Diferenças

Um bom biólogo evolutivo deve ser capaz de explicar adequadamente, para uma pessoa leiga, que certos conceitos e ideias que ela toma como claros e sólidos são, para os familiarizados com a ciência, toscos e absurdos. Algumas das perguntas mais comuns que ouvimos são tão incoerentes que sequer têm resposta, como, por exemplo, “quem é mais evoluído, A ou B?”. Perguntar isso é como perguntar quanto é oito dividido por zero. Uma bobagem como essa não tem resposta e não se deve tentar respondê-la, pois isso seria dar crédito à pergunta e, por fim, validá-la. Ao contrário, deve-se explicar para o interlocutor que não há divisão por zero, e que não há sequência evolutiva de entidades atualmente existentes.

Outra pergunta infeliz que boa parte dos biólogos evolutivos e dos geneticistas conhece é a famigerada “a inteligência é herdada ou aprendida, depende dos genes ou do meio?”, ou ainda uma variante sua bastante comum, “quantos por cento da inteligência depende dos genes e quantos por cento depende do ambiente?”. Para mostrar o quanto essa pergunta carece de sentido, eu vou inventar os números, agora, da minha cabeça: “a inteligência é 26% determinada pelos genes e 74% determinada pelo ambiente”. Pronto, eis o enunciado. Agora, vá em frente: tente entender o que diabos isso significa. Tente elucidar esse enunciado maluco, tente explicar isso para alguém. Você não vai conseguir. Dizer que a inteligência depende tantos por cento dos genes e tantos por cento do ambiente não faz sentido algum (e, ainda assim, vez ou outra vemos algum jornal, revista ou site reproduzindo essa pérola, ou algo do mesmo teor). A pergunta correta é essa: “que porcentagem da diferença entre as inteligências das entidades biológicas A e B – supondo que a inteligência pode ser mensurada – deve-se às diferenças genéticas entre as entidades biológicas A e B?” Essa sim é uma pergunta coerente, que pode ser respondida, e cuja resposta tem significado estatístico, biológico e científico (quem estiver familiarizado com a genética percebeu que eu acabei de utilizar o conceito de herdabilidade – conceito que, por sinal, já foi tema de uma postagem anterior).

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As diferenças entre os sinais de comunicação das cacatuas galahs devem-se às diferenças entre os ambientes nos quais elas se desenvolvem, e não às diferenças genéticas entre os indivíduos (imagem: Wikimedia Commons).

Acontece que, infelizmente, até mesmo os cientistas e os divulgadores costumam se esquecer de utilizar corretamente o conceito de herdabilidade. Acabamos, por descuido ou por costume, dizendo coisas como “a língua que falamos é determinada pelo ambiente”, “o número de dedos na mão é determinado pelos genes”, “a agressividade nos cães é determinada pelo ambiente”, ou “a cor das sementes de ervilha é determinada pelos genes”. Mas nada é determinado pelos genes ou pelo ambiente somente. Seres vivos são entidades físicas reais preenchendo espaço num mundo real, e são o resultado da complexa interação dos produtos proteicos de diferentes genes, interagindo num ambiente físico real. Aqui mesmo no blog deve haver algumas frases desse naipe, quando eu tiver mais tempo procurarei com calma, corrigindo as que encontrar.

Vejamos, por exemplo, a alegação “a língua que falamos é determinada pelo ambiente”, alegação que, suponho, dez de cada dez pessoas aceitarão como verdadeira. Agora, perceba uma coisa: uma língua não é aprendida do nada, de forma mágica. Para aprender uma língua é necessário um sistema nervoso, e um sistema nervoso particularmente complexo. E esse sistema nervoso (bem como a própria capacidade evolutivamente modulada que ele possui de aprender uma determinada língua) depende, para a sua formação, de uma extensa e complexa série de genes. São os genes, com seus produtos proteicos, interagindo uns com os outros no complexo balé do desenvolvimento embrionário, num ambiente real e sob influência dos mais diversos fatores do meio, que propiciarão a formação de um sistema nervoso funcional e que, numa determinada situação ambiental, acabará por aprender uma determinada língua. Para quem não sabe, é bom deixar claro que a capacidade linguística e gramatical do ser humano é uma adaptação, ou seja, uma característica construída por processos seletivos, e que todo e qualquer ser humano, em qualquer parte do planeta, possui uma gramática neurológica básica e pode aprender (durante a infância) toda e qualquer língua falada por outro ser humano. A capacidade linguística é um instinto do ser humano, e faz parte da nossa arquitetura cerebral.

