Quando as esponjas têm tecidos

Há uma semelhança entre a física quântica e a sistemática filogenética: em certas circunstâncias e em alguns aspectos, as duas são contra-intuitivas, ou seja, vão contra o senso comum, contra a forma como nossa mente organiza e sistematiza o mundo ao nosso redor. Por exemplo, é bastante difícil compreendermos o tunelamento quântico, o emaranhado quântico ou a dualidade onda-partícula, pois são fenômenos e comportamentos impossíveis de se imaginar num mundo macroscópico. De modo análogo, é bastante difícil visualizarmos que uma arqueobactéria é mais aparentada com um ser humano que com uma eubactéria, ou que um crocodilo é mais aparentado com uma coruja que com um lagarto. Nossa mente cria grupos merofiléticos – parafiléticos ou polifiléticos – com tanta facilidade quanto cria grupos monofiléticos (até com mais facilidade, talvez? Esse é um tema sobre o qual podemos nos debruçar posteriormente). E esses grupos merofiléticos, bem sedimentados em nosso imaginário e em nossos livros, dificultam bastante a compreensão correta das relações de parentesco e das histórias evolutivas. Um desses grupos, que ainda irá dar muita dor de cabeça aos zoólogos e aos sistematas, é o das esponjas.

Todos nós aprendemos, quase sem exceção, que as esponjas não têm tecidos. Mas convém, eventualmente, contestarmos aquilo que nos ensinam, não por birra, mas motivados por um espírito cético e indagador: por que isso é assim? Quais são suas referências? Como você pode embasar essa sua alegação? Por exemplo, vejamos o caso de “as esponjas não têm tecidos”. Experimente perguntar para o professor, logo após ele dizer isso: “o que é um tecido?”. Provavelmente você receberá a definição padrão, “tecido é um conjunto de células, num organismo pluricelular, que possuem uma estrutura semelhante e desempenham funções parecidas”. Ora, a partir dessa definição, a coanoderme é um tecido. A pinacoderme é um tecido. Até mesmo o meso-hilo é um tecido. Então, por que as esponjas não tem tecidos?. Perceba que a imensa maioria dos textos simplesmente afirma que as esponjas não têm tecidos, mas não dão nenhuma explicação para esse fato tão conhecido e aparentemente tão importante, pois é repetido à exaustão em todos os cursos de zoologia. Da mesma forma, afirmamos que as briófitas não têm tecidos de condução, mas não damos explicação nenhuma para essa ausência, mesmo as briófitas possuindo células condutoras de água.

Enfim, “as esponjas têm ou não têm tecidos?”, você perguntaria. A resposta pode ser sim, não e depende. E a razão para isso é algo que devemos começar a nos acostumar: o Filo Porífera, que contém as esponjas, não é um grupo monofilético. Ou seja, há esponjas mais aparentadas com um elefante que com outras esponjas. Mas, antes de prosseguirmos, convém esclarecermos um ou outro aspecto zoológico normalmente esquecidos.

Em relação aos tecidos nervoso e muscular, parece não haver dúvidas: as esponjas não os possuem. Porém, quando chegamos aos tecidos conjuntivos, temos a primeira surpresa: as esponjas têm tecidos conjuntivos. E a referência que deve nos guiar aqui é o bastante famoso Zoologia dos Invertebrados, de Barnes. Segundo ele (Ruppert/Barnes, “Invertebrate Zoology”, 6th edition):

Sponges lack organs, but have well-developed connective tissue, in which cells perform a variety of functions.

Portanto, considerando os tecidos conjuntivos, a resposta para a pergunta “as esponjas têm tecidos?” seria sim, todas elas. Mas falta considerarmos um tecido, que é o tecido utilizado pelos zoólogos para separar os animais em parazoários (os que não o possuem) e eumetazoários (os que o possuem): o tecido epitelial.

