A má ciência

Era uma vez um professor em uma universidade. Esse professor tinha uma opinião: alunos que usassem drogas psicotrópicas ilegais tinham menores notas e maiores taxas de reprovação. E, para provar sua opinião, ele conduziu uma pesquisa (anônima e voluntária) entre os estudantes da universidade. Eu tive a oportunidade de ler o questionário  que ele e sua equipe elaboraram antes da pesquisa ser conduzida , e alertei: está quase tudo errado. De que forma as drogas psicotrópicas estão sendo consideradas, como se tivessem todas elas o mesmo efeito, os mesmos objetivos e o mesmo público usuário? Psicotrópicos legais estão recebendo o mesmo tratamento dos psicotrópicos ilegais? Como a amostragem será escolhida e analisada? Mas o mais importante era o seguinte: uma vez que o professor já tinha uma opinião formada e queria apenas validar cientificamente sua opinião, o questionário era tão tendencioso e enviesado que simplesmente não havia como o resultado ser diferente do que ele, antecipadamente, queria que fosse. Não sou Sherlock, mas mal segurei o questionário em mãos e dezenas de erros metodológicos saltaram do papel.

Isso não é ciência. Isso é, na melhor das situações, uma má ciência. Todos nós temos nossas opiniões formadas sobre os mais diversos assuntos, mas quando se faz ciência, quando se analisa fatos, quando se elabora hipóteses, não podemos privilegiar nossa opinião prévia. Podemos, no máximo, supor que teremos um determinado resultado, mas não podemos torcer por esse resultado, muito menos conduzir a pesquisa de tal maneira que nos leve àquele resultado. Eu imagino que deva ser frustrante trabalhar em uma pesquisa por semanas ou meses e, no final, não encontrar correlação alguma, e ter que manter a hipótese nula. Mas, em primeiro lugar, hoje em dia há vários jornais de resultados negativos, onde você pode publicar que sua pesquisa não deu em nada (beber suco de laranja numa cadeira verde não evita o Alzheimer, olhar a lua nascer plantando bananeira numa quinta feira não protege contra tuberculose, bater três vezes na madeira duas vezes ao dia não reduz a colesterolemia, etc), e esses jornais são bem interessantes. E, em segundo lugar, onde está a ética do cientista, o compromisso com a verdade? Um bom cientista é aquele que, antes de qualquer outro, é capaz de dizer “eu achava que haveria relação, mas olha só que impressionante, não há relação alguma!”, ou, até mesmo “minhas conclusões estão erradas, esqueci-me de analisar esse fator aqui, olha só…”.

O vídeo que eu vou compartilhar abaixo, razão da presente nota, ilustra vários aspectos do que eu acabei de discutir. Trata-se de um dos vídeos do canal Veritasium, um dos mais populares canais de ciências do Youtube, feito por um australiano, um canal que eu gosto muito e que costumo assistir. O próprio nome é muito bem bolado: veritas, verdade, em latim, com uma terminação que faz lembrar um elemento químico: ou seja, o elemento da verdade.  Interessei-me por um de seus vídeos, intitulado Why Do Venomous Animals Live In Warm Climates? (Por que os animais peçonhentos ocorrem nos climas quentes?). No vídeo, ele afirma que a maioria das espécies de animais peçonhentos ocorre nas regiões mais quentes do planeta, e parte em busca de uma explicação para esse fato, para essa premissa. Acontece que, e isso ele descobre bem depressa, a própria premissa está errada! Antes de compartilhar o vídeo, eu queria elogiar a honestidade intelectual do Veritasium. Ele poderia ter editado o vídeo, ou poderia, simplesmente, nem tê-lo publicado, depois que ele viu que sua premissa estava errada. Mas não, ele publicou-o, mesmo assim. Muito legal a parte em que o professor diz “mas na Austrália a maioria das cobras peçonhentas estão no sul, e não no norte (região mais quente)”, ou então, em outro momento, “que hipótese desleixada essa sua!”.

Eis o vídeo:

Portanto, temos uma lição de como não se faz ciência. “Há mais espécies venenosas nas regiões mais quentes, vou tentar descobrir a razão disso”, é uma péssima maneira de começar, porque a própria premissa está errada. Da mesma forma, “os estudantes que usam mais psicotrópicos têm notas mais baixas, vou tentar descobrir a razão disso” não é um bom começo, porque a premissa está errada. Carece de fontes, baseia-se em julgamentos populares e está cientificamente incoerente. Por quê cientificamente incoerente? Porque, para começo de conversa, eu posso provar, facilmente, que todos os estudantes de qualquer universidade usam psicotrópicos todos os dias, sem exceção. Estou falando da droga psicotrópica mais utilizada no mundo, a cafeína. Presente no café, no chá, na coca-cola, no guaraná, na erva mate… “Mas eu não bebo nada disso”, alguém diria, o que já é uma coisa bem rara. Come chocolate? Se sim, ingere cafeína. Mas estou digredindo, vamos voltar aos bichos peçonhentos (porque psicotrópicos é um assunto que dá muito pano para a manga).

É muito fácil, às vezes, vermos correlações onde não há correlação alguma. Logo no começo do vídeo, o autor nos mostra um mapa climático da Terra, seguido por um mapa de espécies peçonhentas distribuídas por país, e afirma que, como os dois mapas se sobrepõem adequadamente, não devem restar dúvidas de que há uma correlação entre o número de espécies peçonhentas e o clima do local.

