Riqueza filética relativa: uma proposta

Temos o hábito por vezes desagradável de querer comparar os mais diversos grupos e fenômenos na tentativa de estabelecer uma lista de posições, um ranking. Na minha opinião, esse hábito atinge o paroxismo da tolice entre os norte-americanos, com seu costume de estabelecer ranking para tudo: quais os dez melhores livros, quais os vinte melhores vinhos, quais os cinco melhores atletas olímpicos etc… Há coisas que são claramente subjetivas, e cujo posicionamento num ranking é, portanto, sem valor. Mesmo que a coisa não seja subjetiva, e geralmente é, o estabelecimento de um ranking é uma obrigação desnecessária. Por exemplo, costumam me perguntar “qual o melhor filme que você já viu?”. Mas eu não tenho que escolher um: por que razão eu sou obrigado a determinar o melhor, o único, o campeão isolado? Já vi tantos filmes excelentes, como Laranja mecânica, Apocalypse now, Cidadão Kane, Ran, Metropolis, Blade runner, O poderoso chefão, Cinema paradiso e tantos outros… por que eu teria que escolher um, ou ainda: por que eu teria que pô-los numa lista? O mesmo vale para livros: não me sinto obrigado entre Poe, Borges, Miller, Kafka, Dostoievski, Ramos, Aristófanes, Bukowski, Huxley, Eco, a escolher apenas um. Há também a famigerada pergunta: “que livro você levaria para uma ilha deserta?”. Essa pergunta nos abre duas possibilidades: levar um livro que já lemos (o que, no caso de Borges, que já leu alguns livros milhares de vezes, não seria mal maior), ou levar um livro que planejamos ler, possível causador de uma decepção incontornável. Continuar lendo

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