O Facebook, o Google+ e as Estratégias Evolutivamente Estáveis

Eu acompanho há um bom tempo as aventuras do Comandante Chris Hadfield. Comecei vendo seus vídeos no Youtube, em seguida segui-o no Tumblr e no Facebook. Concordo com o que li em uma matéria num jornal: o Comandante Hadfield foi o astronauta que fez as pessoas comuns voltarem a se interessar e a se encantar com o espaço. Até que, um belo dia, loguei no Google+ para eu e minha mulher acompanharmos um hangout que o Comandante e os outros dois astronautas da ISS fariam, diretamente do espaço.

iss_hangout

Imagem do hangout com o Comandante Hadfield e os demais membros da ISS, no Google+

Eu já tinha uma conta no Google+, mas praticamente nunca a usei. Qual não foi minha surpresa quando participei desse hangout. O vídeo da ISS em tempo real, o vídeo dos participantes (que faziam perguntas) em tempo real, diversas conversas ao mesmo tempo, textos, perguntas enviadas pelo Twitter… Numa palavra: o serviço, ou melhor, a rede social, é impressionante. A qualidade, a velocidade, a integração com os outros serviços da Google, as chamadas de vídeo, tudo é de uma qualidade tão superior à do Facebook que nos perguntamos: por que todos estão no Facebook, um dos serviços mais acessados do planeta, enquanto o Google+ é quase uma cidade fantasma, onde tumbleweeds rolam impulsionados pelo vento nas ruas arenosas?. A resposta é bastante simples e bem conhecida: para que uma rede social funcione é necessária uma certa “massa crítica”, um certo número de participantes e, como estão todos no Facebook, o Google+ não tem condições de (por enquanto) fazer sucesso. Bem, e o que isso tem a ver com a biologia evolutiva? Muita coisa, como pretendo demonstrar a seguir.

O fato de o Facebook continuar a fazer sucesso e o Google+ não decolar, apesar de ser um serviço bastante superior, tem a ver com o que chamamos em biologia evolutiva de Estratégia Evolutivamente Estável (Evolutionary Stable Strategy, ESS), um conceito inicialmente desenvolvido por John Maynard Smith. De maneira bem simplificada, uma estratégia evolutivamente estável é uma estratégia que, quando adotada pelos membros de uma população, impede ou torna praticamente impossível que estratégias alternativas, inicialmente raras, cresçam e se estabeleçam. E isso se dá independentemente do fato de as estratégias alternativas serem melhores ou mais eficientes: elas não conseguem se estabelecer simplesmente porque a maioria da população, executando uma estratégia evolutivamente estável, impede que a estratégia alternativa se torne mais frequente.

Vamos fazer uma analogia não-biológica, para começar. Os automóveis podem trafegar pela esquerda ou pela direita numa via de mão dupla. Não interessa qual dos dois, a escolha tem que ser feita. Vamos supor, para nossa explicação, que não há vantagens em trafegar pela esquerda ou pela direita – na verdade há razões práticas para escolher um ou outro sistema, e é bem interessante a discussão de por que em Roma ou na Grécia antiga se trafegava pela esquerda, que era o sistema original, enquanto na Europa napoleônica e no recém-nascido Estados Unidos o sistema foi alterado para a direita; contudo, essa discussão não nos interessará agora. Bem, uma vez que um ou outro sistema deve ser adotado, e se ambos são equivalentes, o que interessa não é o sistema em si, e sim o fato de que todos os participantes estejam em uníssono. Tomemos por exemplo o Brasil, onde se dirige pela direita. Todos aprendem a dirigir pela direita, e assim fazendo o trânsito flui adequadamente. Vamos então supor que um ou outro cidadão se rebela, se insurge, e decide dirigir pela esquerda. Em pouco tempo ele vai morrer numa colisão frontal (e infelizmente vai matar um cidadão que dirigia corretamente pela direita) e vai levar para a cova seus genes dirija-pela-esquerda.

Agora, suponhamos que, após o estabelecimento do sentido de circulação pela direita no Brasil, perceba-se que trafegar pela esquerda é melhor, ou seja, trafegar pela esquerda traz uma vantagem, seja ela qual for. Isso não vai mudar nada. Os indivíduos mutantes, que trafegam pela esquerda, mesmo que tenham vantagens evolutivas em relação àqueles que trafegam pela direita, não vão conseguir se estabelecer e aumentar seu número, por uma razão elementarmente simples: os que trafegam pela direita são maioria. Tão logo surja na população um mutante que trafegue pela esquerda ele vai, em pouco tempo, se esborrachar em uma colisão frontal, o que vai eliminar seus genes dirija-pela-esquerda. Falando agora em termos práticos, reais, uma vez que se estabeleceu no Brasil o sentido de circulação pela direita, isso não vai mudar. “Ah, isso pode mudar aos poucos”, alguém diria. Não, não pode. O brasileiro pode, aos poucos, ficar mais educado. O brasileiro pode, aos poucos, ficar menos desonesto, e isso é algo que devemos tentar fazer. O Brasil pode, aos poucos, reduzir suas desigualdades sociais. Porém, o Brasil não pode, aos poucos, mudar para a mão inglesa. Isso é algo que só pode acontecer se todo mundo mudar ao mesmo tempo!

