Câncer e os becos sem saída evolutivos

Quando um termo científico é criado especificamente para denominar uma estrutura ou descrever um fenômeno quase não há margem para mal-entendidos ou confusões de significação: aquele termo simplesmente não existia anteriormente. Essa é uma das principais vantagens dessas construções gregas ou latinas que abundam nas ciências e que infelizmente parecem afugentar os iniciantes e o público leigo em geral: diaheliotropismo, leucocitopenia, paramagnetismo, entalpia, hipercolesterolemia, pirólise, cromossomo, termodinâmica… são todos eles termos que dão pouco espaço para interpretações equivocadas. É bom lembrar, para os mais incautos, que apesar de esses nomes conterem raizes gregas ou latinas, eles não existiam na Grécia ou em Roma: μεταβολή, mudança (que origina o termo “metabolismo”), é uma palavra que existia no grego antigo; já hemodiálise, polissacarídeo, entropia e tigmonastismo são termos construídos a partir de palavras gregas, mas que não existiam no grego clássico: se você abrisse a boca e falasse “polissacarídeo” na Atenas de Péricles, significaria algo como “o filho de muitos doces”… Continuar lendo

A questão da seleção multinível

No capítulo sobre seleção do meu livro ensaiei iniciar uma discussão sobre a “unidade de seleção” nos processos seletivos, ou seja, qual a entidade biológica que tem sua frequência aumentada em virtude dos processos de seleção. Esse é um tema bastante controverso em biologia evolutiva, e rapidamente resolvi abandoná-lo no livro, para me focar na explicação dos conceitos fundamentais relacionados à seleção propriamente, pois desde o começo planejei escrever uma obra bastante resumida e curta. Agora, porém, posso tentar escrever uma linha ou duas sobre a unidade de seleção; esse artigo é uma primeira e superficial exploração deste tema. Continuar lendo