Acaso ou adaptação? Sobre as moscas com formigas nas asas

cb2Faz tempo que não uso o selo ao lado. Trata-se de uma brincadeira que fiz na época em que o selo Research Blogging, aquele verdinho, foi lançado, e tem por objetivo lembrar uma coisa fundamental: isto aqui é um blog, e boa parte do que escrevo é conjectura, suposição, opinião. É claro que muito do que escrevo é divulgação científica, acerca de teorias e fatos devidamente comprovados e aceitos pela comunidade científica. Porém, eu me dou ao direito de escrever minhas suposições e opiniões, pois, convém repetir, isto aqui é um blog. Agradeço imensamente meus seguidores e eventuais leitores, mas é importante lembrar isso vez ou outra porque o que escrevo aqui, mesmo quando é algo solidamente comprovado, não pode ser citado como fonte, ou seja, não tem a validade de um livro ou muito menos a de um periódico revisto por pares.

Escrevo esta nota liliputiana, portanto, para dar minha opinião a respeito de um sub-meme (acabei de inventar esse termo) que tem feito algumas aparições nos sites de notícias e nas redes sociais. Como tudo o que se refere a memes e à viralidade na internet, se você ler este post hoje (olhe a data da publicação lá em cima, abaixo do título) você vai saber do que se trata. Se você ler amanhã, há boas chances de você saber. Se você ler semana que vem, talvez você lembre vagamente do assunto. Porém, se você ler daqui a duas semanas, são grandes as chances de que você não faça a menor ideia de que história é essa de uma mosca que tem em suas asas o desenho de uma formiga.

Tudo começou quando uma usuária do Twitter chamada Zyia Tong publicou a foto de uma Goniurellia tridens, uma mosquinha da família Tephritidae. A foto foi republicada pelo New York Times e, daí, para diversos sites de notícias e blogs. Quase todos eles repetindo a mesma coisa: que a mosquinha tinha, em suas asas, o desenho de uma formiga, que surgiu evolutivamente como uma forma de espantar seus predadores. Eis o Tweet original:

Muito bem, é perfeitamente possível que animais ou mesmo plantas desenvolvam, ao longo da evolução, padrões que enganem ou afugentem seus predadores. Isso é uma coisa tão bem documentada na biologia que não há necessidade alguma de eu repetir isso aqui. O que me incomodou nessa história da mosquinha com asas mirmecosímiles (outro termo que acabei de inventar!) foi outra coisa: como é que os redatores sabem que isso é um padrão surgido evolutivamente com a finalidade de espantar um predador?

Veja bem, eu não estou dizendo que as manchas nas asas da mosca G. tridens não sejam um padrão fixado através de seleção natural (ou seja, uma adaptação), é admissível que assim seja, não há nada de impossível aqui. O que eu estou defendendo é que, antes de afirmarmos que se trata de uma adaptação, temos que levar em conta que as manchas nas asas dessa mosquinha podem muito bem serem devidas ao acaso, não havendo padrão algum mantido e aprimorado pela seleção. Essa é a opinião de alguns entomologistas, como pode ser visto neste post (do qual retirarei algumas imagens). Aliás, o primeiro parágrafo desse post resume quase que perfeitamente minha impressão sobre esse assunto:

 There’s a pretty remarkable fly photograph making the rounds of social media today, and while it originally had me going “Oooooh!”, the more I think about it, the more I feel like we’re staring at clouds.

Em primeiro lugar, devo confessar que eu não vi formigas nas asas dessa mosquinha: vi aranhas saltadoras. Mas isso pouca importância tem, porque o que eu quero defender aqui é outra coisa: eu, humano, vi uma formiga (ou uma aranha, ou seja o que for) nas asas desta mosquinha, mas isso pode ser apenas uma pareidolia. Pareidolias acontecem o tempo todo: vemos rostos e bichos nas nuvens, nas folhagens, no padrão do piso do banheiro ou na textura abstrata de uma toalha de mesa.

