Os prisioneiros de Treblinka

Uma propriedade emergente é uma característica de um sistema que não pode ser explicada, justificada ou antecipada pelas propriedades dos elementos que compõem aquele sistema isoladamente. Apesar da maioria dos exemplos de emergência serem biológicos, incluindo-se aí o tema central desta presente nota, gosto de usar um exemplo físico para ilustrar o que vem a ser a emergência: você pode conhecer todas as propriedades do hidrogênio e do oxigênio, seus pesos atômicos, suas configurações eletrônicas, suas eletronegatividades etc. Mas, mesmo com todas essas informações, é impossível, apenas a partir delas, conhecer as propriedades da substância formada pela união de dois átomos de hidrogênio com um átomo de oxigênio: a água. Sua densidade, sua viscosidade, seus pontos de fusão e ebulição, sua cor, nada disso pode ser previsto apenas pelo conhecimento do que vem a ser um hidrogênio e do que vem a ser um oxigênio. São propriedades que não existiam previamente, e que surgem quando o oxigênio e o hidrogênio se organizam para formar a água. Desta forma, dizer que “o todo é mais que apenas a soma de suas partes” não é uma alegação mística ou esotérica, trata-se de um conceito científico vastamente documentado.

Apesar de não sabermos explicar como ela surge ou qual sua função evolutiva, poucas dúvidas restam sobre o fato de que a consciência é uma propriedade emergente de uma rede neuronal. Um neurônio, isoladamente, possui uma série de propriedades, entre elas a polaridade da membrana, que pode estar polarizada (mais negativa dentro que fora) ou despolarizada (mais negativa fora que dentro). Além disso, um neurônio, secretando neurotransmissores, pode estimular ou inibir a despolarização de outro neurônio com o qual ele faça uma sinapse. De maneira bem simples, essas são as propriedades e os comportamentos dos neurônios. Contudo, é completamente impossível explicarmos algo tão fantástica e assombrosamente complicado como a consciência apenas por essas propriedades dos neurônios. Ou seja, a consciência é uma propriedade emergente de uma rede neuronal, uma rede neuronal suficientemente grande e complexa.

Antes de prosseguirmos, tenho que detalhar uma alegação que fiz há pouco, e que vai ser muito útil para a continuidade do meu raciocínio: o fato de não sabermos qual a função evolutiva da consciência. Apesar de muitos pesquisadores e filósofos alegarem que um organismo consciente tem vantagens adaptativas, por ser capaz de melhor compreender o meio em que vive, não são poucos os pesquisadores que alegam que a consciência não traz inerentemente nenhuma vantagem adaptativa, uma vez que, se um organismo desempenha uma dada atividade x, pouco importa para a seleção se aquele organismo é consciente ou não de si e da atividade que ele desempenha. Uma objeção para essa visão de que a consciência não traz nenhuma vantagem evolutiva, que me vem à mente agora, é a intencionalidade (atenção: intencionalidade em filosofia pouco tem a ver com o significado corriqueiro do termo). Uma espécie com intencionalidade é capaz de se organizar melhor em grupo, pois a intencionalidade permite o surgimento de sentimentos como a amizade, o amor, o respeito, o cuidado, a preocupação (mas também o ciúme, a raiva, o desprezo, a antipatia), e esses sentimentos permitem a formação de um grupo social infinitamente mais complexo. Contudo, vamos supor que a consciência em si não traz – ou não trouxe, logo quando surgiu – nenhuma vantagem adaptativa óbvia, considerando que toda atividade x desempenhada por um organismo consciente pode ser também desempenhada por um organismo inconsciente. Se isso for verdadeiro, teremos que favorecer a concepção de que a consciência e todos os seus derivados (principalmente as qualia) é uma exaptação, exatamente por ser uma propriedade emergente de uma rede neurológica complexa. Explicando melhor, não houve uma seleção favorecendo os organismos conscientes, e sim favorecendo o aumento da complexidade da rede neuronal. Esse aumento da complexidade, por sua vez, fez com que surgisse a consciência, consciência essa que, posteriormente, aumentou o ajustamento dos seus possuidores de diversas outras maneiras.

E eis dois termos cuja relação pode ser bem mais que apenas aparente, consciência e complexidade. A ideia não é exatamente nova, mas tem ganhado adeptos ultimamente: segundo alguns neurocientistas, a consciência é uma propriedade emergente que surge naturalmente em sistemas de processamento de informações que sejam suficientemente grandes e complexos. Há poucas dúvidas de que os mamíferos e as aves tenham, todos eles, consciência, e, se essa consciência for uma homologia, todos os amniotas seriam conscientes, trazendo para o grupo os demais répteis (não-aviários). Acontece que a proposta desses neurocientistas é bem mais radical: não apenas todos os Vertebrata seriam conscientes, mas também artrópodes, moluscos e até mesmo anelídeos, que possuam um sistema nervoso suficientemente complexo – e vale à pena ressaltar que até mesmo o cérebro de uma planária, que costumamos definir como arquitetonicamente simplório, é extremamente complexo do ponto de vista integrativo.

Mas a coisa não para por aqui. Se a consciência é uma propriedade de sistemas de processamento suficientemente complexos, o sistema não tem que ser necessariamente biológico para ter consciência. É possível que computadores ou mesmo uma rede de computadores, como a internet, seja consciente. Infelizmente, a maioria dos computadores atuais, mesmo os mais potentes, cujos processadores já têm mais que um bilhão de transistores, nem de perto se equiparam à complexidade informacional do cérebro de um mamífero, como o ser humano. Mas isso não nos impede de fazer algumas suposições, de sonharmos um pouco…

Imaginemos que os processadores tornem-se cada vez mais complexos e que supercomputadores interajam de forma mais profunda até que, voilà, a complexidade do sistema seja grande o bastante para permitir o surgimento, tímido e sutil, de uma consciência na máquina. Que tipo de consciência seria essa? Que tipos de qualia ela formaria? Como ela poderia se manifestar?