O conceito de ESS é fundamental em biologia, mas ainda assim é algo que costumamos esquecer. É bem comum que, falando de evolução, alguém pergunte “por que é que essa população faz Y e não X, se X é bem mais vantajoso que Y?” A primeira coisa que a gente deve levar em conta é que não é apenas porque X é mais vantajoso que Y que X deve surgir geneticamente, muito menos ser fixado. E, em segundo lugar, deve-se fazer a pergunta em relação a ESS: será que Y, apesar de pior, é uma ESS tal que impede o surgimento e o estabelecimento de X, mesmo X sendo bem melhor? Convém lembrar que todo mutante, toda novidade, no momento que surge é raro, ou seja, é a minoria na população. E eliminar uma minoria é bastante fácil.

Nem todas as características de um sistema biológico formam ESSs e, assim sendo é comum em biologia que mutantes surjam numa população, tornem-se cada vez mais frequentes e, com o tempo, destronem as variantes originais. Mas, onde há ESSs, isso é praticamente impossível (numa população grande e bem estabelecida).

Assim, o próprio fato de a imensa maioria da população passar (ou perder?) seu tempo no Facebook impede que o Google+ prospere, pelo simples fato do Facebook ser maioria. Contudo, para finalizar essa breve nota, quero dizer que – felizmente – há esperanças para o Google+, por uma razão simples: a comparação com uma Estratégia Evolutivamente Estável é interessante mas não é perfeita. Ao contrário do sistema de circulação de automóveis, onde você deve trafegar só pela esquerda ou só pela direita, nada impede que você tenha uma conta no Facebook e no Google+. Você pode ter as duas! Navegando aqui, navegando ali, passando um tempinho aqui, passando um tempinho ali, as pessoas vão passando cada vez mais tempo naquela plataforma que as interessa e, com o tempo, é possível sim que uma delas engula os usuários da outra. Isso, aliás, já aconteceu.

5 comentários sobre “O Facebook, o Google+ e as Estratégias Evolutivamente Estáveis

  1. Muito interessante seu artigo. Fui conferir o Google + e realmente, melhor que o Face. Para ser sincero não fazia ideia do que de fato é o Google+. Seu artigo me deixou feliz por dois motivos: o primeiro, por saber que meus genes, são espertos ou mais espertos🙂; segundo, por me possibilitar conhecer uma nova e bem interessante ferramenta. Agradeço pelo artigo, pois sem dúvida, aprendi mais um pouco. Obrigado. Abraços.

  2. De fato, muito interessante! Mas acho necessário um maior esclarecimento sobre as estratégias evolutivamente estáveis—especialmente porque nelas não conta apenas a proporção de jogadores, mas também o saldo líquido nas interações.

    Uma EEE (ou ESS, em inglês, muito bem citado no artigo), até onde entendo, favorece um equilíbrio, uma proporção entre duas estratégias diferentes (que, de fato, pode até ser 1:0, caso em que todos teríamos uma EEE pura, como as que foram citadas no texto). Toda EEE é também um equilíbrio de Nash (ou seja: uma vez adotada a melhor estratégia, não haverá ganhos se os jogadores mudarem para uma uma estratégia alternativa), mas não só: ela também é uma estratégia insuperável mesmo que apenas um dos jogadores mude de estratégia; em outras palavras, as EEE não podem ser invadidas (conforme expressado no post inicial).

    Para termos uma EEE, então, devemos encontrar pelo menos um dos princípios de Maynard Smith e Price (de 1982, se eu não estiver enganado):
    i. L(X,X) > L(Y,X);
    ii. L(X,X) = L(Y,X), L(Y,Y) < L(X,Y),
    onde "E(X,X)" é o lucro da estratégia de um jogador X quando interage com a estratégia X de outro jogador.

    No final do tópico foi mencionado que a comparação das EEE com a disputa Google+/Facebook não é perfeita, e estou inclinado a aceitá-la, especialmente com a dica final do autor sobre o "uso combinado dos dois". Primeiro porque a estratégia "apenas Facebook" não parece ser uma EEE (se considerarmos os dados trazidos ao longo do post original, pois quem adota o Google+ pode ter algumas vantagens, violando a premissa i). Por outro lado, a "apenas Google+" também parece não ser uma EEE, porque as pessoas perderiam muitos contatos, já que normalmente têm muitos no Facebook. Assim sendo, seria a EEE para esse caso uma estratégia mista, do tipo "use o Facebook f do tempo e o Google+, 1-f do tempo" (para 0<f<1)? Vejamos dois casos (dentre os inúmeros possíveis!).

