O paradoxo de Dawkins

(parte 1 de uma postagem dividida em duas partes)

Paradoxos são declarações ou postulados bem curiosos. Muitos dos paradoxos são claramente falsídicos, onde um ou outro detalhe despercebido nos leva a uma conclusão absurda. Contudo, me interessa aqui o que denominamos de paradoxos verídicos: uma declaração verídica, verdadeira, nos leva a uma conclusão aparentemente absurda, que contradiz o senso comum, mas que, apesar disso, está correta. Continuar lendo

Precisamos de nomes. Muitos nomes.

(parte 2 de uma postagem dividida em duas partes)

Vamos supor, então, que as modificações propostas pela sistemática filogenética sejam universal e irrestritamente aceitas. Vamos supor que todos os grupos merofiléticos (parafiléticos ou polifiléticos) sejam invalidados, e tenhamos apenas grupos monofiléticos. Neste cenário distante e, por certas razões que poderemos comentar em outra ocasião, impraticável, teremos uma vantagem inegável, nomeadamente o fato de que a classificação biológica refletiria da forma mais fiel possível a história evolutiva dos organismos, mas teremos também um problema gigantesco: precisaremos de nomes, muitos nomes. Continuar lendo

Cladogramas em zoom

Todas as tentativas de matar e enterrar com umas boas pás de cal a scala naturae são bem vindas. Como já reiterei diversas vezes neste blog, a ascensão da sistemática filogenética parece ser o fator fundamental para uma mudança de paradigma generalizada e permanente, uma vez que, infelizmente, a biologia evolutiva por si só parecia incapaz de gerar essa mudança de percepção. Ou, para sermos mais justos, a biologia evolutiva não seria tão capaz de gerar essa mudança quanto a sistemática filogenética (em tempo, biologia evolutiva e sistemática filogenética não são a mesma coisa). Continuar lendo

Onde situar os ancestrais comuns?

O homem não veio do macaco. Todo biólogo sério deve ser capaz de explicar didaticamente esse enunciado, mesmo que não seja um especialista em biologia evolutiva – um botânico, um bioquímico, um zoólogo, um parasitologista, um ecólogo, enfim… – e, de preferência, explicar também que o macaco não veio do homem; Explicar que o homem (Homo sapiens) e o macaco (Macaca mulatta) são dois animais diferentes, duas espécies distintas, e que estão historicamente unidas por um outro motivo: compartilham um ancestral comum. A compreensão deste fato, de que o homem não veio do macaco – e de que muito menos o macaco veio do homem – é uma das premissas para afundar de vez a concepção de scala naturae, infelizmente ainda tão comum. O que se deve ter em mente é relativamente simples: dados dois elementos quaisquer, A e B, há um ancestral comum a ambos, e dados três elementos quaisquer, A, B e C, há um ancestral comum a dois deles e que não é ancestral do terceiro. Com essas regras simples em vista, constrói-se mentalmente uma árvore que deve ser capaz, depois de certo tempo, de enterrar essa “great chain of being”. Continuar lendo