A scala naturae no vestibular

Não é do desconhecimento de praticamente ninguém que lide com educação que no Brasil nós vivemos uma situação bastante peculiar: o vestibular determina os conteúdos que serão ensinados no Ensino Médio, e não o contrário.  O resultado disso é que o Ensino Médio torna-se quase um refém dos vestibulares: já vi inúmeras vezes um assunto ser inserido no Ensino Médio porque o vestibular daquele fim de ano anunciou que iria passar a cobrar aquele assunto, bem como um assunto ser eliminado do conteúdo programático do Ensino Médio porque o vestibular deixou de cobrá-lo.

Esse não é na verdade um problema grave, caso possuíssemos vestibulares relativamente unificados, coerentes em suas propostas e que cobrassem os paradigmas e abordagens mais modernos e adequados. Isso, infelizmente, nem sempre acontece. Enquanto algumas matérias não sofrem desse problema, a biologia está repleta de conceitos ultrapassados, de abordagens incorretas e de paradigmas já há muito descartados. E, quando os vestibulares costumeiramente usam esses paradigmas ultrapassados, os professores se veem numa posição complicada: ensinar o correto, o atualmente aceito, ou ensinar “o que é correto para o vestibular” (como se existissem diferentes verdades, uma para cada situação)? A maioria, logicamente, opta pela segunda opção, e o que vemos aqui é a pior consequência do fato do Ensino Médio ser refém dos vestibulares: a manutenção de conceitos incorretos.

Isso pode ser exemplificado pela recente prova da Fuvest, um dos vestibulares mais famosos, importantes e influentes do Brasil. E o problema aqui é algo que já tratei inúmeras vezes neste blog (tantas que nem vale a pena listar os posts, o leitor que se interessar pode fazer uma busca usando a ferramenta de buscas no painel à direita), que é a famigerada scala naturae. Um conceito que, ao meu ver, deveria estar morto e enterrado há décadas mas que está, ao que parece, bem vivo na prova da Fuvest. Eis a questão:

Na história evolutiva dos metazoários, o processo digestivo:

a) é intracelular, com hidrólise enzimática de moléculas de grande tamanho, a partir dos equinodermas.

b) é extracelular, já nos poríferos, passando a completamente intracelular, a partir dos artrópodes.

c) é completamente extracelular nos vertebrados, o que os distingue dos demais grupos de animais.

d) passa de completamente intracelular a completamente extracelular, a partir dos nematelmintos.

e) passa de completamente extracelular a completamente intracelular, a partir dos anelídeos.

(gabarito oficial: d)

Em primeiro lugar, antes mesmo de tratarmos do conceito de sequência evolutiva, convém tratar um pouco de zoologia. Com exceção de poríferos, que realizam digestão exclusivamente intracelular, todos os grupos mencionados realizam digestão extracelular e muitos realizam tanto digestão intra como extracelular. Isso vale também para os nemátodos, que não realizam digestão completamente extracelular, como nos faz crer o gabarito oficial da questão (letra d). Segundo Brusca & Brusca, “Invertebrates”, 2003:

Nematode digestive tracts vary greatly in complexity and regional specialization […] Initial digestion is extracellular; final intracellular digestion occurs in the midgut, following absorption across the surfaces of the microvilli of the midgut cells.

Segundo Ruppert e Barnes, “Invertebrate Zoology”, 1994:

Digestion begins extracellularly within the intestinal lumen but is completed intracellularly.

Mas, mesmo que houvesse uma opção que contivesse um grupo onde a digestão fosse completamente extracelular, isso não tornaria nenhum item correto. Por quê? Porque sequências evolutivas não existem.

sequencia evolutiva

Sequências evolutivas não existem, uma vez que grupos atuais não são ancestrais de outros grupos atuais. A imagem da esquerda é diferente da imagem da direita, mais correta, onde grupos compartilham ancestralidade comum.

O fato de um professor de zoologia dar uma aula sobre poríferos para em seguida dar uma aula sobre cnidários, sobre platelmintos e por fim sobre nemátodos pode fazer muitos alunos acharem (e inclusive alguns professores) que poríferos deram origem a cnidários, que cnidários deram origem a platelmintos, que platelmintos deram origem a nemátodos etc. Mas essa é uma concepção ultrapassada e incorreta do processo evolutivo. Isso é scala naturae.

O ensino da sistemática filogenética está, felizmente, cada vez mais comum nos colégios, e poucas ferramentas são mais úteis que a sistemática filogenética para varrer a scala naturae para fora da biologia. Uma das regras elementares da sistemática filogenética é que grupos atuais não são ancestrais de outros grupos atuais. As esponjas não são ancestrais dos cnidários, que não são ancestrais dos platelmintos, e assim por diante.

