Linguagem e exaptação

Estou procurando por uma palavra e não consigo encontrá-la. Quero denominar um “rumor sem fundamento, que é considerado pela maioria das pessoas uma verdade e um fato científico”. Como, por exemplo, os humanos usarem apenas 10% de sua capacidade mental, a vitamina C proteger contra o vírus da gripe e o do resfriado, os esquimós possuírem dezenas de palavras diferentes para “neve”, o consumo de álcool cortar o efeito de antibióticos, entre tantos outros. A primeira palavra que normalmente nos vem à mente é mito. Acontece que eu me recuso a associar a palavra mito a um erro, um embuste ou uma inverdade. Sendo um helenista incipiente e insipiente, tenho muito respeito pela palavra mito, e considero muito inadequada essa associação de mito com inverdade. Mito, para quem não conhece, é uma história de origem, uma narrativa simbólica, que nos traz informações bastante valiosas de como um povo vê a si mesmo e o mundo que o cerca. Não estou dizendo que mitos como o de Eros e Psiqué, ou o de Odisseu enganado Polifemo, ou o de Io se transformando numa novilha tenham ocorrido literalmente, é claro que não! Contudo, associar o termo mito a um erro ou engano é extremamente empobrecedor. Como já disse Pierre Brunel, em seu “Dicionário dos mitos literários”, há de se escrever sobre “o mito do mito”. Continuar lendo

Anúncios

Filogenética e diversidade linguística

Ao cursar meu primeiro semestre de grego clássico, há alguns anos, descobri – para meu espanto – uma série de semelhanças entre o grego e o latim, que por desconhecimento meu eu absolutamente não esperava encontrar. Lembro-me de que uma das primeiras semelhanças que notei foi o nominativo da primeira pessoa do singular, ego em latim e ego (ἐγώ) em grego. Continuar lendo