Por que as estatísticas não são intuitivas?

Iniciei o capítulo sobre deriva em meu livro discutindo a incapacidade do ser humano de compreender, de forma natural e espontânea, as correlações estatísticas, bem como as probabilidades isoladas de forma geral. De forma alguma foi uma idéia original: incontáveis pesquisadores já escreveram sobre esse tema, e a idéia de começar o capítulo sobre deriva discutindo a percepção enviesada das probabilidades me veio durante a leitura do “The making of the fittest”, de Sean Carroll. Continuar lendo

Mais sobre fossilização gênica

Num artigo anterior (“A fossilização gênica e os peixes de cavernas“), escrevi sobre o conceito de fossilização gênica, que é explicado com clareza no excelente livro “The making of the fittest”, de Sean Carroll. Imediatamente após publicar aquele artigo, uma dúvida me assaltou: compreendendo adequadamente o processo de fossilização gênica e tendo em vista seu poder como agente evolutivo, como explicar a ocorrência, em táxons relativamente grandes, das estruturas popularmente conhecidas como vestigiais? Continuar lendo

A fossilização gênica e os peixes de cavernas

Quando comecei a ensinar biologia, o que já faz relativamente um bom tempo, estava despreparado (como muitos de nós…) para uma série de questionamentos, e desconhecia boa parte do que sei hoje a respeito do corpo teórico da biologia evolutiva. Mea culpa. Esse despreparo me fez tomar certos caminhos em sala de aula que hoje, certamente, não tomaria; o tema deste artigo é um exemplo disso. Naquela época, como ainda hoje, os livros didáticos forneciam quase sempre os mesmos exemplos e as mesmas analogias nos capítulos sobre evolução: o pescoço das girafas, as patas anteriores de tetrápodos, o apêndice cecal, os olhos dos peixes cavernícolas etc… isso não só é maçante como, em algumas ocasiões (o pescoço das girafas…), incorreto. Lembro-me de estar numa turma de segundo grau (ainda não se chamava de ensino médio) falando de transmissão de caracteres adquiridos e da história da biologia evolutiva no século XIX quando um aluno me perguntou algo mais ou menos assim: “Se os peixes das cavernas descendem de ancestrais com olhos, e se seus olhos não são mais usados, deveríamos encontrar na população peixes com olhos, pois não há pressão seletiva para a perda dos olhos”. Logicamente, o aluno não se expressou exatamente com estas palavras, mas essa era a idéia central do seu questionamento: porque os peixes cavernícolas não têm olhos, se não há transmissão de caracteres adquiridos? Continuar lendo