Do mesmo modo, as briófitas (grupo parafilético) não são ancestrais das pteridófitas (grupo parafilético), que não são ancestrais das gimnospermas. As primeiras plantas com vasos condutores não foram as pteridófitas, e sim o ancestral do grupo “pteridófitas + gimnospermas + angiospermas”. Os primeiros animais bilaterais não foram os platelmintos, mas sim um ancestral, que logicamente não existe mais, e que é o ancestral de um grupo que inclui não só os platelmintos mas também todos os outras animais bilaterais, como nós mesmos.

Apesar disso, a mesma prova da FUVEST afirma no enunciado de uma questão anterior que “as briófitas, no reino vegetal, e os anfíbios, entre os vertebrados, são considerados os primeiros grupos a conquistar o ambiente terrestre”. Duas aparições da scala naturae em uma só prova de 10 questões.

Assim, os primeiros animais a terem digestão extracelular não foram os cnidários, mas o ancestral de todos os Eumetazoa, clado que inclui os cnidários. Do mesmo modo, caso os nemátodos realizassem digestão exclusivamente extracelular (o que não ocorre), isso não nos autorizaria a dizer que eles foram os primeiros animais a fazerem isso.

O que repetimos à exaustão é que a scala naturae não existe, bem como não existem sequências evolutivas. Esperamos que os vestibulares se adequem aos conceitos e paradigmas mais recentes da biologia (e de todas as ciências), pois, ao manterem abordagens ultrapassadas e incorretas, eles forçam os professores a ensinarem essas abordagens no Ensino Médio, num ciclo vicioso onde quem perde é o aluno e a alfabetização científica da sociedade.

Post scriptum em 26/11/13: Curiosamente, em meio a essa problemática envolvendo questões de vestibular, descobri (na verdade foi um leitor do blog que me avisou) que um vestibular usou um texto do blog para elaborar uma questão. Foi o vestibular de medicina da Unigranrio. Gostei da questão, mas devo dizer que considero uma questão de nível entre médio e difícil, uma vez que alguns alunos poderiam marcar a letra A, enquanto a correta de fato é a letra D. Eis a questão:

Questão 21) “LAMARQUISMO” (Julho 21, 2013, por Gerardo Furtado <https://biologiaevolutiva.wordpress.com/…/epigenetica…/>)

“Infelizmente, a definição de lamarquismo de praticamente todos os livros didáticos e, por essa razão, em quase todos os cursos de biologia evolutiva, está equivocada. Estritamente falando, devemos entender por lamarquismo os mecanismos evolutivos propostos por Lamarck, e esses mecanismos evolutivos são bem mais complexos (e equivocados!) do que dizem os livros didáticos, que, ao baterem repetidamente na tecla do uso e desuso e da transmissão dos caracteres adquiridos, ignoram a maior parte das ideias de Lamarck sobre a evolução orgânica”. “Acontece que nenhuma dessas duas ideias foi criada por Lamarck! É fundamental que deixemos claro, para tentar diminuir uma crendice tão comumente aceita, que a “lei do uso e do desuso” e, principalmente, a “transmissão de caracteres adquiridos” não são criações de Lamarck, sendo conceitos plenamente admitidos pela maioria dos cientistas dos séculos XVIII e XIX. Na verdade, remontam não apenas a séculos, mas a milênios antes de Lamarck. E o fato de que eram conceitos plenamente aceitos no século XIX é claramente comprovado quando se verifica que Darwin fala da transmissão de caracteres adquiridos não menos que uma dezena de vezes em seu On the origin of species. Logo, se nós definirmos “lamarquismo” como a doutrina que defende a transmissão de caracteres adquiridos, poderemos perfeitamente trocar “lamarquismo” por “darwinismo” e tratar os termos lamarquismo e darwinismo como sinônimos, pois Darwin também defendia essa doutrina”.

Logo, pautado no texto acima, e na ideia que melhor traduz as teorias de Lamarck no processo evolutivo, escolha uma
opção abaixo que retrate tal situação:
a) “Lamarquismo é a ideia de que características adquiridas podem ser hereditárias”
b) “Lamarquismo é a ideia de que características transmitidas não podem alterar o material genético;
c) “Lamarquismo e Darwinismo não diferem”
d) “Lamarquismo é a ideia de que características adquiridas podem alterar o material genético e serem, portanto,
geneticamente herdadas”;
e) “Lamarquismo é a ideia de que características herdadas não são hereditárias”.

17 comentários sobre “A scala naturae no vestibular

  1. “O ensino da sistemática filogenética está, felizmente, cada vez mais comum nos colégios”. É, Gerardo, é verdade que o ensino da cladística tem ocupado uma fatia cada vez maior dos quadros das salas de aula, mas, por outro lado, também é verdade – e infelizmente inegável – que tem sido péssimo o uso que alguns professores fazem de seu título para ensinarem conceitos errados. Por exemplo, um de meus professores, que dá aula em cursinho, disse que o modo correto de se ler um cladograma é da esquerda para a direita, e que na esquerda ficam os grupos, segundo ele, mais primitivos. Eis, aqui, uma amostra do resquício de uma scala naturae ultrapassada e medievalesca mas, ainda assim, recorrente num dos lugares que mais se pretende esclarecido.

