Grupos cenofiléticos

cb2Olha só mais uma vez o selo “conjectural blogging” aparecendo aqui do lado, avisando que esta postagem é uma conjectura, uma proposta, um devaneio, uma sugestão. Essa advertência é importante porque não são poucos os que acham que estão lendo uma revista científica, quando estão “apenas” num blog. Bem, o aviso está dado.

Não lembro exatamente como, mas, dia desses, acabei chegando a um artigo em cujo título aparecia um termo até então inédito para mim, holophyletic group (grupo holofilético). Baixei o pdf do artigo (que não referenciarei aqui, por razões que serão esclarecidas mais adiante) e, no dia seguinte, sentei para lê-lo. A coisa começou bem interessante e tranquila: o autor alegava que o prefixo mono não foi uma das escolhas mais adequadas de Hennig (Willi Hennig, o pai da sistemática filogenética), pois os grupos parafiléticos possuem, da mesma forma que os monofiléticos, um ancestral comum único (apesar de não exclusivo). Assim sendo, o autor sugeria o termo holofilético para substituir o termo monofilético, pois o prefixo holo- (em grego, ὅλος) significa tudo: desta forma, o grupo holofilético seria aquele que inclui um ancestral comum e todos os seus derivados, existentes ou extintos.

Como eu falei, até aí tudo bem. Mas a coisa não ficou assim por muito tempo. O autor começou a bater e bater novamente nesse que ele chamava de “erro de Hennig”, e, a partir daí, ele passou a alegar que a maneira de sistematizar a natureza da sistemática filogenética estava fundamentalmente errada. Inicialmente eu fiz uma expressão de espanto, mas continuei lendo. Num raciocínio enrolado e confuso, que mais parecia ter sido produzido num “gerador de lero-lero”, o ataque à sistemática filogenética foi sendo intensificado até o grand finale: ele concluía dizendo que a sistemática filogenética está completamente errada e que a sistemática de Lineu, a sistemática clássica, é a maneira correta de se organizar a diversidade natural.

Finalizei a leitura do artigo me perguntando: “quem é esse camarada?” Uma rápida pesquisa no Google me levou, além do site que continha o artigo que eu acabara de ler, a diversos blogs sobre evolução e cladística. Em vários deles eu achei o autor do insólito artigo não entre os blogueiros mas sim entre os comentaristas, normalmente atacando, de forma furiosa, os cladistas. Confesso que as coisas que li me fizeram sentir a cada vez mais famosa “vergonha alheia”. Num desses quebra-paus online descobri que o autor cuja produção eu investigava possuía um blog próprio… Entrei no blog e, desnecessário dizer, mais vergonha alheia: apenas algumas poucas postagens, a maioria defendendo a sistemática de Lineu e tentando desmascarar aquilo que o autor chamou de a “farsa dos cladistas”. Um anti-cladista! Sinceramente, não sabia nem que isso existia (não nos dias de hoje)! E é por essa razão que não vou referenciar o artigo nem dar o endereço do blog do seu autor, não me interessa aqui alimentar mais ainda essa polêmica, que considero boba.

Mas, então, por que eu contei essa história toda? Porque, apesar de tudo, uma coisa interessante surgiu da leitura do artigo, e é sobre ela que quero escrever nesta breve postagem:

Deixando de lado as sandices que tive de ler, uma coisa me pareceu bastante correta. Quando o autor sugeriu a substituição de monofilético por holofilético, ele sugeriu, em seguida, que o termo monofilético fosse usado para designar conjuntamente os grupos holofiléticos (que nós chamamos de monofiléticos) e os grupos parafiléticos. Ou seja, ele propôs um termo para reunir os grupos monofiléticos e os grupos parafiléticos, e um termo como esse não existe atualmente. Como assim?

Atualmente, definimos três tipos de grupos em sistemática filogenética:

  1. Monofiléticos
  2. Parafiléticos
  3. Polifiléticos

Há um termo, merofilético, que reúne os grupos parafiléticos e polifiléticos. Desta forma, merofilético é o mesmo que não-monofilético. Mas vamos fazer uma análise mais profunda aqui: quando usamos o termo merofilético, acabamos passando a ideia de que os grupos parafiléticos estão mais relacionados aos grupos polifiléticos que aos grupos monofiléticos. E é precisamente aqui que nasce minha discordância. Eu sei que os grupos parafiléticos são incorretos do ponto de vista biológico, quanto a isso não restam dúvidas. Se você fizer uma breve busca aqui no blog, vai encontrar pelo menos uma dezena de postagens onde eu falo sobre isso. Mas me parece que nós batemos forte demais nos grupos parafiléticos, quer dizer, lutamos tanto para eliminar os grupos parafiléticos (como répteis, peixes, briófitas, poríferos etc) que eventualmente esquecemos que os grupos parafiléticos, apesar de estarem incorretos, constituem um erro bem menos grave que os grupos polifiléticos, e estão bem mais próximos dos grupos monofiléticos que dos grupos polifiléticos.