    ——————————CASO 1: Redes Sociais para Amizade————
    Vamos supor que os ganhos envolvidos sejam do tipo c (contatos) e do tipo t (recursos "high-tech"), e que os contatos e a tecnologia tenham valor unitário. Consideremos que L(FF) renda 3c+t (já que, segundo um site que pesquisei, o número de usuários do Facebook é quase o triplo dos do Google+, e supondo o Facebook tenha um nível t de tecnologia). Para L(FG), que o ganho seja de t (apenas os recursos tecnológicos do Facebook), para L(GF), que o ganho seja de 2t (supondo que a tecnologia do Google+ seja duas vezes superior à do Facebook) e que em L(GG) tenha-se c+2t.

    Lembre-se que chamamos de f a proporção do tempo investido no uso do Facebook (e, assim, o tempo no Google+ será de 1-f).

    Um usuário do Google+ teria um ganho médio igual a L(GG)*(1-f)+L(GF)*f = (c+2t)*(1-f)+2t*f = 3-3f+2f = 3-f.
    Um usuário do Facebook teria um ganho médio igual a L(FG)*(1-f)+L(FF)*f = (t)*(1-f)+(3c+t)*f = 1-f+4f = 1-3f.

    Porém, nesse caso temos duas EEE puras: é exatamente o explicado no post acima. Aquele que estiver em maioria, vence, porque é sempre muito mais lucrativo interagir com um igual do que com um diferente. Isso quer dizer que uma pessoa que use apenas o Google+ estaria em desvantagem e tenderia a sumir da população!. Entretanto, como o número de usuários dessa plataforma têm aumentado, não parece ser o caso.
    ——————————————————————————————

    ——————————CASO 2: Redes Sociais para Competição——–
    Imaginemos agora outro cenário simples, onde as redes sociais sejam usadas primariamente para o trabalho, e que os indivíduos disputem, com isso, espaços no mercado de trabalho.
    Os ganhos envolvidos são representados por n (negócios), mas ainda os competidores contam com seus contatos (c) e com a tecnologia (t) disponíveis. Digamos, nesse cenário, que c valha 3, t valha 2 e n valha 6. Consideremos que L(FF) traga benefícios em metade das interações (já que, em média, um usuário do Facebook estaria em pé de igualdade com outro). Para L(FG), que o ganho seja n*c/t (a vantagem do Facebook é o maior número de contatos), para L(GF), que o ganho seja de n*t/c (supondo que a tecnologia do Google+ traga vantagens, mas essas serão contrabala nceadas pelo menos nº de contatos da plataforma) e que em L(GG) tenha-se n/2 (metade das vezes um usuário do Google+ levará vantagem sobre um igual).

    Lembre-se que chamamos de f a proporção do tempo investido no uso do Facebook (e, assim, o tempo no Google+ será de 1-f).

    Um usuário do Google+ teria um ganho médio igual a L(GG)*(1-f)+L(GF)*f = (n/2)*(1-f)+(nt/c)*f = 3-3f+4f = 3+f.
    Um usuário do Facebook teria um ganho médio igual a L(FG)*(1-f)+L(FF)*f = (nc/t)*(1-f)+(n/2)*f = 9-9f+3f = 9-6f.

    Em uma EEE, o ganho médio entre os dois tipos de usuário seria igual (ou então teríamos uma EEE pura, que já vimos alguns parágrafos acima que pode não ser o caso). Assim,
    3+f = 9-6f → f = 6/7.

    Isso quer dizer que uma pessoa que use apenas o Facebook estaria em desvantagem (e tenderia a sumir da população!), assim como uma que só usasse o Google+. Com os ganhos apresentados (na verdade, o valor do negócio n pode ser qualquer um maior que 0), na verdade, a EEE é usar o Google+ durante 14,3% do tempo e o Facebook durante 85,7% do tempo—e isso contraria o colocado no primeiro trecho do post acima. Neste segundo caso, se apenas um indivíduo passasse a usar o Google+ em um milhão de internautas, ele tenderia a se alastrar pela população, até que as pessoas atingissem o equilíbrio (14,3% do tempo usando o Google+).
    ——————————————————————————————

    Como pudemos ver, nem sempre a maioria esmaga a oposição detentora de uma adaptação positiva.

    Um forte abraço, e obrigado por ter aberto o tópico!

  3. Pingback: O Facebook, o Google+ e as Estratégias Evolutivamente Estáveis | Biologia na Web

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