Mas as coisas são um pouco mais complicadas do que parecem. O professor Rick Shine, um dos entrevistados, afirma que “há mais espécies de cobras peçonhentas em regiões mais quentes simplesmente porque há mais espécies de cobras em regiões mais quentes”. Isso é bastante óbvio. Eis um mapa bem interessante, que mostra o número de espécies de cobras e lagartos globalmente:

Número de espécies de cobras e de lagartos (fonte: http://maps.tnc.org/globalmaps.html)

Número de espécies de cobras e de lagartos (fonte: http://maps.tnc.org/globalmaps.html)

O número de espécies de cobras e lagartos é maior em regiões mais quentes. Não há nenhuma novidade aqui. Um mapa semelhante seria obtido se analisássemos aranhas, ou escorpiões, ou sapos. Assim sendo, não é de se espantar que os locais onde há maior número de espécies de aranhas perigosas sejam os locais onde há maior número de espécies de aranhas.

Na verdade, não só a correlação do título do vídeo não existe, como o contrário pode acontecer: segundo o prof. Shine, na Austrália, há uma maior proporção de cobras peçonhentas em relação ao número total de espécies na região sul (temperada) que na região norte (tropical)! Além disso, o professor lembra que a única cobra a habitar o círculo polar, no norte da Europa, é uma cobra peçonhenta.

Para saber se a correlação do título do vídeo é válida ou não, o pesquisador teria que, primeiramente, levantar o número total de espécies (peçonhentas e não-peçonhentas) por clima, ou por temperatura. Em seguida, ele teria que fazer o mesmo levantamento, mas considerando apenas as espécies peçonhentas. Com esses dados em mãos, ele poderia ver se a proporção de espécies peçonhentas em relação ao total de espécies aumenta, diminui ou não se altera quando se passa dos climas mais frios para os climas mais quentes. Tentei fazer uma análise desse tipo, bem superficial e rasteira, mas não consegui achar os dados de que precisava nas buscas que fiz pela internet. Fica aqui então uma dica, para aqueles que não estejam conseguindo ter ideias para sua monografia.

A lição importante é: não construir experimentos para validar opiniões prévias, não elaborar pesquisas baseadas em premissas que sequer são verdadeiras. Isso é má ciência.

8 comentários sobre “A má ciência

  1. Muito legal seu texto, Gerardo! Pelo tema, pelo exemplo, pela mensagem!
    A academia está mesmo repleta de hipóteses derivadas de opiniões particulares, baseadas em poucas evidências ou até mesmo sem qualquer fundamentação. E o pior, mesmo quando os pressupostos são fracos ou inexistem ainda há pesquisadores que ‘teimam’ em apostar na sua hipótese de pelúcia. Tipo: “meus resultados dizem isso, mas o que ocorre mesmo é aquilo que eu disse antes”! Seria cômico se não fosse trágico!

  2. Que bacana, Gerardo (e parabéns, também, pelas fontes selecionadas, muito ricas). Você tocou em um ponto delicado em relação às práticas na academia, e muitas vezes eu também percebo isso.

    Quero apenas colocar uma ressalva bastante pessoal: entendo que você está adotando uma postura realista (e não instrumentalista) da ciência ao falar em verdade, o que ainda me causa incômodos! Tentarei colocar minha angústia em relação à ideia de “verdade” emparelhando-a com à de “realidade”.

    Assumir a existência de uma realidade é uma posição metafísica, algo que está além da ciência. Até poderíamos imaginar uma proposta como a de Popper, na qual estaríamos cada vez mais próximos da realidade, embora nunca a possamos atingir de fato (algo que, confesso, soa-me estranho, embora eu não consiga definir bem o motivo: talvez seja apenas um preconceito mal-explorado); mas ainda assim, assumir a existência de uma realidade qualquer, é uma tarefa metafísica. Saliento que não estou aqui para desprezar a metafísica, pelo contrário: por ser algo que escapa em muito aos alcances da ciência, acho que esta última não tem poder para determinar o rumo da primeira.

    Esse assunto poderia se estender bastante (e eu mesmo tenho muito mais disposição do que competência para tanto), mas apenas quero fazer menção a duas propostas, nas quais eu ainda vejo mérito potencial, embora não tenha optado por uma delas): a do realismo não-representativo de A.F. Chalmers (que também considera o mundo físico como independente das teorias, mas descarta a verdade como correspondência; há críticas sobre ele, porém: e.g., http://www.unicap.br/ojs-2.3.4/index.php/agora/article/viewFile/227/228) e a da imagem científica de van Fraassen, claramente instrumentalista (na visão de van Fraassen, na ciência trabalhamos com ilusões que, imagino, estejam relacionadas de algum modo com os programas de pesquisa de Lakatos). Nessa última visão, o compromisso da ciência não estaria com a verdade, mas sim com sua consistência, sua coerência (e também com sua consiliência), com aquilo que Chalmers denomina “fertilidade” etc.

    Note, Gerardo, que meus apressados comentários são apenas devaneios de alguém que se interessa muito por epistemologia mas possui um conhecimento muito parco sobre o assunto; é possível mesmo que com esse conhecimento lacunar eu tenha proferido frases quase inúteis… Espero, porém, que pelo menos possa suscitar alguma reflexão.

    Abraços e obrigado pelo espaço!

    P.

  3. Pingback: A má ciência | Biólogo31

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