Portanto, é algo sem sentido dizer que “a língua que falamos é determinada pelo ambiente”. O mais correto seria: “as diferenças entre as línguas que falamos se devem às diferenças entre os ambientes nos quais os falantes foram criados, e não às diferenças genéticas entre esses falantes”. Eu sei que fica uma frase bem maior e mais desajeitada que a primeira, mais curta, mas isso não faz com que a primeira fala esteja mais correta. Precisamos nos lembrar, principalmente quem trabalha com educação ou divulgação científica, de utilizar as definições e os conceitos de forma adequada e correta.

E aqui eu chego à razão de ter escrito esta breve e presente nota. Estava eu a ler “Animal behavior”, de John Alcock, livro que comprei no milênio passado (é muito legal ter nascido no fim do milênio, para poder fazer essas brincadeiras bobas), mas que ainda não havia pego para ler de fato. E fiquei muito contente em ver o tratamento rigoroso do conceito que Alcock faz no seu texto. Em momento nenhum ele fala “a construção de teias pelas aranhas é determinada pelos genes”, ou “o canto das cacatuas é determinado pelo ambiente”. Ele usa, à exaustão, a noção de “diferenças”. Eis apenas alguns exemplos, retirados dos capítulos 2 e 3, com negritos meus:

  • “[…] the differences in the songs of two species, such as the yellow warbler and the song sparrow, could arise because of differences in the neural-muscular mechanisms that they possess.”
  • “The differences are caused by differences in the bird’s DNA.”
  • “[…] imagine that the differences between the communications signals of two species are caused solely by differences in the foods they receive […]”
  • “Because foster-reared galahs and natural reared galahs produce very different contact calls, we can conclude that a difference in their environment caused the two kinds of galah to develop different signals.”
  • “These results confirm the hypothesis that the differences among species in [Drosophila melanogaster] male song occur because of developmental effects of the various forms of the per gene.”
  • “Of course, its also possible that the sexes differ because of differences in their dietary and acoustical environments […]”
  • “[…] these song differences might be caused by differences in the male’s heredity makeup.”
  • “At the developmental level, the language differences among people are largely or entirely environmental, the result of hearing different languages spoken in different places.”
  • “[…] much of the difference in attack behaviour between grassland and steamside funnelweb spiders is hereditary.”
  • “The differences between the German blackcaps that migrate to Britain and those that fly to Africa in their first fall could conceivably have been caused by differences in their environments.”

Para citar apenas alguns exemplos, em apenas 30 páginas…

Portanto, fica aqui a dica: tome cuidado e considere o uso adequado dos conceitos antes de falar que uma característica é determinada pelo meio ou pelos genes.

4 comentários sobre “Diferenças

  1. Que ótimo esclarecimento! De fato, é estarrecedora a quantidade de perguntas descabidas que se ouve por aí, mas que se tornam perdoáveis quando ouvimos as respostas!

    Sentenças como “o homem é mais evoluído que o macaco” são tão incompatíveis com o paradigma biológico atual que é até mesmo difícil identificar onde está “o erro”: afinal, o que é “o homem”: uma espécie? Um indivíduo? Membros de um sexo de uma espécie? Quanto ao “macaco”, nem comentarei, pois você elaborou um belo texto sobre isso há pouco tempo—e tudo isso sem entrar na falta de mérito do comparativo “mais evoluído”… Na verdade, eu só vejo um possível sentido em perguntas assim. Seria em casos do tipo “qual é a mais evoluída: a linhagem dos TYRANNOSAURUS ou a dos GALLUS?” Essas seriam passíveis de serem respondidas (ainda que com uma resposta bastante simples): nesse caso, seria a dos GALLUS, simplesmente por ainda não ter sido extinta. O que você acha?

    Forte abraço, e obrigado pela postagem!

    • Oi, Peterson,
      nem nesse caso (Gallus vs Tyrannosaurus) eu gosto de usar o termo “mais evoluído”. Eu só o utilizo 100% tranquilo quando comparo dois diferentes momentos (duas diferentes espécies, vá lá…) de uma linhagem evolutiva: ou seja, Homo sapiens seria mais evoluído que Pikaia (supondo que Pikaia seja nosso ancestral, é claro). Mas, ainda assim, não gosto de usar.
      Abraço.

  2. Tenho uma sugestão para o próximo post: por que não escrever sobre o que é a ciência e por que deveríamos confiar nela? Muitas vezes eu me pergunto se a psiquiatria, de uma forma geral, e certos ramos da psicologia, como a psicanálise, podem ou não ser considerados campos da ciência. Sem saber direito o que ela é, fica impossível chegar a qualquer resposta para essas minhas perguntas.

  3. Pingback: Diferenças | Biólogo31

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