Afinal, o que é um macaco?

Prolegômeno: Quem me conhece e acompanha o blog sabe que eu costumo criticar os grupos parafiléticos. Ao contrário de alguns estudiosos, eu penso que grupos parafiléticos deveriam ser, quase todos eles, eliminados. Nunca pensei que eu defenderia o uso de um grupo parafilético. Pois bem, é chegado o momento.

Eu não tenho TV e, ultimamente, tenho acompanhado muito negligentemente os sites de notícias (além de praticamente não ter mais entrado no Facebook). Por isso, estava completamente por fora dessa história de futebol, racismo, bananas, macacos e da hashtag SomosTodosMacacos. Agradeço à minha mulher, que consultei logo após um seguidor do meu Tumblr ter perguntado a minha opinião a respeito, por ter me posto a par de toda a história. Bem, quero adiantar que, se você chegou até aqui através de um mecanismo de busca (a.k.a. Google), eu não vou falar sobre racismo, nem sobre a situação do racismo nos estádios, nem sobre a copa do mundo, nem sobre questão social alguma. Fique à vontade para sair desta página. Este é um blog sobre evolução e biologia evolutiva, e o que eu quero discutir é outra coisa: afinal, o que é um macaco?

A questão fundamental aqui é a diferença entre a nomenclatura popular, leiga, e a nomenclatura científica, acadêmica. Todo mundo relativamente bem informado sabe que a nomenclatura científica serve não apenas para padronizar os nomes entre línguas diferentes, mas também para evitar a sinonímia (o mesmo organismo com vários nomes diferentes) e a polissemia (vários organismos diferentes com o mesmo nome). Até aqui, nenhum ponto polêmico. O problema surge quando lidamos com os nomes populares para grupos de organismos. O que é uma baleia? O que é um pássaro? Qualquer ave é um pássaro? Há diferença entre pássaros e passarinhos? As cobras cegas são cobras? O mexilhão é uma ostra? Batata, cenoura e chuchu são legumes?

A grande maioria dos meus colegas da biologia tem uma opinião da qual, polidamente, discordarei. Eles dizem que a nomenclatura popular deve ser respeitada, que devemos valorizar a cultura e a sabedoria populares, e que é uma arrogância da Academia tentar impor suas nomenclaturas. Bem, quero deixar claro que eu admiro esse pensamento altamente democrático e socialmente preocupado e engajado da quase totalidade dos meus colegas. Mas, no meu entender, algumas coisas devem ser mudadas. Defender a nomenclatura cientificamente aceita não se trata, na minha opinião, de uma “arrogância” da Academia, e sim de um processo educacional, para aumentar a alfabetização científica da população leiga em geral. Legumes são as plantas da Família Fabaceae apenas: feijão, soja, ervilha, grão de bico, lentilha, alfafa, entre outras (o pau-brasil, árvore que possivelmente deu o nome do nosso país, é um legume). Se num Buffet a bandeja de “legumes” contém batatinha, chuchu, cenoura, brócolis e couve-flor, saiba: não há nenhum legume ali. Do mesmo modo, baleias são os cetáceos sem dentes do grupo dos misticetos. A orca, chamada de baleia assassina, não é uma baleia (nem é assassina): é apenas um golfinho grande. Perceba que, por “golfinho”, estou me referindo às espécies da Família Delphinidae.

Minha opinião é que nós podemos, e devemos, popularizar a nomenclatura cientificamente aceita.

Mas, e os macacos? Bem, aqui a coisa vai complicar.

O macaco-prego: macaco ou não? (Fonte: Wikimedia Commons)

O macaco-prego: macaco ou não? (Fonte: Wikimedia Commons)

Há, mesmo entre os cientistas, um uso mais restrito e um uso mais amplo do termo macaco. O primeiro uso, o mais restrito de todos, é chamar de macaco apenas os primatas do Gênero Macaca, como o macaco Rhesus ou o macaco de Gibraltar. Um outro uso, menos restrito, é chamar de macaco todos os cercopitecídeos, ou seja, os primatas catarrinos excluindo-se os hominoides. O terceiro uso, mais amplo, é chamar de macaco os cercopitecídeos e os platirrinos (os macacos do novo mundo). E, finalmente, uma quarta e mais ampla ainda possibilidade é chamar de macaco todo e qualquer primata antropoide, com exceção do ser humano.