A natureza é pródiga nos mais malucos e inacreditáveis exemplos de mimetismo e camuflagem, e não é de se espantar que muita gente tenha visto a imagem das formigas/aranhas nas asas da mosquinha e tenha imediatamente feito a associação com uma adaptação, chegando imediatamente à conclusão de que essas formigas/aranhas são desenhos que tem por função espantar um possível predador. Contudo, convém irmos com calma. Como é que se sabe que isso é de fato o desenho de uma formiga/aranha, que foi fixado por seleção propositadamente para se parecer com uma formiga/aranha?

Em primeiro lugar, a posição das asas da mosquinha no tweet original não é a posição normal das asas nesse inseto: as asas se encontram comumente uma sobre a outra, ao longo do dorso do animal. Nessa posição, os desenhos das formigas/aranhas se sobrepõem e pouco ou nada lembram uma formiga ou uma aranha, invalidando a hipótese de que o desenho, de alguma forma, espanta os predadores.

Além disso, esses desenhos em padrão estrelado são bastante comuns entre as moscas da família Tephritidae. Eis um exemplo:

wing_trupanea-actinobola

Trupanea actinobola

E outro:

wing_euarestoides-abstersus

Euarestoides abstersus

E ainda outro:

wing_rhagoletis-cornivora

Rhagoletis cornivora

Nesse momento, você poderia argumentar: “mas esses outros desenhos, de formas intermediárias, podem exatamente comprovar como foi possível, através de inúmeros passos evolutivos, chegarmos a um desenho de uma formiga”. Sim, de fato, essa diversidade de padrões pode falar em favor da hipótese da adaptação. Mas essa diversidade de padrões pode muito bem ser usada para advogar a favor da hipótese oposta: que esse suposto desenho de uma formiga/aranha é apenas um entre vários padrões que ocorrem na família Tephritidae, e calhou de, para a espécie humana (que não tem nada a ver com a história evolutiva deles…) ser um padrão que lembra vagamente uma formiga, ou uma aranha, enfim.

Mesmo que esse desenho nas asas da mosquinha seja uma adaptação, cabe aqui várias perguntas: que tipo de adaptação é esse padrão, um desenho que espanta um predador ou um display sexual? Sim, porque essas mosquinhas usam o padrão de coloração das asas para atrair parceiros sexuais de maneira tão específica que dificilmente uma espécie acasala com outra, sendo discernidas pelo padrão de suas asas. Além disso, que tipo de predador é esse que se assusta com a imagem de uma formiga? Como responder essas e outras questões?

A ciência responde essas e outras questões através de hipóteses bem elaboradas e testes, experiências, medições, feitas tanto no ambiente natural como em laboratório. “Mas espere um pouco, existem experiências em biologia evolutiva? A biologia evolutiva não é uma ciência exclusivamente teórica?” Claro que não! Não só é possível como são bem comuns experiências em biologia evolutiva.

Por fim, quero deixar bem claro: eu não estou dizendo que o padrão de formigas/aranhas nas asas da mosca G. tridens não seja uma adaptação; é bem possível que seja. O que estou defendendo é que, antes de afirmarmos categoricamente que é uma adaptação, verifiquemos a possibilidade bem mais provável de ser uma coloração casual, que coincidentemente lembra (vagamente) uma formiga ou uma aranha. E que, mesmo que de fato seja uma adaptação, determinemos adequadamente que tipo de adaptação se trata: é um display sexual? Um padrão para espantar predadores? Uma adaptação de outra natureza? Essas são questões que, como frisei, podem ser respondidas por hipóteses bem elaboradas e experimentos bem conduzidos.

4 comentários sobre “Acaso ou adaptação? Sobre as moscas com formigas nas asas

  1. A sua inquietação com a divulgação da notícia, à princípio, é a mesma que a minha…de que o padrão nas asas “teria surgido evolutivamente com a finalidade de espantar um predador”.

    Sobre a questão do “acaso” ou “adaptação”, vejo um problema que talvez deva ser levado em consideração. O padrão de desenhos nas asas dessa espécie, bem como de várias outras da mesma família, tende a variar bastante. Alguns podem até realmente parecer uma formiga ou aranha (em um artigo, eu vi um que citava a semelhança com uma mariposa!).