Por que as esponjas não têm tecidos epiteliais? Por que a pinacoderme não é considerada um tecido epitelial, ou a coanoderme? Para responder a essa pergunta, devemos saber o que é um tecido epitelial. Os zoólogos e histologistas definem que os tecidos epiteliais devem possuir uma lâmina basal, constituída de colágeno do tipo IV, e estruturas de adesão entre as células, como a zônula de oclusão, a zônula de adesão e os desmossomos. É com essa definição de tecido epitelial que os zoólogos afirmam que nem a pinacoderme nem a coanoderme são tecidos epiteliais “verdadeiros”. Da mesma forma, apesar de possuírem células para a condução de água, as briófitas não têm tecidos condutores verdadeiros porque, para os botânicos, os tecidos condutores de água (xilema) devem ser constituídos por células que possuam parede secundária, e não há parede secundária em briófitas.

Então, se a pergunta for “as esponjas têm tecidos epiteliais?”, qual seria a resposta? A resposta seria não e… depende! Como isso é possível? Para compreendermos, temos que ter em mente um fato que já enunciei mais acima, mas que não custa repetir:

  • As esponjas formam um grupo parafilético.

Em outras palavras, o Filo Porifera não forma um grupo monofilético. Assim sendo, não esperamos que as esponjas tenham as mesmas apomorfias.

Para respondermos a pergunta “as esponjas têm tecidos epiteliais?” elaborei o gráfico abaixo, a partir de “Animal Evolution, Interrelationships of the Living Phyla” de Claus Nielsen (3ª edição, 2012):

Filogenia animalia porifera

Perceba que o antigo Filo Porifera foi dividido em pelo menos três grupos: Silicea, Calcarea e Homoscleromorpha. E aqui a coisa fica um pouco mais complicada…

Placozoa, Cnidaria e os demais filos animais, coletivamente chamados de Eumetazoa, têm tecidos epiteliais, quanto a isso não restam dúvidas. Silicea e Calcarea aparentemente não têm tecidos epiteliais. Mas o mesmo não pode ser dito de Homoscleromorpha. Esse pequeno grupo de esponjas apresenta uma membrana basal com colágeno do tipo IV, critério que usamos para definir um tecido epitelial. Além disso, os epitélios de Homoscleromorpha possuem, pelo menos na fase larval, estruturas de adesão – e vale a pena lembrar que, mesmo se uma característica aparece apenas na fase larval, podemos seguramente dizer que aquela espécie possui aquela característica. Por fim, o fato de alguns zoólogos defenderem que Homoscleromorpha não é um filo independente, colocando-as dentro de outro grupo de esponjas, não muda nada, pelo contrário, piora as coisas: Faz com que, num só grupo de esponjas, algumas tenham tecidos epiteliais enquanto outras não.

Portanto, Silicea e Calcarea não possuem tecidos epiteliais. Porém, Homoscleromorpha os possui, e, juntamente com os demais eumetazoários, constituiria o grupo dos Proepitheliozoa.

A lição mais importante aqui, a meu ver, é questionarmos conceitos e definições que são repetidos à exaustão, mas quase sem nenhum embasamento, sem nenhuma justificativa. Da próxima vez que alguém perguntar “as esponjas têm tecidos?”, saiba que as respostas possíveis são sim, não e depende.

10 comentários sobre “Quando as esponjas têm tecidos

  1. O problema não é se as esponjas têm ou não tecidos. O problema, de verdade, como você bem apontou, está, isso sim, na explicação insuficiente que se dá ao modo como as coisas são classificadas. Eu, por exemplo, aprendi que os eumetazoários se distinguem dos parazoários porque, diferentemente destes, possuem tecidos. Mas, ora! Qual o tecido que eles têm e os parazoários não têm, entende? É isso que não é ensinado. Em vez de ensinarem que o tecido é o epitelial com lâmina basal, com colágeno do tipo IV etc., grande parte dos professores (senão todos) apenas simplifica, erradamente, vale dizer, com a palavra “tecidos”. E o pior, Gerardo: isso não acontece apenas na Zoologia. Vemos inexatidões – grosseiras – desse tipo também em Citologia, Botânica, Genética e até mesmo em Física e Química. Parece-me que muitos ignoram conceitos básicos (que são, naturalmente, essenciais) para pular degraus que apenas “sobem pra baixo”.

