Filogenética e diversidade linguística

Ao cursar meu primeiro semestre de grego clássico, há alguns anos, descobri – para meu espanto – uma série de semelhanças entre o grego e o latim, que por desconhecimento meu eu absolutamente não esperava encontrar. Lembro-me de que uma das primeiras semelhanças que notei foi o nominativo da primeira pessoa do singular, ego em latim e ego (ἐγώ) em grego.

Naquela época eu conhecia muito pouco sobre línguas e filologia, estava ainda começando a me interessar sobre o assunto. Assim, como neófito que era, a primeira pergunta que à cabeça me veio foi “ego passou do grego para o latim, ou do latim para o grego?”. Cheguei até a formular a pergunta em sala de aula. Para minha sorte, minha professora de grego (tive dois professores no departamento de letras, ambos competentíssimos…), como todo professor de línguas clássicas, também sabia latim, e rapidamente me explicou o que de fato aconteceu.

Para quem conhece a análise filogenética e está desta forma acostumado a ler e interpretar cladogramas, a explicação é relativamente simples. Nem ego passou do latim para o grego, nem ἐγώ passou do grego para o latim. Na verdade, a primeira pessoa do nominativo singular é igual nessas duas línguas por ter se originado de uma língua comum, ancestral a ambas. Tanto o grego como o latim são línguas indo-européias, originadas do proto-indo-europeu. Há inúmeras outras semelhanças, como por exemplo pai: em latim, pater; em grego, pater (πατήρ); em sânscrito, vater; em armênio, pitar; em gótico, fadar; em tocário, pacar.

diagrama com as famílias de línguas indo-européias.

diagrama com as famílias de línguas indo-européias.

A semelhança por derivação entre as línguas não se aplica apenas ao vocabulário ou à gramática, mas a praticamente todos os aspectos da construção lingüística. Por exemplo, nas línguas sintéticas, os tipos de casos e o padrão de declinação dos casos é bastante semelhante. Tomemos por exemplo rosa (rosa), em latim: nominativo rosa, dativo rosae, acusativo rosam, vocativo rosa. Agora tomemos oikia (ὀικíα), casa, em grego: nominativo oikia (ὀικíα), dativo oikiai (ὀικíᾳ), acusativo oikian (ὀικíαν), vocativo oikia (ὀικíα). Outra semelhança notável: em latim, os adjetivos (a maioria…) masculino, feminino e neutro se constroem com us-a-um, como por exemplo bônus, bona, bonum. Em grego, é quase igual: mikros (μικρός), mikra (μικρά), mikron (μικρόν). Na conjugação verbal, há algo bastante curioso: o grego apresenta dois sistemas de conjugação, o sistema em Omega e o sistema em Mi. O sistema em Omega é semelhante à conjugação latina, a oeste da Grécia. Já o sistema em Mi é semelhante à conjugação do sânscrito, a leste da Grécia. É quase como se na Grécia os dois sistemas de conjugação, geograficamente opostos, houvessem se miscigenado.

Essa percepção filogenética do desenvolvimento e formação de novas línguas não é de forma alguma nova, mas penso que o desenvolvimento da sistemática filogenética, a partir da década de sessenta, pode trazer uma nova série de análises e interpretações desse fenômeno. As ferramentas da sistemática filogenética, principalmente no que tange à construção de matrizes e resolução de relações de parentesco podem ajudar, bastante, a tecer interpretações sobre o desenvolvimento e formação de diferentes unidades lingüísticas.

Eu, particularmente, me interessei bastante por esse tema porque, além de é claro ser um apaixonado pela biologia evolutiva e respeitar bastante os sistematas filogenéticos (cujo labor prático, confesso, ultrapassa em muito minha compreensão e minha suposta paciência), gosto bastante de ler sobre línguas, lingüística e filologia, e recomendo a quem quer que tenha tempo, dinheiro e neurônios sobrando, estudar grego ou latim (lembrando que, em matemática, o operando ou não obriga uma exclusão, isto é, pode-se estudar os dois juntos…)

Há, contudo, uma série de advertências quanto ao estudo filogenético das famílias de línguas.

A primeira, e a mais grave delas, é que ao contrário das espécies biológicas, quando tratamos de línguas, dois ramos (as linhas num cladograma…) podem se fundir, originando um ramo só. Isso se dá quando duas línguas passam a coexistir e terminam por formar apenas uma. No caso das línguas pidgin e das línguas crioulas, formadas pelo contato entre duas línguas distintas (o pidgin de forma mais imediata, e o crioulo de forma mais permanente), o que se dá geralmente é que as linguais originais continuam existindo, enquanto a língua crioula constitui-se numa terceira e nova língua. Se colocássemos isso num cladograma, teríamos a estranhíssima imagem de dois ramos se aproximando, bifurcando-se em quatro ramos, com os dois ramos centrais se unindo.