A justificativa para essa minha alegação é que, enquanto os grupos polifiléticos possuem vários ancestrais, os grupos monofiléticos e parafiléticos possuem um só ancestral, ainda que esse ancestral seja exclusivo nos grupos monofiléticos mas não o seja nos grupos parafiléticos. Afinal de contas, um grupo parafilético é um grupo monofilético do qual foi retirado um ramo.

A partir daí eu me peguei pensando, que termo poderia ser usado para reunir os grupos monofiléticos e parafiléticos?

Em (a), a atual classificação: merofilético é um termo que usamos para nos referirmos a um grupamento que seja parafilético ou polifilético. Em (b), minha proposta: o termo cenofilético é utilizado para nos referirmos a um grupamento que seja monofilético ou parafilético.

Em (a), a atual classificação: merofilético é um termo que usamos para nos referirmos a um grupamento que seja parafilético ou polifilético. Em (b), minha proposta: o termo cenofilético é utilizado para nos referirmos a um grupamento que seja monofilético ou parafilético.

A minha proposta é usar o termo cenofilético. O prefixo ceno- (como em “biocenose” ou “cenocítico”) vem do grego κοινός, que significa comum, compartilhado. Minha ideia ao usar esse prefixo é que tanto os grupos monofiléticos quanto os grupos parafiléticos possuem um só ancestral (que é comum, compartilhado pelos membros do grupo, seja ele qual for), e não mais de um ancestral, como é o caso dos grupos polifiléticos.

Assim, ao usarmos a expressão “grupo cenofilético”, estamos assegurando que se trata de um grupo não-polifilético, ou seja, de um grupo que possui um só ancestral comum. A partir daí, análises subsequentes poderiam revelar se se trata de um grupo monofilético ou de um grupo parafilético. Além disso, a utilização de um termo único para designar tanto os grupos monofiléticos quanto os grupos parafiléticos traz estes últimos mais para perto dos primeiros, ou seja, daquilo que consideramos “correto” em sistemática filogenética, e os afasta dos grupos polifiléticos, completamente inadequados do ponto de vista da cladística.

Um problema que me vem à mente para a escolha do prefixo ceno- é que ele pode ser facilmente confundido com o prefixo usado para o grego καινός (que significa novo, recente), que em português é também ceno- (como, por exemplo, em cenozoico). Contudo, por significar comum, creio que o termo cenofilético é o mais adequado.

3 comentários sobre “Grupos cenofiléticos

  1. Olá, Gerardo! Como sempre, parabéns pelo post: gostei muito!

    Compartilho com você parte do espanto com os “anticladistas”! O argumento deles para mim é furado. Mas felizmente, eu já os conhecia (na verdade, até pessoalmente): e ainda assim me espanta que eles perseverem atualmente. Ainda trombei com um artigo como esses que você descreve neste ano (ao contrário de você, não o citarei por estar com a memória falha e sem motivação para rastreá-lo!). Contudo, como talvez diria Thomas Kuhn, esses anticladistas vivem em outro mundo, em outro paradigma. Somos incompatíveis. Isso pode acontecer conosco, um dia… Na verdade, questiono-me se já não passei por isso ao refutar tão fervorosamente alguns critérios de otimização em análises filogenéticas, como a verossimilhança (quando comparada com a parcimônia).

    Esse termo, “holofilético”, porém, até onde eu me recorde vem de meados do século XX, quando alguns gradistas já teimavam que também trabalhavam com grupos monofiléticos (“de origem única”), numa tentativa de defendê-los como grupos aceitáveis taxonomicamente. E nos últimos anos esse manifesto ressurgiu, talvez vindo de discípulos acadêmicos dos gradistas já mortos.

    Agora, vamos nos aprofundar! Em primeiro lugar, achei muito criativa a sua conjectura sobre os grupos “cenofiléticos”, e sua justificativa para o nome parece-me convincente: mais uma vez, parabéns!

    Entretanto, eu tenho dificuldades para enxergar um maior mérito (ou mesmo uma maior utilidade) nos grupos parafiléticos a ponto de destacá-los (com um novo termo) como superiores aos polifiléticos. Temerariamente, vou abandonar-me à minha memória, agora, mas Hennig (ou algum henniguiano) definiu os grupos (mono-, para-, polifiléticos) tanto em relação a seus ancestrais (algo que você recapitulou com propriedade na postagem) quanto em relação às características observadas para reconhecê-los. Nesse último caso, os monofiléticos são aqueles grupos cujos membros compartilham características de forma exclusiva (i.e., que possuem uma sinapomorfia). Nos parafiléticos, os membros “possuem” (o porquê das aspas explicarei adiante) características comuns, não exclusivas (paralelismos ou homoplasias simplesiomórficas, muitas vezes apresentadas na forma de ausências), e nos polifiléticos, os membros apenas possuem características comuns (que às vezes são exclusivas: as homoplasias convergentes).

