Eu e a psicanálise

Estava um dia desses relendo meu livro, procurando por erros de português — que, como uma maldição, parece que se multiplicam entre uma revisão e outra — quando me ocorreu algo sobre o qual nunca havia pensado. O título do meu livro é uma clara referência ao título de um livro de psicanálise, como eu explico na introdução. Acontece que, ao saber disso, o leitor pode achar que eu gosto ou mesmo que eu defendo a psicanálise, e isso está longe de estar correto. Continuar lendo

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A importância de ser herege

Eu tenho um curioso interesse, desprovido de quase qualquer utilidade, por etimologia e filologia. Se pararmos para pensar, há algumas semelhanças entre o par etimologia/filologia e a biologia evolutiva, quando se estuda origens comuns, padrões de divergência, semelhanças compartilhadas e outras coisas do tipo, como já escrevi aqui. Mas admito que, em grande parte, meu interesse por etimologia é apenas uma curiosidade, sem aplicações práticas, uma vez que a língua é viva, alvo de intermináveis vicissitudes. Por exemplo, de nada adianta saber que a palavra virtude significava originalmente “as qualidades positivas do sexo masculino”, ou num português direto “macheza”, “masculinidade”, “virilidade”, pois virtude vem do latim vir, que significa “homem”, “pessoa do sexo masculino”. Porém, posso usar a palavra virtude hoje em dia para descrever tanto homens como mulheres, uma vez que a sua origem etimológica não tem mais quase importância alguma para o sentido atual da palavra, a não ser que o meu interlocutor seja um professor de latim. Continuar lendo

A má ciência

Era uma vez um professor em uma universidade. Esse professor tinha uma opinião: alunos que usassem drogas psicotrópicas ilegais tinham menores notas e maiores taxas de reprovação. E, para provar sua opinião, ele conduziu uma pesquisa (anônima e voluntária) entre os estudantes da universidade. Eu tive a oportunidade de ler o questionário  que ele e sua equipe elaboraram antes da pesquisa ser conduzida , e alertei: está quase tudo errado. De que forma as drogas psicotrópicas estão sendo consideradas, como se tivessem todas elas o mesmo efeito, os mesmos objetivos e o mesmo público usuário? Psicotrópicos legais estão recebendo o mesmo tratamento dos psicotrópicos ilegais? Como a amostragem será escolhida e analisada? Mas o mais importante era o seguinte: uma vez que o professor já tinha uma opinião formada e queria apenas validar cientificamente sua opinião, o questionário era tão tendencioso e enviesado que simplesmente não havia como o resultado ser diferente do que ele, antecipadamente, queria que fosse. Não sou Sherlock, mas mal segurei o questionário em mãos e dezenas de erros metodológicos saltaram do papel. Continuar lendo

Porque a ciência é irrelevante

Todos nós temos nossos ídolos, nossos heróis (estando mortos, o termo se aplica mais adequadamente ainda). Nunca escondi que o meu, em ciências, é Konrad Lorenz. Contudo, há muitos e muitos outros excelentes cientistas, escritores e divulgadores, sem cujas obras eu não teria um décimo da formação científica que tenho. Richard Dawkins é bastante famoso entre os biólogos, dispensando maiores apresentações. Com Stephen Gould aprendi a construir uma introdução que não tem quase nada a ver com o tema do artigo (estou fazendo isso agora). Carl Sagan é um exemplo de divulgador científico, erudito e possuidor de uma escrita clara e agradável. Aliás, falando em escrever bem, não posso deixar de me lembrar de Freud: apesar de eu discordar de algumas de suas ideias, não há como não se encantar com sua prosa quase perfeita. Surpreendentemente agradável de ler é Darwin, que muitos (geralmente os que nunca o leram) creem ser indigesto e inacessível. Continuar lendo