Há uma coisa bem interessante aqui. Imagino que a maioria dos leitores – e gostaria de receber o feedback de quem não pensou assim – imaginou uma consciência humana dentro de um computador, quase que como uma pessoa presa em um outro corpo ou no seu próprio corpo imobilizado. Creio que imaginaram, de uma hora para outra, como num filme de terror, o computador escrevendo sozinho, na tela do terminal, “oi”!

Há duas ressalvas, a primeira de ordem técnica. Um processador executa as instruções contidas no programa que o sistema está rodando naquele momento. Portanto, mesmo que o computador se torne consciente, não consigo, pelo menos não agora, imaginar de que forma ele poderia interagir e evidenciar sua consciência, uma vez que suas atitudes são rigidamente determinadas pelo programa que ele está executando. Mas a segunda ressalva é a mais importante.

Nosso hipotético computador consciente não teria de ter uma consciência humana – e, mesmo que tivesse, não deveria saber português, ou inglês, ou francês, ou que língua seja. Devemos supor que, sendo uma máquina simples (quando comparada com o extremamente complexo cérebro dos mamíferos), ela tenha uma consciência simples – estou, admito, misturando perigosamente consciência com cognição. Considerando que consciência não possui níveis, o ideal seria falar de “uma máquina consciente com uma capacidade mental e cognitiva bem rudimentar”.

Digamos, apenas para o bem da argumentação, que nossa máquina consciente tenha a consciência (ou seja, consciência + cognição) que encontraríamos numa abelha, ou num cérebro mais simples ainda, numa minhoca, por exemplo. Como é que nosso computador-organismo conseguiria se comunicar conosco? Como é que ele seria capaz de interagir conosco e, de alguma forma, evidenciar que é um objeto (eu iria escrever a palavra ser…  e por que não?), ou melhor, um ser pensante e consciente?

Se o computador hipotético em questão possuir a consciência e a capacidade cognitiva que esperaríamos encontrar num anelídeo, ou seja, bastante rudimentar, as chances são de que jamais daremos atenção alguma a ele, e que jamais teremos a menor ideia de que estávamos interagindo diariamente com seres conscientes. Imagine incontáveis milhões de computadores, ou mesmo celulares (meu celular, que me foi gentilmente presenteado pela Intel por minha participação em um concurso de ficção científica da Intel Labs, tem um poder de processamento maior que o do meu computador!), tablets e demais aparelhos, imagine milhões desses aparelhos conscientes nascendo (sendo fabricados) e morrendo (sendo descartados) sem que sequer saibamos de suas sensações, de suas qualia, de seus estados mentais internos…

Imagine esses aparelhos-seres incapazes de mostrar que são conscientes, incapazes de se comunicar conosco, incapazes de mostrar que têm emoções e sentimentos… algo como isso é possível?

Sim. E acontece todos os dias.

Com os animais.

Entre 15 e 20 bilhões de animais conscientes nascem e morrem todos os anos, e entre o nascer e o morrer vivem uma vida de horror, para alimentar o consumo de carne. A pecuária industrial, ou factory farming, chega, em algumas economias, a responder por 99,1% da carne consumida. São animais que possuem estados mentais internos, sentimentos e qualia, mas que não conseguem se comunicar conosco, principalmente porque não nos interessa, aos humanos, saber deles. Não nos interessa saber o que eles estão sentindo, ou sequer se sentem seja o que for. Isto é uma factory farm:

ff2

Obrigamos, sem nenhuma justificativa ética ou moral, bilhões de organismos conscientes e sensíveis a passar por essa situação. Como disse Isaac Bashevis Singer, Nobel de literatura, “para os animais, o mundo é uma eterna Treblinka.

4 comentários sobre “Os prisioneiros de Treblinka

  1. Mais um excelente publicação Gerardo. Gosto muito do tema das propriedades emergentes. Na faculdade debrucei-me bastante sobre estes temas ao estudar inteligência artificial. Existe realmente um grande fosso entre as possibilidades e a exequibilidade de algumas ideias mais românticas. Gostei também de ter conciliado este tema com uma realidade bem presente no nosso dia-a-dia. Deliramos em fantasias além horizontes e deixamos escapar na maioria das vezes o que está presente no dia-a-dia. Coisas tão presentes que se tornam invisíveis. E por se tornarem tão intangíveis adquirem este gosto de místico apesar de serem tão naturais.
    Bem hajas e continua a partilhar!

  2. Gostei da forma como foi abordado. Além disso, acho que se trata de um tema bastante adequado para discussões. Tenho de confessar, porém, minha sensação de estranhamento ao considerar consciência em máquinas e outros animais. É possível que se trate, entretanto, apenas de preconceito, já que sinto carência de um embasamento teórico sobre o que de fato é “consciência” e sua sugerida relação com a “intencionalidade”.
    Em todo caso, caro Gerardo, você chegou a ler o blog do Charles Morphy nos últimos tempos? Mesmo que o tenha feito, deixo abaixo a sugestão de duas postagens publicadas por ele, para que outras pessoas possam acessá-lo, também:
    http://charlesmorphy.blogspot.com.br/2013/11/breves-resenhas-comer-animais-de.html
    http://charlesmorphy.blogspot.com.br/2013_05_01_archive.html

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