    Dependendo dos critérios em que baseamos nossa análise, os grupos parafiléticos podem ser ainda piores que os polifiléticos, pois podem se basear em ausências (deixarei de lado o caso dos paralelismos, pois muitas vezes não são a única explicação mais parcimoniosa e, dependendo da otimização—AccTran/DelTran—, podem se desdobrar em reversões). E isso é um problema epistemológico… Afinal, faz sentido definir uma entidade pelas suas ausências? Usando um exemplo, deveríamos assumir um grupo formado por ausências, como os insetos “Apterygota” (afinal de contas, “não ter asas” diz-me algo relevante sobre o objeto?), mais adequados que um formado por convergências, como os “Aschelminthes” (vermes cilíndricos pseudocelomados)? Eu tenho forte inclinação a achar que não.

    Não quero diminuir seu belo raciocínio, muito pelo contrário! Apenas quero externar que, na minha visão, o reconhecimento dos grupos monofiléticos (sensu Hennig) já satisfaz plenamente a Sistemática Filogenética, e que os outros (ditos “merofiléticos”) apenas têm importância para a história e a filosofia da Biologia, pois biologicamente (no paradigma cladista) de forma geral carecem, tanto os “para-” quanto os “poli-“, igualmente de significado ou relevância.

    Antes de terminar, quero frisar que não estou elegendo as evidências estruturais (presença/ausência de caracteres) como superiores às inferências históricas (ancestrais comuns). Apenas digo que elas apresentam um empecilho quanto à consideração dos grupos parafiléticos como melhores que os polifiléticos. É claro, para isso precisamos de um critério, e você apontou um bem razoável (embora não seja o único e não necessariamente o melhor). Mas talvez, se esse critério for instável, ele não valha o esforço da criação de uma nova terminologia.

    Agradecendo (no mínimo!) os enriquecimentos que você sempre nos deixa em termos de filosofia, biologia (e vocabulário), deixo-lhe um forte abraço, desejando um ótimo Ano Novo!

    • Olá, Peterson,
      seu comentário foi preciso: os grupos parafiléticos só estariam mais próximos dos monofiléticos que dos polifiléticos se supusermos (que foi o que eu fiz tacitamente) que as inferências históricas são superiores às evidências estruturais.
      Quanto ao termo holofilético, ele de fato é bem anterior ao artigo que eu tive o prazer/desprazer de ler (que é de 2008). Até onde eu saiba, o termo holofilético foi proposto por Ashlock em 1971. No artigo que eu li, de 2008, o autor parte das críticas de Ashlock à sistemática filogenética e as aprofunda, vai além.
      Não é estranho haver cientistas contrários à sistemática filogenética. Na verdade, seria estranho se, nas décadas de 60 e 70, nenhum cientista se opusesse ao Hennig. O próprio Mayr, para citar um caso bem famoso, se opôs bastante à sistemática filogenética em seus primeiros anos. Isso é normal (do ponto de vista Kuhniano, como você disse) quando um paradigma é trocado por outro. Mas isso se deu há cinquenta anos! O que eu me espantei foi de ver, hoje em dia, biólogos alegando que o cladismo é uma “grande farsa”, quase uma “conspiração”!
      Eis o artigo original do Ashlock, creio que você o conheça:
      http://www.jstor.org/discover/10.2307/2412223?uid=3737664&uid=2&uid=4&sid=21103266236543

      Abraço,

  2. Ah! Excelente réplica, Gerardo. Concordo em absoluto—e sim, eu estava pensando exatamente no artigo de Ashlock de 1971 (obrigado pelo link, em todo caso: assim temos a referência concreta)! Também considero que ali estava o embrião da ideia de holofiletismo, amparado por gente de peso, como Mayr (como você oportunamente mencionou) e Simpson. Eu tentei contar um pouquinho dessa história em novembro, na publicação inaugural do blog Águas Livres (http://lopespl.blogspot.com.br/2013/11/a-sistematica-na-escola.html).

    Quanto ao tempo… É mesmo, né?! CINQUENTA anos (e vamos para 64 se considerarmos a obra de Hennig em alemão), hoje em dia… É realmente de cair o queixo. Se ainda estivéssemos no século XVI, vá lá… É quase como descartar a síntese moderna da evolução e prestigiar apenas o neodarwinismo, ignorando centenas de evidências acumuladas ao longo de várias décadas. Ou ainda, é como se os químicos de 1996 ignorassem o novo modelo atômico, que incorporava os nêutrons de Chadwick (e veja, esse modelo já era batido em 1994, quando eu estava na antiga 8ª série—e mesmo em uma apostila de química de um tio meu, da década de 60).

    Agora, uma pitada de ironia: não precisamos ser saudosistas! Se quisermos matar a saudade da escola gradista (“evolutiva”), apenas precisamos pular o capítulo de sistemática de um livro qualquer de Biologia do ensino básico (que corresponde, geralmente, a não mais que 2% de um volume). Encontraremos, no próprio livro, uma miríade de incoerências como a “scala naturae”, a falta de compromisso com a objetividade, os grupos merofiléticos etc. Esses livros estruturam cursos e são base para professores e alunos. Pois bem… Chega a ser uma utopia que a população veja a biodiversidade com óculos do século XXI…

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s