O paradoxo de Dawkins

(parte 1 de uma postagem dividida em duas partes)

Paradoxos são declarações ou postulados bem curiosos. Muitos dos paradoxos são claramente falsídicos, onde um ou outro detalhe despercebido nos leva a uma conclusão absurda. Contudo, me interessa aqui o que denominamos de paradoxos verídicos: uma declaração verídica, verdadeira, nos leva a uma conclusão aparentemente absurda, que contradiz o senso comum, mas que, apesar disso, está correta.

O paradoxo que quero discutir aqui é de grande importância para a biologia evolutiva e, em especial, para a sistemática filogenética. Apesar de não serem nem de perto sinônimos, a biologia evolutiva e a sistemática filogenética estão cada vez mais entrelaçadas, e um problema teórico mal resolvido em uma delas irá obrigatoriamente repercutir na outra. Encontrei o paradoxo em questão, ou li-o, pela primeira vez no livro The ancestor’s tale – a pilmigrage to the down of life, de Richard Dawkins. Como não o encontrei em nenhum outro lugar, e na falta de nome melhor, irei batizá-lo de “paradoxo de Dawkins”.

Lembra-me um pouco os paradoxos de Zenão, onde um “zoom” ou, em termos mais matematicamente adequados, uma divisão infinitesimal do espaço ou do tempo leva a conclusões aparentemente absurdas. Vamos ao paradoxo. Dawkins:

Levemos nossa máquina do tempo a um passado absurdamente remoto, por exemplo, 100 milhões de anos atrás, até uma época em que nossos ancestrais se pareciam com mussaranhos ou gambás. Em alguma parte do mundo nesse tempo longínquo, pelo menos um dos meus ancestrais pessoais deve ter vivido, ou eu não estaria aqui. Chamemos esse pequeno mamífero específico de Henry, por acaso um nome de família para mim […] É perfeitamente possível que Henry seja meu ancestral (e seu também, já que você é humano o bastante para estar lendo meu livro) enquanto o irmão de Henry, Eric, é o ancestral, digamos, de todos os porcos-da-terra hoje vivos. Isso não é apenas possível. Notável é o fato de que tem de ter existido um momento da história em que houve dois animais da mesma espécie, um dos quais se tornou o ancestral de todos os seres humanos e de nenhum porco-da-terra, enquanto o outro tornou-se o ancestral de todos os porcos-da-terra e de nenhum ser humano. Eles podem muito bem ter se encontrado, e até sido irmãos.  O leitor pode riscar porco-da-terra e substituir por qualquer outra espécie moderna que desejar, e a afirmação continuará sendo correta. Reflita bem, e verá que isso decorre do fato de que todas as espécies são aparentadas umas às outras.

Mais à frente, Dawkins volta a tocar nesse paradoxo:

Há ocasiões em que o purismo estritamente cladístico pode levar a resultados hilariantes. Vejamos uma reductio ad absurdum. O ancestral comum dos mamíferos e dos répteis teve um descendente imediato do lado mamífero e um descendente imediato do lado lagarto/crocodilo/dinossauro/ave, ou “sauropsídeo”. Esses dois descendentes devem ter sido quase idênticos um ao outro. De fato, deve ter existido uma época em que eles podiam cruzar um com o outro e produzir híbridos. No entanto, o cladista rigoroso insistiria em chamar um deles de sauropsídeo e o outro de mamífero. Felizmente não costumamos chegar a essa reductio na prática, mas tais casos hipotéticos são bons para citar quando os cladistas puristas começam a ficar muito presumidos.

Eis o que eu denominei de “paradoxo de Dawkins”. E então, como resolver esse paradoxo?

A resposta é simples: ele simplesmente não precisa ser resolvido. Ao contrário do paradoxo de Zenão, que afirma que o movimento não é possível (que Diógenes resolveu sem falar uma só palavra, simplesmente se levantou e andou!), o paradoxo de Dawkins não afirma nada absurdo ou impossível. Ele simplesmente nos mostra uma coisa bem curiosa: se dermos um zoom suficientemente grande num cladograma ou filogenia, resultados hilários e aparentemente contraditórios surgirão.

Para que eu possa explicar isso adequadamente, não custa nada nos lembrarmos de duas regras elementares da sistemática filogenética:

  1. Dados dois elementos quaisquer, A e B, há um ancestral comum a ambos (“comum a ambos” é um pleonasmo muito gostoso…).
  2. Um clado, ou grupo monofilético, é formado por um dado ancestral e todos os elementos dele derivados.

O que temos aqui é algo bem conhecido de todo e qualquer biólogo evolutivo que mereça o título: uma cladogênese, ou especiação, é um fenômeno em que uma dada população se separa, se divide, se cinde, e onde os dois grupos formados, acumulando modificações suficientes, serão incapazes de se intercruzar e originarão, cada um por seu lado, ramos evolutivos separados e independentes, que terão cada um sua própria história daquele ponto em diante. O ponto em que ocorre a cladogênese é o que os sistematas filogenéticos chamam de . A partir daquele nó, todos os elementos derivados constituem um grupo monofilético, ou clado.

Na cladogênese, uma população ancestral origina duas populações que irão ter caminhos evolutivos distintos (fonte: Pearson Education Inc.)

Na cladogênese, uma população ancestral origina duas populações que irão ter caminhos evolutivos distintos (fonte: Pearson Education Inc.)

Portanto, não temos absurdo nenhum aqui, e sim uma situação que vai contra o senso comum, apenas isso. Vamos supor, em um outro exemplo (e eles serão todos iguais, como já disse Dawkins, iremos apenas trocar os nomes), aquela espécie que foi a ancestral comum dos amniotas (mamíferos e répteis), de um lado, e dos anfíbios, de outro. Tratava-se de um animal de quatro patas, que viveu a centenas de milhões de anos no passado, logo após a conquista da terra firme pelos vertebrados. Certamente, houve um evento de especiação, uma cladogênese, onde uma população desse animal originou todos os anfíbios e outra população originou todos os amniotas. Na população que originou os anfíbios havia um indivíduo, que chamaremos de Alice, e na população que originou os amniotas havia um outro indivíduo, que chamaremos de Bob.

Alice e todos os derivados de seu grupo, existentes ou já extintos, formam um clado, um grupo monofilético, que chamaremos de Amphibia. Da mesma forma, Bob e todos os derivados de seu grupo, existentes ou já extintos, formam um grupo monofilético, que chamaremos de Amniota. Por mais que Alice e Bob sejam parecidos, supondo mesmo que caso víssemos uma fotografia de cada um deles seríamos incapazes de diferenciá-los, mesmo assim temos que compreender que Alice pertence a um clado e Bob pertence a outro clado, que Alice é mais aparentada a um sapo que a Bob, e que Bob é mais aparentado a um beija-flor que a Alice.

Parece absurdo, mas é perfeitamente possível e biologicamente correto. Na verdade, é um corolário dos princípios da sistemática filogenética.

3 comentários sobre “O paradoxo de Dawkins

  1. Muito bom. Aliás, cheguei a esse tópico seguindo o link na “segunda parte”! Isso que você escreve é a interpretação adequada da Sistemática Filogenética, até onde vejo; as pessoas, ao recorrerem meramente à semelhança morfológica para reconhecer linhagens ou espécies, esbarram em problemas insólitos, e acabam culpando a teoria por isso. “Não… O equívoco está nas premissas!”, o seu texto diz.

    Um abraço!

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