Os vírus são ou não são seres vivos? Uma perspectiva evolutiva

Já que nessa era da internet as pessoas só têm tempo para artigos cada vez mais resumidos e concisos, vou facilitar as coisas e ir direto ao ponto: sim. Em minha opinião, vírus são seres vivos.

Como eu poderei sustentar minha posição usando uma perspectiva evolutiva? Bem, penso que a primeira coisa a ser feita é deixar bem claro o que é uma perspectiva evolutiva. Para isso, os conceitos que precisaremos são apenas dois: homologia e apomorfia. Vamos lá:

Os ramos de um dendrograma encontram-se unidos por nós, que são os pontos de bifurcação quando se lê um cladograma no sentido cronológico. A consequência disso é já bem conhecida: todos os organismos deste planeta estão historicamente conectados, em maior ou menor proximidade. Essa é o que poderíamos chamar de primeira lei da sistemática filogenética: dados dos organismos, A e B, há um ancestral comum a ambos.

Alguns nós situam-se logo após uma apomorfia (a característica mais recente numa série de transformações), e a presença dessa apomorfia nos organismos derivados desse nó é uma homologia. Bem, aqui surge o ponto crucial: o grupo formado pela totalidade de organismos oriundos desse nó (por definição um grupo monofilético) é costumeiramente definido pela apomorfia anterior a esse nó, independente de algum ramo ter modificado essa apomorfia numa nova apomorfia. Este parágrafo e o parágrafo precedente estão muito técnicos, então convém dar alguns exemplos:

A apomorfia que define os mamíferos é a presença de pelos (na verdade não é, mas finja que é só por um minuto). Logo, num cladograma, todos os elementos acima – isto é, descendentes – daquele dado ancestral possuidor de pelos são mamíferos, não importando se eles mesmos possuem pelos ou não! Eu sou mamífero, como o é um coala, um tigre ou um cavalo. Mas um golfinho nariz-de-garrafa, praticamente sem um só pelo, é um mamífero também…

Os exemplos são inúmeros. Uma planta, mesmo que incapaz de produzir flores e frutos, é uma angiosperma (antófita) se for originada de um ancestral que produzia flores e frutos. Uma lesma, mesmo sem concha, é um gastrópode. Uma jararaca, mesmo sem patas, é um tetrápode.

Espero que meu ponto tenha ficado claro. E o que isso tem a ver com a definição de se os vírus são seres vivos ou não? Vejamos.

Modelo do vírus SV40. Fonte: Protein Data Bank.

Modelo do vírus SV40. Fonte: Protein Data Bank.

Há várias hipóteses para a origem dos vírus, que não pretendo listar aqui. Entre elas, a mais aceita (a chamada “hipótese progressiva”) é a de que os vírus são fragmentos de material genético de células vivas, que adquiriram a capacidade de saltar de célula para célula, multiplicando-se.

Imagine que um determinado gene em meu material genético codifique uma capa protéica, e usando essa capa protéica saia por aí infectando outras células. É um cenário bem simplista, mas imagine-o mesmo assim. Não importa o quão simples esse elemento, organismo ou entidade seja: ele está evolutivamente conectado a mim, ele é o produto (ou degeneração, caso queiram usar o linguajar do século XIX) de uma célula viva. Não estou alegando que ele seja um mamífero, apesar de isso não ser um absurdo do ponto de vista genético (um vírus originado de uma célula de um animal seria mais aparentado àquele animal que a um vírus originado de uma célula procariótica. Vírus, portanto, não formariam um grupo monofilético). Estou apenas alegando que ele é um ser vivo.

Considerando correta a hipótese dos vírus serem originados de genes celulares, os vírus devem ser considerados seres vivos, do mesmo modo que uma cobra é considerada um tetrápode. Mesmo se considerarmos uma outra hipótese defendida por alguns virologistas, a “hipótese regressiva”, a situação seria a mesma: vírus são seres vivos. Muitos autores criam uma lista de características presentes nos seres vivos – homeostasia, metabolismo, reatividade, estrutura celular etc. – e alegam que os vírus não possuem várias ou quase todas delas. Isso não tem importância: eles não as possuem agora, mas a célula da qual se originaram possuía. É por essa razão que, desde uma perspectiva evolutiva, os vírus são clara e indiscutivelmente seres vivos.

Os organismos não se mantém estáveis, inalterados. As coisas mudam. E o nome disso é evolução.

6 comentários sobre “Os vírus são ou não são seres vivos? Uma perspectiva evolutiva

  1. Olá, o texto me leva a mais questionamentos do que conclusões. Primeiramente, também consigo considerar os vírus como seres vivos e a argumentação do texto é bem clara. Porém me vem uma questão em mente. Considerando a descrição do texto da origem dos vírus pela hipótese progressiva (que se parece muito com a da origem dos príons), não é possível pensar que os vírus são como um resíduo natural da evolução dos outros organismos vivos. Digo “resíduo” por falta de algum outro termo mais correto e sei que faço de uma forma muito grosseira, mas pretendo elucidar melhor.
    Veja, o texto descreve que pequenos fragmentos de material genético de células vivas podem saltar de célula em célula multiplicando-se, se esse fragmento decodificar proteínas capazes o suficiente para isso, certo? Bom, considerando que isso de fato possa ocorrer, é pouquíssimo provável que não ocorra, certo?
    Então considere a vida hipoteticamente. Não a nossa vida na Terra, mas uma vida conceitual, em um planeta fictício e com condições mínimas de gerar vida e organismos. Não seria então muito provável que nessa hipótese os vírus também ocorressem?
    Não sei se tenho embasamento teórico para o que quero argumentar, mas me parece (grosseiramente), que assim como uma reação como química qualquer seja capaz de gerar produtos x e y da interação de A com B, talvez a vida como conhecemos seja capaz de gerar a evolução (por exemplo) tanto quanto os vírus (entre outras coisas, como por exemplo os príons).

    • Olá, Bruno.
      Há algo interessante em evolução: uma coisa não tem que ocorrer apenas porque a probabilidade dela ocorrer é elevada, ou mesmo pelo simples fato de ela poder ocorrer.
      Além disso, eu mesmo não considero (considerando a hipótese progressiva) que todo produto de um ser vivo é ele mesmo um ser vivo. Os prions são um exemplo interessante disso. São produtos de sistemas vivos e podem, eles mesmos, reproduzirem-se e evoluir. Mas eu não me sinto muito confortável em considerar os prions como sendo seres vivos, apesar de fazê-lo se necessário for.
      Abraço,

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