Evoluções desastrosas (o único mundo que temos)

Costumamos definir uma sucessão ecológica como um processo que culmina, sempre e sem exceção, numa comunidade clímax complexa e estável, quase sempre representada por uma floresta. Bem, essa definição está errada, e o fato dela ser bastante comum não a torna nem um pouco mais correta. Em primeiro lugar, uma sucessão ecológica não reconstitui uma floresta, e sim o bioma originalmente presente: uma sucessão ecológica numa savana devastada reconstitui uma savana, uma sucessão ecológica num manguezal devastado reconstitui um manguezal, uma sucessão ecológica numa tundra devastada reconstitui uma tundra. Além disso, o mais importante: uma sucessão ecológica pode não culminar num clímax estável e, dependendo da situação, ela jamais culminará num clímax estável (as populações que se sucedem num cadáver são um bom exemplo disso). É ingenuidade crer que, qualquer que seja o ambiente devastado e qualquer que seja o tipo e grau de devastação, a sucessão ecológica reconstituirá o ecossistema previamente existente. Costumamos crer na força da natureza, e achar que “a natureza dá um jeito”.

Essa crença na capacidade da natureza de se recuperar de toda e qualquer perturbação é tão equivocada quanto é ubíqua. De fato, os ecossistemas são sistemas extremamente complexos, e com uma quantidade formidável de mecanismos de feedback e de equilíbrio dinâmico, capazes de lidar com uma enorme variedade de perturbações. Mas “uma enorme variedade de perturbações” não significa “toda e qualquer perturbação”. Certas perturbações são simplesmente drásticas e fortes demais para que o ecossistema se recupere.

A crença de que “a natureza dá um jeito”, “a natureza é sábia”, também é bastante presente na biologia evolutiva. Costumamos achar que, mesmo que uma linhagem se extingua, mesmo que um novo caminho evolutivo acabe dando errado, a vida como um todo sempre prosperará, a vida sempre “dará um jeito”. Contudo, até mesmo os profissionais da área costumam esquecer que a evolução não tem um propósito, a evolução não tem um objetivo, um fim a ser alcançado. Ela não é teleológica. Assim, não é absurdo supormos que uma dada linhagem, uma dada experiência da evolução ameace não apenas a si mesma, mas acabe por inviabilizar todas as outras linhagens e interromper o próprio processo evolutivo, aniquilando toda a vida no planeta. Aliás, dados os acontecimentos dos últimos 200 anos no planeta Terra, esse cenário não só não é absurdo, como é também relativamente provável.

O fundamental aqui é entendermos duas coisas: primeiramente, a aparente harmonia da natureza, tão adequadamente representada em uma cena de uma floresta ou um campo florido com uma música clássica ao fundo numa animação da Disney, é decorrente da constante luta entre os seus elementos. Bem distante da imagem idílica das florestas bucólicas dos desenhos animados, uma floresta real é o palco diário de lutas, guerras, infanticídios, envenenamentos, desmembramentos, fome e morte. Não há harmonia, o que há é equilíbrio: um equilíbrio dinâmico oriundo da luta entre elementos que competem entre si. Em segundo lugar, devemos ter em mente que o que é “melhor” para um dos elementos do sistema pode não ser o melhor para o sistema como um todo. Os ecossistemas não foram construídos propositadamente por um ser sobrenatural; ecossistemas são o resultado dos processos evolutivos individuais, mas interdependentes, dos elementos que os constituem. E nada impede que conflitos de interesses surjam, o que é bastante comum quando pensamos na seleção agindo em diferentes níveis organizacionais. Como a última sentença ficou bastante técnica, darei um exemplo que já usei aqui neste blog: se considerarmos o corpo humano como uma população de células e cada célula como um indivíduo na população, não é difícil perceber que o processo seletivo (onde quer que haja reprodução, hereditariedade e variedade, há seleção) privilegiará células que se reproduzam mais rápido que suas companheiras, mesmo que isso acabe levando a população (o corpo humano) ao aniquilamento. Nomeadamente, eu acabei de me referir a um câncer.

