Como conversar com ETs

Este não é um protocolo detalhado de como se comunicar com seres de outros planetas, muito menos um guia ilustrado passo a passo de como fazê-lo. Antes disso, é uma proposta de estudo e uma defesa de uma das mais recentes áreas da biologia, a etologia cognitiva.

O número de exoplanetas, descobertos nas últimas décadas, já está na casa dos milhares. O telescópio espacial Kepler, que infelizmente apresentou algumas avarias que poderão determinar o fim prematuro da missão, descobriu, sozinho, mais de 130 exoplanetas e 3000 assinaturas de potenciais exoplanetas, e isso examinando apenas uma porção minúscula da galáxia. Extrapolando seus dados, os astrônomos estimam que haja 17 bilhões de planetas do tamanho da Terra, apenas na Via Láctea. Contando com as exoluas, que também são candidatas a abrigar seres vivos (vide o caso de Europa, no nosso próprio sistema estelar), o número de corpos celestes em que a vida pode ter surgido deve ser gigantescamente maior. Com essa enormidade de planetas telúricos e exoluas (mais uma vez, considerando apenas a Via Láctea), muitos deles orbitando naquilo que denominamos de zona habitável, quase não resta mais dúvidas de que há vida em outros sistemas estelares. Descobri-la será, provavelmente, apenas questão de tempo.

Tabela com exoplanetas confirmados até 2012. O número atual já é bem maior... (fonte: The Planetary Habitability Laboratory, University of Puerto Rico, Arecibo)

Tabela com exoplanetas confirmados até 2012. O número atual já é bem maior… (fonte: The Planetary Habitability Laboratory, University of Puerto Rico, Arecibo)

Mas o que um biólogo entende por vida não é aquilo que o público comum entende por vida. Para começar, vida é algo que vulgarmente associamos a animais, mas não a plantas, fungos ou bactérias. A própria etimologia nos mostra isso: ζωή (zóé), “vida” em grego, originou ζῴον (zóion), animal. Como teórico da evolução, posso imaginar milhares de diferentes ecossistemas em diferentes exoplanetas, e em nenhum deles organismos correndo ou se movendo como os animais da Terra. Apesar disso, quando o público comum pensa em vida em outros planetas, ele não só normalmente pensa em “animais em outros planetas” como, quase que invariavelmente, em “animais inteligentes em outros planetas”. Desnecessário dizer que “animais”, “fungos”, “plantas” etc são grupos taxonômicos existentes apenas nesse planeta, o Planeta Terra. Caso haja vida em outro planeta, ela terá sua própria história filogenética, sua própria árvore evolutiva e seus próprios grupos taxonômicos (supondo que a hereditariedade e a evolução aconteçam como acontece na Terra, o que não é uma obrigação), que deverão ter nomes particulares e específicos.

Portanto, falar sobre vida em outros planetas em uma faculdade, numa mesa de bar ou num programa de televisão nos leva quase sempre a falar sobre vida inteligente em outros planetas. Apesar de esse não ser meu interesse quando procuro ler sobre exobiologia, devo confessar que, como qualquer pessoa normal, já pensei um pouco acerca desse assunto, e não considero algo impossível. Mas é óbvio que estamos falando de algo que não fazemos a menor ideia de como possa ser. Vida e inteligência são conceitos muito amplos, e talvez fosse melhor falarmos aqui de formas de vida conscientes. Quero deixar claro que, quando falo de vida inteligente (ou vida consciente) em outros planetas ou satélites de planetas, não estou imaginando uma criatura humanoide, com olhos desproporcionais num cabeção de melancia, falando numa voz metálica e arrastada “leve-me a seu líder”. Isso é uma projeção psicológica tão boba e elementar que não vale nem a pena discuti-la, e não a discutirei.

Ainda que a descoberta e o contato com formas de vida inteligentes (ou conscientes) de outros planetas ou satélites seja algo remoto, ou mesmo remotíssimo, é algo para o qual deveremos estar preparados. Por exemplo, os computadores quânticos ainda não existem, mas a computação quântica já começou. Eu mesmo tive a chance, certa vez, de conversar com uma garota que desenvolvia algoritmos para futuros computadores quânticos, onde os bits podem assumir valores intermediários entre 0 e 1. E, mesmo que nunca venhamos a nos deparar com formas de vida inteligentes extraterrestres, o próprio processo de nos prepararmos para tal contato trará uma série de novas descobertas e promoverá um grande desenvolvimento científico.

Devemos ir por etapas. Na verdade, ninguém é mais metódico, nesse sentido, que as agências espaciais. Eles planejam tudo etapa por etapa… O projeto Mercury tinha os objetivos mais básicos: colocar um homem no espaço, em voo suborbital primeiramente, e após isso em um voo orbital. Em seguida, o projeto Gemini tinha por objetivo realizar voos orbitais mais longos, testar a permanência no espaço por dias, fazer spacewalks e manobras de acoplagens. Por fim, o projeto Apollo se propunha a testar o módulo lunar, pôr um homem em órbita na lua e, por último, pousar um homem na lua. Tudo feito etapa por etapa, passo a passo. Na verdade, o programa de astrobiologia da NASA e da ESA também é feito assim, com etapas a serem seguidas, e a primeira delas é “compreender como a vida surgiu na Terra”.