Outra objeção óbvia é que há, sim, contaminação entre as línguas. No meu exemplo de ego em latim e grego, a palavra veio da raiz comum a essas duas línguas, mas em vários outros casos há contaminação após ambas as línguas terem se estabelecido. Por exemplo, ciência em português e science em francês são semelhantes porque derivam de scientia em latim, sua língua ancestral. Porém, garagem, toalete ou guichê existem em português porque vieram diretamente do francês, e não do latim, comum a ambas as línguas.

Além disso, infelizmente (e felizmente, ao mesmo tempo), vivemos numa época  – nesses últimos cem anos, particularmente – em que o contato linguístico tornou-se imensamente mais comum, e em que, de certa forma, a miscigenação vai se dando com cada vez mais freqüência, com o inglês dominando o cenário… Quem sabe se isso não culmina na formação de um crioulo universal, um esperanto natural? Seria interessante para a comunicação do dia-a-dia, mas por outro lado perderíamos algo que acho belíssimo: a diversidade.

5 comentários sobre “Filogenética e diversidade linguística

  1. O estudo comparativo das diferentes línguas sob o ponto de vista filogenético é realmente muito interessante, mas, além disso, vale lembrar que as semelhanças desta abordagem com a evolução dos seres vivos não são meras coincidências, posto que tanto os idiomas como os seres vivos podem ser considerados como replicadores no sentido dawkiniano (sei que você não é muito chegado a terminologia de Dawkins), ou seja, são entidades que podem ser copiadas, e, no caso de diferirem nas taxas em que o são, evoluem. Isso demonstra o quanto o processo evolutivo é simples quanto a sua essência (uma mera mudança nas proporções de entidades diferentes), porém inimaginavelmente complexo quanto as suas consequências. É essa simplicidade que faz com que encontremos evolução não somente nos seres vivos, mas também em fenômenos químicos, físicos e culturais.

    Quem leu, por exemplo, “Armas Germes e Aço” de Jared Diamond deve ter uma idéia da importância de estudos linguísticos na reconstrução de eventos históricos. O padrão atual de distribuição das diferentes línguas está correlacionado aos eventos de dispersão dos povos que as falam, que por sua vez estão correlacionados aos fatores ambientais que determinaram essas dispersões, tais são os casos das expansões Austronesiana na Polinésia e Bantu na África, por exemplo.

    As semelhanças entre as abordagens evolutiva linguística e biológica são tantas que os pesquisadores de ambas as áreas chegam a cometer os mesmos erros, por exemplo, dizer que uma língua é mais primitiva do que outra. Naturalmente existem também várias diferenças, mas quem disse que dois táxons de um cladograma não podem se fundir? E quanto aos eventos de enbossimbiose?

  2. Nossa cara, parabéns pelo post, é muito esclarecedor. Eu curso Letras e estava agora mesmo a buscar respostas para algumas questões e caiu diretamente no seu blog. Muito bom.

  3. Ao que diz respeito à linguagem,na minha concepção,há aspectos infindáveis pra se analisar.E,tomando início no princípio,se daria a questão de “Como surgiu a primeira língua?” ,e então pensaríamos em como essa língua passou a ser difundida de maneira diferente,fundando os ramos menores dessa árvore gigantesca e daí em diante.
    É passível de análise até mesmo a reforma ortográfica (e suas possíveis interferências),onde,de maneira ou de outra,a língua é redesenhada e ganha,com o passar do tempo – e das reformas – uma nova silhueta que tende à afastar aos poucos dos outros galhos,mesmo que sejam do mesmo ramo,e os ramos do mesmo tronco e que o tronco se alimente das mesmas raízes… *

    O texto foi bem ‘específico’ mas ainda assim muito bem redigido e devidamente conciso.

    “não é a fome, ou a sede, mas o amor, o ódio, a piedade, a coléra, que aos primeiros homens lhes arrancaram as primeiras vozes… eis por que as primeiras
    línguas foram cantantes e apaixonadas
    antes de serem simples e metódicas.” -Um trecho que me agrada muito de J.J Rousseau (Ensaio sobre a origem das línguas).

    * Visto que mesmo sendo reformas que tendem a diferenciar,podem também ter um efeito contrário,como o de tentar aproximar uma língua da outra… Tal como aconteceu com o Português de Portugal,onde tiraram os ‘c’s (como de “facto”- “fato”)para que se parecesse mais com o Português do Brasil.

  4. Pingback: Biologia é zoologia, que é física, que é matemática « Biologia Evolutiva

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