(entre inúmeras imagens que poderia usar, creio que poucas são mais icásticas que a dos albatrozes das ilhas Midway, a mais de 3200 km do continente mais próximo, entupidos de plástico, mostradas no vídeo acima. As imagens não foram manipuladas, são inacreditavelmente reais)

E, por isso, a analogia da espécie humana como um câncer é ao mesmo tempo poderosa e significativa do ponto de vista evolutivo. Não é impossível nem inimaginável que o ser humano leve a vida no planeta inteiro ao aniquilamento, ou, num cenário menos drástico (e por isso mesmo mais provável ainda), que leve à extinção a maior parte das espécies existentes, principalmente as espécies pluricelulares. O que temos aqui é um mamífero, mais especificamente um primata, que, devido a certas características etológicas (comportamentais) específicas, acabou inviabilizando a vida no planeta. As características em questão (a incapacidade de conter seu crescimento populacional, a altíssima ineficiência energética do modo de vida carnívoro, o respaldo religioso para o domínio e posse de todos os outros seres vivos) são óbvios e não preciso listá-los aqui. Curioso é perceber que somos um animal que, em nosso mundo mental interno, criamos a religião, que nos diz (ou seja, nós dizemos a nós mesmos) que há um outro mundo, imaginário, no qual habitaremos. E isso praticamente nos libera para que nós destruamos o mundo no qual estamos, a Terra, o único que existe.

Logicamente, o fim da vida na Terra não significa necessariamente o fim da vida. Podemos imaginar um processo metaevolutivo: a evolução em diferentes planetas, em diferentes sistemas estelares. A evolução nesse pequeno planeta Terra levou, ao acaso, à formação de um elemento, o ser humano, que acabou, tristemente, eliminando toda a vida no planeta (ou boa parte dela). Bem, foi uma experiência que deu errado: em outros planetas a evolução pode ter formado outros biomas, alguns mais bem sucedidos, alguns não.

Voltando ao planeta Terra, eu, particularmente, penso que não haverá solução. Mesmo sabendo que o ser humano é racional e que muitas pessoas lutam para buscar soluções e alternativas, creio que a maioria é estúpida o bastante para levar a Terra a um triste fim. Em outras palavras, ter um estilo de vida ecologicamente sustentável não é, nem de perto, uma estratégia evolutivamente estável (ESS, evolutionary stable strategy) nos dias de hoje. O capitalismo e a religião morrerão abraçados, após terem destruído a vida no planeta.

Mas, mais uma vez, eis uma situação na qual torço para estar errado. Pois, como diria Slartibartfast, eu prefiro ser feliz a ter razão.

4 comentários sobre “Evoluções desastrosas (o único mundo que temos)

  1. Amigo, parece-me um pouco desanimado. Anime-se! Pois apesar de a biologia ser UM universo não é O universo. A ordem e o caos, vida e morte emergem continuamente uma na outra. ao longo das eras extinções em massa arrasaram o planeta fosse por fenónemos na Terra, ou vindos do espaço. Pela primeira vez parece que a extinção em massa não será causado por bactérias mas por um outro ser vivo, neste caso um mamífero. A tal acontecer, o que advirá daí, será uma incógnita. Pessoalmente acredito que a questão não será a de salvar a Terra, mas antes de salvar o ambiente na Terra para que o homem possa sobreviver… pelo menos mais uns tempos.
    http://pt.wikipedia.org/wiki/Extin%C3%A7%C3%A3o_em_massa#Maiores_extin.C3.A7.C3.B5es_em_massa
    Felicidades

  2. ~`O capitalismo e a religião morrerão abraçados, após terem destruído a vida no planeta.`~ frase perfeita. Compartilho de sua visao acerca de nós humanos…

  3. comento com lugares-comuns:
    já diria um velho cientista que
    “Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana(..)”
    enquanto isso a gente tenta, experimenta e inventa
    e “quem viver, verá”.

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