Vamos sumariar esses usos, para a coisa ficar menos confusa:

  1. Macacos são apenas os primatas do Gênero Macaca
  2. Macacos são os primatas da Superfamília Cercopithecoidea
  3. Macacos são os primatas da Superfamília Cercopithecoidea mais os primatas da Parvordem Platyrrhini
  4. Macaco é qualquer primata da Infraordem Anthropoidea, com exceção dos humanos.

Muito bem. Veja que as opções 1 e 2 formam grupos monofiléticos, enquanto as opções 3 e 4 formam grupos parafiléticos. Vamos analisá-las individualmente.

Eu gosto da opção 1, e não vejo problema em adotá-la. Mas ela é tão restrita que mesmo eu, que gosto de uma nomenclatura bem amarrada e definida, sei que ela não se mantém.

A opção 2 é a minha preferida. É elegante, abrangente e, o principal, monofilética. Mas há um problema grave: o que fazer com os “macacos” do novo mundo? Imagine a seguinte cena, eu e um amigo vemos um macaco-prego brincando numa árvore próxima, e ele diz:

“Olha, um macaco!”

E eu respondo: “Não é um macaco.”

“Como?”

“Não é um macaco.”

Meio ridículo, não é? Então, vamos passar da opção 2 para a 3. E porque não passar para a 4 de vez? Bem, tanto a opção 3 como a 4 são parafiléticas, alguém poderia argumentar. Mas a 4 é pior, não faz sentido: na opção 3, excluem-se os Hominoides por uma característica do grupo: chimpanzés, gorilas, homens, bonobos, orangotangos e gibões, grandes símios sem rabo, não seriam macacos. Mas, qual o critério, na opção 4, para excluir somente o ser humano? O que o ser humano tem de especial? Portanto, a opção 4 deve ser descartada.

O que está sendo feito nessa campanha, SomosTodosMacacos, não é nenhuma das 4 opções acima. O que estão fazendo é usar o termo “macaco” para designar um grupo monofilético: macacos seriam todos os antropoides e, caso o Rei Julien de Madagascar seja considerado macaco também, macacos seriam todos os primatas. Bem, isso é uma coisa legal, e que eu defendo: o uso de grupos monofiléticos. Mas há dois problemas. Primeiramente, já existe um nome para definir o grupo monofilético dos primatas, e você acabou de lê-lo: primatas. E, em segundo lugar, convém tomar cuidado com a transformação de grupos parafiléticos em monofiléticos. Quem já conhece bem a sistemática filogenética (se você não conhece, seja bem vindo!), sabe que as hashtags SomosTodosPeixes, SomosTodosAgnatos, SomosTodosEsponjas ou SomosTodosBactérias estão todas corretas e perfeitas, do ponto de vista biológico.

Portanto, vou fazer aqui a minha escolha. Eu fico com a opção 3. Mesmo sendo parafilética, mesmo sendo incorreta do ponto de vista da filogenética. Não é tão restritiva quanto chamar de macaco apenas os membros do Gênero Macaca, nem tão ampla quanto usar macaco como sinônimo de primata, que é o caso da hashtag tão comentada atualmente. No meu ponto de vista, Hominídeos (ou os Hominoides, se quisermos incluir os gibões) não deveriam ser chamados de macacos. Dessa forma, chimpanzé, homem, gorila e orangotango não são macacos.

 

Post Scriptum: O filme “Planet of the Apes”, de 68, é um caso de tradução infeliz. Em inglês, macaco é monkey, enquanto ape se refere aos hominídeos (os grandes primatas sem rabo, da Família Hominidae). Mas dá para entender o dilema do tradutor: como traduzir “Planet of the apes”? “Planeta dos símios”? “Planeta dos grandes primatas sem rabo”? Terrível, não é?

6 comentários sobre “Afinal, o que é um macaco?

  1. Que legal! Mas, sabe, eu já tive grandes momentos de crise com palavras como “legume”, “felino”, “bicho”, “macaco”, “pássaro”, “alga” (pra mim, um dos piores casos!), “cobra”, “peixe”, “mariposa”, “cão”, “caramujo”, “margarida”, etc… Esses são nomes vernáculos, desisti de enquadrá-los.