  2. Perfeito! Ontem, quando li essa questão da FUVEST, quase tive um surto. Justo na FUVEST… Foi um espanto porque na USP eu me apaixonei e me especializei em Sistemática Filogenética. Ali nasceu o primeiro curso de graduação em sistemática filogenética no Brasil… E os caras me colocam uma questão dessas… E, de quebra, ainda teve a das briófitas e anfíbios (“os primeiros a conquistarem o meio terrestre”)! Estou perto da conclusão de um livro que trata da sistemática no ensino básico, e esse tipo de erro me dá um ataque de ansiedade tremendo!

    De fato, a sistemática está cada vez mais dentro da sala de aula… E de forma nociva, por ora. Cada vez mais se reforça a ideia da “grande cadeia dos seres” (ou, inspirando-me em Gould, “a iconografia canônica da evolução”). Digo isso porque também dou professor de colégio e me deparo com esses problemas em todos os livos básicos (alguns deles catastróficos, outros apenas inadequados em alguns pontos). É necessária uma revolução rápida e intensa sobre isso na escola, pois o que se aprende ali é qualquer coisa, menos a evolução atual. O conhecimento sobre biodiversidade de um egresso do ensino médio tende a ser, no mínimo, ultrapassado…

    Obrigado pelo espaço! Eu queria desabafar, e você deu vazão às palavras que em meu âmago estavam engasgadas!

    • Olá, Peterson,
      De fato, você disse tudo, uma questão como essa faz menos sentido ainda vinda da USP, que é a casa da sistemática filogenética no Brasil. Me pergunto o que o professor Amorim diria dessa questão.
      Só uma observação, uma vez que você ainda não concluiu o seu livro: creio que quando Gould fala da iconografia da evolução ele está falando da marcha do progresso, que é uma coisa diferente da great chain of being.
      http://www.mun.ca/biology/scarr/Wonderful_Life.htm
      http://en.wikipedia.org/wiki/March_of_Progress
      Dá uma verificada nisso, para não sair com erro.
      No mais, obrigado pelo comentário.
      Abraço,

      • Ah, sim, Geraldo, você tem toda razão. Lapso meu, em meio à revolta! Muito bem colocado. Mas em todo caso, você não vê também uma grande relação entre a iconografia e a grande cadeia do ser?

  3. Aliás… “Nematelmintos” já despencou há tempos, heim…? Só faltou perguntarem sobre asquelmintos e celenterados. Seria a cereja (estragada) de um bolo pútrido. Desculpem pela indelicadeza, mas esse é um desabafo de anos…

    • E, além disso, na questão das briófitas/anfíbios, há “reino vegetal” no lugar de “Reino Plantae” (reino, enquanto categoria taxonômica, também tem que ser com R maiúsculo). Caso o elaborador quisesse escrever em português, ele poderia facilmente ter posto uma preposição, como em “reino dos vegetais”.

  4. É mesmo, Gerardo. Isso também me incomodou. Mas do jeito que estavam as coisas nessa prova, ainda (felizmente, mas por pouco!) escaparam de colocar um “das Plantae” ou algo pior, como já vi muitas vezes no ensino médio. Mas agora—olhe que coisa!—, como você muito apropriadamente pontuou no post original, os cursos pré-vestibulares (e, quiçá, os livros didáticos) passarão a reforçar esse linguajar. Afinal, “caiu na FUVEST 2014″…

  5. Gerardo, meu amigo. Obrigado pela ajuda, anos atrás, no meu aprendizado em Sistemática Filogenética. Foi com você com quem tive as primeiras noções sobre o assunto. Essa semana foi difícil tentar “convencer” alguns colegas de trabalho que é um equívoco anunciar: “Angiospermas são mais evoluídas que Gimnospermas”. Ou que “Briófitas sofreram involução”. Ou ainda: “que as Gimnospermas evoluíram das Pteridófitas”. No momento fiquei bastante chateado. Horas depois, mais tranquilo, pensei que o mais importante é fazer com que os alunos aprendam o correto. E isso tem acontecido. Mais uma vez, muito obrigado!!! Um grande abraço.

    • E aí, Paulinho! Muito bom te ver por aqui…
      Ensinar sistemática filogenética no ensino médio é nadar contra a maré: boa parte dos professores, especificamente os da velha guarda, não compreendem ou não querem compreender a filogenética. Esses professores normalmente são os mais famosos, os mais solicitados e os que fazem mais sucesso nos cursinhos. E quando os vestibulares, que em sua maioria ainda têm uma abordagem absurdamente ultrapassada, cobram que mamíferos são mais evoluídos que peixes ou que cnidários vieram de poríferos, eles acabam corroborando e privilegiando exatamente esses professores, com suas abordagens do século XVIII. É pra ficar chateado mesmo…
      A nós, sobra a tranquilidade de estar ensinando a abordagem correta e atual.
      Grande abraço,

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