Treino, simulação, mais treino, mais simulação… Essa é a grande lição dos programas espaciais, para que as missões deem certo. Por isso, me parece bastante claro que, antes que tenhamos contato com qualquer forma de vida inteligente extraterrestre, temos que simular e treinar esse contato, e isso deve ser feito aqui na Terra. Mas como, e com quem?

A primeira resposta seria “com outros seres humanos, cujas línguas não conhecemos”. Mas essa abordagem possui uma falha grave, e para demonstrá-la não preciso nem recorrer à explicação da diferença entre língua e linguagem. A coisa é bem simples: seres humanos são todos da mesma espécie, e nossa gramática cerebral é a mesma, tendo surgido evolutivamente em algum momento entre 400 mil e 50 mil anos atrás. Todos os seres humanos compartilham a mesma estrutura gramatical neurológica básica, e é por isso que, após um período inicial de contato, qualquer grupo de falantes de línguas diferentes (Colombo e Cortez entre os nativos americanos do norte, Cabral e Vespúcio entre os nativos americanos do sul, Tasman entre os aborígenes australianos) estará, em bem pouco tempo, se entendendo. Se dois seres humanos falando línguas completamente diferentes, um português e um coreano, por exemplo, forem postos numa ilha deserta, eles se entenderão, e em pouco tempo estarão se comunicando de forma bem satisfatória. Lembremos-nos aqui de Menandro (ou Terêncio): “Nada do que é humano me é estranho”. A linguagem escrita, porém, por não ser uma estrutura homóloga, é bem mais complicada: se você achar um pequeno fragmento escrito em uma língua estranha, as chances são de que jamais irá decifrá-lo. Se não fosse a Pedra de Roseta, não saberíamos muito do que sabemos sobre os hieróglifos. No livro “Contato”, de Carl Sagan, que foi base para o filme homônimo, uma mensagem de origem extraterrestre acabou sendo decifrada, mas aqui temos algo bem diferente: na trama, a mensagem havia sido construída explícita e propositadamente para ser decifrada, o que tornaria o processo bem mais fácil.

Se não podemos usar seres humanos (ou melhor, línguas humanas incomuns) para treinarmos a comunicação com formas de vida inteligentes extraterrestres, usaremos o quê? A resposta a essa pergunta é precisamente o objetivo desse breve artigo.

Apenas neste planeta, a Terra, temos algo em torno de 15000 espécies de animais inteligentes e conscientes além da espécie humana. Estou me referindo aos mamíferos e a um grupo de répteis que denominamos aves. E, uma vez que ainda não sabemos se a consciência entre os mamíferos e as aves é uma homologia ou uma homoplasia, caso o primeiro cenário se mostre verdadeiro, o número de espécies conscientes seria bem maior, pois incluiríamos os demais répteis (formando o clado Amniota). Quinze mil espécies que mal compreendemos, com as quais (havendo pequenas exceções) mal sabemos interagir.

Até hoje não compreendemos a comunicação dos misticetos, como a baleia jubarte ou a baleia azul. Não compreendemos o canto de inúmeras aves, a vocalização dos elefantes, nem os sinais de gorilas, bonobos ou chimpanzés. Desconhecemos quase que completamente a comunicação entre animais bem mais inteligentes que cães, como os porcos, cuja maioria da população considera apenas como bacon ambulante, e nada mais do que isso.

Esse é um desafio real, um primeiro passo para o desafio maior que será a comunicação com formas de vida inteligentes extraterrestres. Decifrar os sinais que uma jubarte ou um golfinho emite, compreender como eles se comunicam e, eventualmente, sermos capazes de interagir com essas espécies em seus próprios termos, esse é um desafio excitante e complexo.

Já há uma ciência que se debruça sobre essas questões, um ramo da etologia bastante recente e ainda bem verde, a etologia cognitiva. Mas, apesar de recente, a etologia cognitiva já conquistou avanços notáveis. Já sabemos o que quer dizer um bocejo, o que significa o play bow em canídeos, ou o piscar dos olhos nos gatos. Ainda estamos engatinhando, mas o primeiro passo (de muitos) já foi dado, que é o estabelecimento da etologia cognitiva como uma ciência fecunda e metodologicamente estruturada.

Logicamente, “nos comunicarmos com outras espécies animais inteligentes” não significa “falarmos” com outras espécies. Isso é uma antropomorfização boba, a fala humana é um comportamento humano. Não é num doutor Dollitle que eu estou pensando, e sim num camarada que seja um cruzamento entre Konrad Lorenz, François Champollion e Umberto Eco… Ou seja, um cientista que compreenda semioticamente o repertório comportamental daquela espécie.

