas deveriam ter desempenhado (como desempenham hoje) um papel fundamental nesse processo. Nesse cenário, o surgimento de um modo reprodutivo que embaralhasse os genes teria um efeito bem mais imediato: o hospedeiro conseguiria, num espaço de tempo bastante reduzido, alterar sua bioquímica (como por exemplo a estrutura de suas proteínas de superfície) de tal maneira a escapar do ataque do parasita.

É claro que, numa corrida armamentista, o parasita contra-atacaria. Ou seja, entre eles a reprodução sexuada seria rapidamente selecionada, por se mostrar imediatamente benéfica. Em pouco tempo, ainda seguindo esse cenário, boa parte dos organismos já seria capaz de, pelo menos em certas épocas determinadas, realizar mecanismos sexuados de reprodução. É muito interessante pensar que o sexo, com toda sua imensidão de conseqüências para a vida dos animais, plantas, fungos e outros grupos, tenha surgido como uma forma dos organismos livrarem-se de seus parasitas. Mas um biólogo evolutivo deve estar acostumado à vicissitude das funções de uma adaptação.

2 comentários sobre “Cortem as cabeças!

  1. E viva à corrida armamentista!
    “The cold war just got hot!”

    Assim como muitas novas estratégias e tecnologias surgiram na Guerra Fria, devido às pressões que tal quadro competitivo impõs a seus participantes, e vieram, ao longo do tempo, a desempenhar outras funções. Os foguetes espaciais e aparelhos de microondas seriam exemplos desse tipo.

    É uma hipótese bastante inusitada pelos problemas que ela se propõe a resolver e a forma como o faz.
    A competição moldando a inovação. Bem ao gosto de Darwin…

  2. Uma explicação muito interessante da Evolução do sexo…mais específicamente da diferença entre os sexos em relação ao investimento de cada um…é dada no Capítulo 9 do livro “O Gene Egoísta” de Richard Dawkins!

    Essa relação de “corrida armamentista evolutiva” é bem detalhada. Vale a pena (pra quem ainda não o fez) ler com atenção esse capítulo.

    Abraço!

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