    No caso, dessa espécie que está sendo comentada, talvez seja mesmo só um padrão gerado ao acaso mas que não tem se manifestado em outros indivíduos dessa população…se isso acontecesse, aí sim poderíamos falar em adaptação junto a um display defensivo.

    Esse display defensivo já foi registrado em outras espécies de tefritideos e testados com aranhas da família Salticidae.

    Você falou sobre a posição das asas. Realmente, na posição de repouso os desenhos não fazem o menor sentido. Mas, pelo menos em uma espécie no artigo que li (Greene et al., 1987; refência no final do comentário) as moscas conseguiam um maior sucesso em sobreviver a um encontro com uma salticídea, quando posicionavam as asas (com um desenho que “lembra” uma aranha) para frente e as balançavam enquanto se mexiam de forma semelhante a essas aranhas.

    Quanto a um possível display sexual, também acho uma ideia bastante provável! Mas, como você termina o post (de forma excelente), também acho que antes de afirmamos que trata-se de “um padrão que evoluiu” pra isso ou aquilo, precisamos testar as possíveis hipóteses de forma adequada para podermos tirar conclusões mais concretas.

    Abraço!

    PS1: Cadê o selo que você comenta no início do post?

    PS2: Gostei do “mirmicossímiles”…mas o correto não seria “mirmecossímiles”?

    Referência:
    Erick Greene, Larry J. Orsak, Douglas W. Whitman. 1987. A Tephritid Fly Mimics the Territorial Displays of its Jumping Spider Predators. Science, New Series, 236 (4799): 310-312.

  2. Excelente. Quando uma colega minha me enviou a imagem, empolgadíssima, dizendo isso e aquilo, fiquei com um pé atrás. Sabe que, mesmo após me deter alguns minutos na frente do exemplar de “Goniurella tridens” (o raio disso é que não dá pra por em itálico…), não vi formiga alguma, e mesmo que visse, não imaginaria que isso fosse uma adaptação (a não ser como hipótese bem inicial, ainda pouco fundamentada).

    Quando eu trabalhava com besouros erotilídeos, frequentemente encontrava padrões nas manchas, e de repente alguém apontava, dizendo: “olhe esse élitro! Lembra vários olhos em uma moita! Isso prova a evolução!”, algo que apenas era sustentado com base na empolgação. Naquele caso, especificamente, havia uma pressão de seleção para o aposimatismo (os besouros eram pouco palatáveis, e a imagem típica de manchas poderia advertir um potencial predador).

    Antes de encerrar, exploro apenas um detalhe que julgo importante: eu não investiria na hipótese de que esses padrões nas asas dos tefritídeos têm uma graduação até a mirmecossimilaridade em G. tridens. Aliás, incorreríamos rapidamente no perigo de nos aproximar dos transformismos, da grande cadeia do ser ou da iconografia canônica da evolução. Na melhor das possibilidades, estaríamos vetando a priori o equilíbrio pontuado e indo contra a emergência da Síntese Estendida.

    Grande abraço, e obrigado pelo ótimo (e oportuno) post!

  3. É importante ressaltar, em favor ao possível display defensivo, que foram registrados casos em que a G. tridens usava suas asas fazendo movimentos para intimidar um possível predador, apesar de as formas em suas asas terem sido fruto exclusivo da adaptação e da seleção natural totalmente casual, que ao decorrer da sua espécie sobreviver em maior numero em detrimentos das demais justamente devido às formas das suas asas que gradualmente alcançaram tal esplendido formato. Essa espécie pode ter tomado “conhecimento”, à seu nível de consciência é claro, de que podia afugentar alguns predadores e passou essa característica hereditariamente. O que se tornou instintivo nas gerações posteriores. Afinal não é assim que funciona a biologia evolutiva? Os mais diversos e complexos mecanismos de defesa da pluralidade dos seres vivos se dá fundamentalmente instintivamente, não lhes é (ensinado em vida) a se defender. Considerem isso. Abraço.

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