Sobre o óbvio

Quando pensamos nos gênios que a humanidade teve a honra de ver surgir nos últimos mil anos, é difícil não vir à mente a figura barbuda de Galileu Galilei. Entre suas várias realizações está a solução para o problema do movimento, solução essa que atualmente conhecemos pelo nome de inércia e que foi formalmente descrita algum tempo depois por Newton em seu Philosophiae Naturalis Principia Mathematica. Convém lembrar que, poucas páginas após descrever a lei da inércia, Newton afirma que foi Galileu quem a descobriu, aparentemente uma das poucas passagens no Principia em que Newton dá créditos à outra pessoa. Continuar lendo

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Discordando de Darwin

O título dessa postagem, não estou alheio a esse perigo, pode atrair a atenção de alguns criacionistas — mais ainda aquela cepa de criacionistas que leem apenas o título do artigo — que prontamente irão compartilhá-lo com uma descrição do tipo “até o autor do blog Biologia Evolutiva diz que evolução não existe”. Contudo, qualquer pessoa um pouco mais lúcida perceberá, lendo o post, que não se trata disso, mas sim de algo bem diferente: para a ciência não interessa quem disse, mas o que foi dito. Argumentos de autoridade não têm lugar nas ciências. Não importa se Einstein disse isso, ou se Newton disse aquilo: se o enunciado está errado, não importa quem o enunciou, ele está errado e acabou. Por isso, discordar de autoridades é não apenas saudável para as ciências, mas na verdade uma de suas características sine qua non. Continuar lendo

Os erros da biologia evolutiva

“Anacronismo” é um fenômeno ou uma situação que ocorre num tempo ou numa época na qual não se esperava que ela ocorresse. Às vezes, o anacronismo ocorre quando conhecimentos e costumes recentes são transferidos para o passado, como em Os Flintstones. Em outras ocasiões, mais infelizes por não se tratarem de uma obra de ficção, elas ocorrem quando costumes antigos persistem nos tempos modernos, como a astrologia – aliás, já compartilhei o pensamento de Feynman a esse respeito aqui. Continuar lendo

Declínio e queda das estruturas vestigiais

Prolegômeno: há exatos cinco anos eu supus, aqui no blog, que os ossos pélvicos dos cetáceos não são estruturas vestigiais, que eles deveriam ter alguma função. Curiosamente, ao que parece, a função foi recentemente descoberta.

 

cb2Elas estão entre os mais famosos exemplos de processos evolutivos, e estão invariavelmente listadas como uma das principais evidências da evolução biológica: as estruturas vestigiais. Porém, quanto mais eu penso sobre elas, quanto mais eu estudo o que elas de fato significam, mais eu me convenço que a importância das estruturas vestigiais tem sido bastante exagerada. Muito provavelmente, os principais exemplos de estruturas vestigiais — o apêndice vermiforme dos humanos e os ossos pélvicos dos cetáceos — não são sequer estruturas vestigiais. Em minha atual opinião, não apenas as estruturas vestigiais devem ser bastante raras de se encontrar como, talvez, sequer existam. É uma posição radical, eu sei, e tentar defendê-la é o fito desta breve postagem. Continuar lendo

Epigenética e Lamarquismo

Costumo introduzir meus artigos com um assunto aparentemente sem relação alguma com o tema central. Esse costume não é de forma alguma uma ideia original minha, aprendi a escrever assim lendo os ensaios de Stephen Jay Gould na Natural History. Minha mulher, por sinal, detesta essas “enroladas desnecessárias”, e preferiria que eu escrevesse indo direto ao ponto. Às vezes eu mesmo, ao reler alguma postagem, acho esse meu hábito meio chato. O presente artigo, contudo, é sobre um assunto tão complexo e indigesto que terei que abandonar completamente esse meu hábito Gouldiano de “enrolar”, se eu quiser que algum leitor entenda alguma coisa. Na verdade, farei até mesmo um breve roteiro do que irei explorar, um roadmap, a fim de aumentar a compreensão do leitor: irei inicialmente defender que a ciência é um processo objetivo, que procura eliminar a subjetividade, os preconceitos e as paixões humanas, e irei defender que isso é possível. Farei isso para poder, de forma objetiva e imparcial, passar para o tópico seguinte, que é o de esclarecer o conceito de “lamarquismo”, e já adianto que não é o que a imensa maioria dos livros didáticos e dos sites da internet dizem ser. Em seguida, irei brevemente explicar o que é epigenética, seus mecanismos e as recentes descobertas nesse campo. Ao final, irei discorrer sobre se a epigenética representa ou não um renascimento do lamarquismo, e qual a importância disso para a biologia evolutiva. Muito bem, mãos à obra. Continuar lendo

Não ao Descartes-Rei

Devo iniciar essa brevíssima nota esclarecendo que não tenho nada contra Descartes pessoalmente. Nem poderia tê-lo, uma vez que 4 séculos e 10 mil quilômetros nos separam, ou seja, nunca o conheci. Quando ataco algo que ele disse (ou escreveu) estou investindo contra a opinião, e não contra a pessoa, que não são a mesma coisa. Do mesmo modo, você pode discordar dessa postagem, ou mesmo do blog inteiro, sem me conhecer ou ter qualquer opinião em relação à minha pessoa (é claro que, quanto mais você discorda das minhas opiniões, mais você antipatiza comigo, mesmo sem nunca ter me conhecido. Isso, porém, é apenas uma consequência). Continuar lendo

Darwin não disse isso

O Facebook é o novo ambiente de propagação de uma praga que já ocorre há um certo tempo. Bem antes das redes sociais na internet se tornarem populares, andou circulando por aí uma poesia bastante piegas (talvez possa até dizer dela que era um tiquinho interessante) chamada “Instantes”, atribuída a Jorge Luis Borges. Para quem não lembra é aquela que começa com “Se eu pudesse novamente viver a minha vida, na próxima trataria de cometer mais erros…”. Quem quer que já tenha lido dez por cento de um conto de Borges sabe que ele jamais seria o autor daquela peça melosa e açucarada. Mas, na internet, onde é tão fácil escrever (e reproduzir) informações, a praga das falsas autorias se alastrou. São bobagens (geralmente mal escritas, diga-se, sem querer ofender…) atribuídas a Luís Fernando Veríssimo, Shakespeare, Fernando Pessoa, Kafka… Lembro-me de, um dia, em sala de aula, encontrar fixado no quadro de avisos um texto de autoajuda, com todos aqueles chavões os quais não é necessário aqui reproduzir, que lá foi posto com o intuito de relaxar os alunos e diminuir a tensão anterior ao vestibular, o que é uma iniciativa louvável. Findando o texto, porém, havia um garrafal “Carlos Drummond de Andrade”. Bem, não tenho nada contra uma pessoa escrever um texto de auto ajuda, um texto motivacional. Mas assinar seu texto com o nome de Drummond é uma desonestidade, para dizer o mínimo. No Facebook encontramos Bob Marley, Clarice Lispector, Arnaldo Jabor e uma legião de outras criaturas cujo nome subescreve as mais diversas bobagens. Continuar lendo