Evoluções desastrosas (o único mundo que temos)

Costumamos definir uma sucessão ecológica como um processo que culmina, sempre e sem exceção, numa comunidade clímax complexa e estável, quase sempre representada por uma floresta. Bem, essa definição está errada, e o fato dela ser bastante comum não a torna nem um pouco mais correta. Em primeiro lugar, uma sucessão ecológica não reconstitui uma floresta, e sim o bioma originalmente presente: uma sucessão ecológica numa savana devastada reconstitui uma savana, uma sucessão ecológica num manguezal devastado reconstitui um manguezal, uma sucessão ecológica numa tundra devastada reconstitui uma tundra. Além disso, o mais importante: uma sucessão ecológica pode não culminar num clímax estável e, dependendo da situação, ela jamais culminará num clímax estável (as populações que se sucedem num cadáver são um bom exemplo disso). É ingenuidade crer que, qualquer que seja o ambiente devastado e qualquer que seja o tipo e grau de devastação, a sucessão ecológica reconstituirá o ecossistema previamente existente. Costumamos crer na força da natureza, e achar que “a natureza dá um jeito”. Continuar lendo

Câncer e os becos sem saída evolutivos

Quando um termo científico é criado especificamente para denominar uma estrutura ou descrever um fenômeno quase não há margem para mal-entendidos ou confusões de significação: aquele termo simplesmente não existia anteriormente. Essa é uma das principais vantagens dessas construções gregas ou latinas que abundam nas ciências e que infelizmente parecem afugentar os iniciantes e o público leigo em geral: diaheliotropismo, leucocitopenia, paramagnetismo, entalpia, hipercolesterolemia, pirólise, cromossomo, termodinâmica… são todos eles termos que dão pouco espaço para interpretações equivocadas. É bom lembrar, para os mais incautos, que apesar de esses nomes conterem raizes gregas ou latinas, eles não existiam na Grécia ou em Roma: μεταβολή, mudança (que origina o termo “metabolismo”), é uma palavra que existia no grego antigo; já hemodiálise, polissacarídeo, entropia e tigmonastismo são termos construídos a partir de palavras gregas, mas que não existiam no grego clássico: se você abrisse a boca e falasse “polissacarídeo” na Atenas de Péricles, significaria algo como “o filho de muitos doces”… Continuar lendo

Você não irá evoluir. Nunca!

Na postagem anterior, sobre a unidade Haldane, havia dito que muitos dos artigos desse weblog referem-se a temas que não quis ou não pude tratar em meu livro sobre biologia evolutiva. A presente nota é um caso precisamente oposto: discuti-a bastante em meu livro; contudo, como a internet possui uma visibilidade e um alcance bem maiores, gostaria de discutir esse tema aqui também. Continuar lendo

A distinção entre genético e hereditário

Em um artigo anterior, sobre seleção e transmissão cultural, afirmei que genético e hereditário não são sinônimos. Gostaria de me estender um pouco mais sobre esse tema.

Em vários ramos da ciência, principalmente nas ciências biológicas, não é nada incomum vermos os termos hereditário e genético tratados como sinônimos, utilizados nas mesmas situações e de forma perfeitamente intercambiável. Tecnicamente falando, contudo, essa liberdade não existe, e seu uso pode acarretar uma série de mal-entendidos, alguns definitivamente sérios. Na maioria dos casos, o hereditário (do latim heres, herdeiro) é também genético (a partir do grego γεννα, “família”), mas há situações em que o objeto, caráter ou fenômeno pode ser genético sem ser hereditário, e outras em que pode ser hereditário sem ser genético. Continuar lendo