  2. Preciso e oportuno, como quase sempre! Na verdade, a postagem me fez lembrar que, às vezes, as pessoas ficam procurando por características que definem os grupos monofiléticos, as ditas “sinapomorfias”, que são vistas quase como traços essencialistas. Muitos continuam olhando para a biodiversidade em busca de essências, mas agora com uma nova roupagem teórica, com outro nome.
    Por exemplo: dificilmente alguém aceitaria, ao invés de falar dos poríferos, falar dos homoscleromorfos, porque não conseguem atribuir-lhes uma essência. Esse, além de me parecer um erro lógico (um conjunto pode ser estabelecido não apenas por definição, mas também por extensão, com a enumeração de seus elementos), é um indício da falta de compreensão da ordem de complexidade abordada pela Sistemática (que talvez por isso seja anti-intuitiva).
    Grupos monofiléticos podem ser formados apenas por homoplasias, e ainda assim ser bastante estável: as contingências evolutivas podem ser inferidas a partir das análises sobre as evidências morfológicas, fisiológicas etc. Em outras palavras, nem sempre é possível reconhecer uma característica marcante (e “marcante” segundo nossos pressupostos) em um grupo monofilético, e por isso eles são preteridos. Julga-se mais “didático” trabalhar com agrupamentos como “poríferos”, “peixes” e “pteridófitas” (isso sem falar nos tais “cinco reinos”)… Forma-se com isso, nas escolas, um conhecimento à parte da biologia atual—que se é considerada dispensável agora (argumento que já ouvi), corremos o risco de despencar por uma ladeira escorregadia… Afinal, também já foi dispensável aquilo que se ensina hoje; então, qual o propósito de se ensinar Biologia?

  3. Gerardo, onde é que você encontra definições tão precisas assim, como a que você deu sobre epitélio? Porque, em Histologia, o que eu aprendi foi que “tecidos epiteliais são compostos de células poliédricas firmemente unidas com muito pouca substância extracelular, que têm adesão muito forte e formam camadas celulares que cobrem a superfície do corpo e revestem suas cavidades”.

  4. Outra coisa: sabe o que é pior, Gerardo? Se eu mostro a seguinte linha de pensamento para o meu professor: “sabendo que um tecido é um conjunto de células com funções semelhantes, então a pinacoderme é um tecido e, portanto, um metazoário”, ele vai ficar é irritado e vai me dizer que “porém, não é um tecido verdadeiro” (e não me dará uma definição exata do que é “verdadeiro”) e a discussão vai ser encerrada por aí. Uma pena.

  5. Gerardo, até tecidos epiteliais GLANDULARES têm junções de aderência, junções de oclusão, junções desmossômicas e lâmina basal constituída por colágeno do tipo IV?

    • Bernardo, respondendo as suas três perguntas:
      Se tecido epitelial é “compostos de células poliédricas firmemente unidas com muito pouca substância extracelular, que têm adesão muito forte e formam camadas celulares que cobrem a superfície do corpo e revestem suas cavidades”, então a pinacoderme é um tecido epitelial. Eu não teria problemas em definir assim. Mas os histologistas dizem que a pinacoderme não é um tecido epitelial “verdadeiro”. E esse “verdadeiro” é definido pela lâmina basal e pelos desmossomos.
      Os tecidos glandulares (epiteliais) têm lâmina basal; eles podem não ter estruturas de aderência, mas derivam de uma camada epitelial que tinha.
      Esse material aqui pode te ajudar:
      http://books.google.com.br/books/about/Animal_Evolution.html?id=mTHPW7tW7t4C&redir_esc=y
      Abraço,

  6. Pingback: Os poríferos têm tecidos!?… | Ezoide

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s