Em minha opinião, se os programas de astrobiologia das diferentes agências espaciais quiserem de fato se preparar para o encontro com formas de vida inteligentes extraterrestres, eles deveriam investir, aqui na Terra, em etologia cognitiva. Atrair jovens mentes brilhantes para essa área, estimular as pesquisas, criar programas governamentais e bolsas. Dinheiro não é a única coisa que importa, mas é condição sine qua non. E, apesar de a comunicação com outras espécies inteligentes/conscientes ser uma tarefa hercúlea e aparentemente impossível, ela é apenas o passo inicial. Isso porque todas essas outras espécies são aparentadas conosco, compartilhando uma série de homologias. Até os neurônios que possuímos são os mesmos! Quando encontrarmos seres extraterrestres inteligentes, e não faço a menor ideia de como eles seriam, aí sim, pela primeira vez, estaremos encontrando um ser inteligente que não faz parte de nossa árvore filogenética. Em outras palavras, quando encontrarmos vida extraterrestre, inteligente ou não, estaremos pela primeira vez encontrando um organismo que viola a primeira lei da sistemática filogenética, a saber: “Dados dois organismos, A e B, há um ancestral comum, compartilhado por ambos”.

Certa vez, uma baleia jubarte, chamada Humphrey, se perdeu na baía de San Francisco, e acabou entrando dezenas de quilômetros rio Sacramento acima. Desesperados nas tentativas frustradas de trazer a baleia de volta para o mar, os pesquisadores tiveram a ideia de atraí-la com sons previamente gravados de jubartes se alimentando, que foram emitidos por alto-falantes em um barco da marinha. Humphey imediatamente se aproximou do barco, que sem perda de tempo rumou para a baía de San Francisco, com a baleia seguindo-o. Ao chegar à água salgada, Humphrey ficou visivelmente excitado e alegre, para a felicidade de todos os que acompanharam o resgate.

O resgate deu certo, mas não sabemos o significado exato dos sons da gravação emitida pelo barco. No dia em que soubermos, estaremos um passo mais perto de nos comunicarmos adequadamente com um ser extraterrestre inteligente.

– Post scriptum 1: Há uma empresa canadense, denominada D-Wave (www.dwavesys.com) que alega ter construído o primeiro computador quântico. Há uma grande controvérsia se se trata de um computador quântico de fato ou se é apenas um computador digital comum (http://en.wikipedia.org/wiki/D-Wave_Systems#History_of_controversy)

– Post scriptum 2: A maioria das pessoas não sabe que a NASA é apenas uma agência governamental norte-americana, sujeita aos mandos e desmandos dos políticos que decidem o orçamento daquele país. E é triste vermos com o que os políticos gastam o dinheiro da população: a imagem abaixo, impressionante, nos mostra que todo o dinheiro gasto com a NASA nos seus 60 anos de funcionamento não chega ao que se gasta com as forças armadas em um único ano! Imagine as conquistas que não teríamos se apenas 10% do dinheiro gasto com os militares fosse dado à NASA!
NASA budget 2

6 comentários sobre “Como conversar com ETs

  1. Nossa, interessantíssimo! Nunca havia lido nada a respeito desse ponto de vista e adorei.
    Quanto à questão dos orçamentos, já me peguei pensando: “interessante, mas desperdício de dinheiro”. A gente esquece que os verdadeiros desperdícios (ou desperdícios maiores) são praticados em outros setores.

    Muito bom ^^

  2. Nossa! Acabei de cair nesse seu blog por acaso e estou adorando tudo que leio aqui! Parabens, muito instigante e concordo contigo, se ainda não podemos ter contato com seres de outros planetas é porque ainda não estamos preparados nem moral, nem tecnologicamente para isso. No atual estágio que a humanidade encontra-se se lhe fosse dada a oportunidade de achar um planeta com as mesmas condições climáticas da Terra e com habitantes similares a nós, certamente faríamos como os colonizadores do século XVI, exploraríamos, extrairíamos todas as possíveis riquezas e destruiríamos ou escravizaríamos tais supostos povos… O ser humano é tão pouco evoluído que faz isso tudo aqui mesmo na Terra, justamente com esses seres que você colocou aí no seu artigo, explorando-os das mais diversas formas, comendo-os, matando-os por qualquer motivo, e por não terem a mesma linguagem que nós eles acabam sem defesa… é triste… Já pensou o dia em que as pessoas souberem, por meio de pesquisas científicas, sobre a inteligência dos porcos ou das vacas? É, o que fazemos hoje será considerado canibalismo e será repudiado… Talvez só quando chegar essa época é que o ser humano comece, aí sim, a se preparar para a possível descoberta de outros mundos e seres vivos… Até lá…. estamos menos que engatinhando…

  3. Muito bom texto, Gerardo… agora, vc me deixou realmente curioso ao dizer que já sabemos o que significa um bocejo, o piscar de olho dos gatos… poderia me dizer o que significam? Já vi diversas explicações, mas não sei quais são confiáveis. Abraço \o

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s