    Esses termos não são científicos e podem gerar confusão, assim como muitas outras palavras na cultura popular (basta ver a quantidade de acepções que alguns verbetes possuem em um dicionário como o Houaiss). Imagino que eles talvez nem possam ser redefinidos, pois é seu uso nas ruas e mídias populares que os estabelecem.

    Portanto, a única saída que vejo diante de uma palavra que contenha a palavra “macaco” é questionar (claro, se seu significado não estiver implícito e for ambíguo) à pessoa que o usou o que ela quis dizer com essa palavra. Nesse sentido, qualquer meu aluno que a utilize será questionado quanto ao significado que lhe emprestou (na maior parte das vezes, mais para forçá-lo a refletir e pensar antes de falar do que para facilitar minha compreensão).

    Dentro de uma comunicação científica formal, em todo caso, vejo que tal palavra seria inadequada até que um contexto estivesse previamente armado (ou um esclarecimento já tivesse sido feito).

    Abraço!

  2. A opção 4 deve ser descartada porque considera os humanos como uma exceção. Neste caso, faltou a opção 5, a meu ver a mais correta: “Macaco é qualquer primata, incluindo os humanos”. Sim, nós somos macacos. Eu e o autor desse artigo somos macacos. Todos os humanos são macacos. O problema é essa publicidade imbecil que fizeram em cima da frase, e também o racismo implícito nela, que vem dos tempos em que os humanos de pele branca se julgavam superiores aos de pele negra e por isso diziam que estes últimos são uma espécie de macaco, ou aparentados dos macacos, sendo o homem branco, a “coroa da criação divina do Gênesis”.

  3. ““Olha, um macaco!”

    E eu respondo: “Não é um macaco.”

    “Como?”

    “Não é um macaco.”

    Meio ridículo, não é? ”

    Mas não seria o mesmo que corrigir o mesmo amigo informando que a cenoura não é legume, a semente de girassol não é semente, o girassol não é flor, a sopa de ervilhas é uma sopa de legumes quando utilizada a vagem inteira mas não quando usados apenas os grãos et cetera?

    O problema desta questão de nomenclatura popular vs científica está nos campos de conhecimento: aqui não é o traçado da biologia, é o da linguística, e a linguística (ao contrário da taxonomia) aceita polissemias, paronimias e homonimias sem nenhum grilo (a comunicação social/publicidade, a literatura… por exemplo, dependem destes fenômenos ao extremo)

    Não me parece difícil entender (e levar alunos a entenderem) que os termos legume, baleia, macaco, fruto (e fruta), semente, flor… podem significar coisas distintas a depender do contexto.

    Exemplo: a palavra “dado” tem uns 10 significados distintos (informação organizada em planilhas/gráficos, peça geométrica tridimensional de plástico ou metal usada em jogos, particípio pretérito do verbo dar, adjetivo sinônimo de doado, pronome equivalente a ‘devido a’…) e isso não causa confusão alguma: todo mundo sabe que se num escritório o chefe pede ‘aqueles dados’ à secretária boazuda ela não deve levar a ele pecinhas coloridas e numeradas.

    Outra coisa é lembrar que as classificações não biológicas agrupam as entidades segundo outros critérios, com outras funções (culinárias por exemplo) plenamente justas. Se agrupar abacaxi, laranja, caju e morango numa mesma categoria para nós biólogos trabalhando em um laboratório de sistemática não tem muita razão de ser, a mesma divisão faz todo sentido para quem só que decidir que produtos comprar para preparar um suco pras visitas que estão para chegar. E não pretendo a ninguém que coloque tamarindo e amendoim (ambos com casca) na sopa de legumes, acho que vai ficar um horror🙂

    • Olá, Daniel,
      você está completamente correto em tudo. Só quero acrescentar que, em minha experiência, sempre foi bastante difícil fazer os alunos (inclusive universitários) entenderem que o significado popular de “legume” difere do significado biológico, por exemplo. Caso essas dificuldades não existissem, posts como este seriam completamente desnecessários.
      Abraço,

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