Precisamos de nomes. Muitos nomes.

(parte 2 de uma postagem dividida em duas partes)

Vamos supor, então, que as modificações propostas pela sistemática filogenética sejam universal e irrestritamente aceitas. Vamos supor que todos os grupos merofiléticos (parafiléticos ou polifiléticos) sejam invalidados, e tenhamos apenas grupos monofiléticos. Neste cenário distante e, por certas razões que poderemos comentar em outra ocasião, impraticável, teremos uma vantagem inegável, nomeadamente o fato de que a classificação biológica refletiria da forma mais fiel possível a história evolutiva dos organismos, mas teremos também um problema gigantesco: precisaremos de nomes, muitos nomes.

Por quê? Em primeiro lugar, por uma razão que mesmo quem tem familiaridade com a sistemática filogenética costuma esquecer com certa frequência, e que devemos constantemente relembrar: a sistemática filogenética prescinde de categorias taxonômicas. Para uma melhor compreensão do que acabei de alegar, vamos distinguir categoria taxonômica de táxon. Quando, por exemplo, lemos Filo Mollusca, Ordem Primates ou Classe Anthozoa, temos a definição da categoria taxonômica, seguida pelo táxon. Assim, em Filo Mollusca, Filo é a categoria taxonômica, enquanto Mollusca é o táxon.

Acontece que essas categorias taxonômicas (Domínio, Reino, Filo, Classe, Ordem, Família, Gênero e Espécie) são elementos da sistemática lineana, clássica, e não existem (ou não precisam existir) na sistemática filogenética. Apenas o táxon existe. Quando, por exemplo, eu falo Tetrapoda, me referindo ao grupo (provavelmente) monofilético de todos os vertebrados de quatro patas, você poderia perguntar “mas Tetrapoda é o quê? Classe? Ordem? Subordem? Superfamília?”. Bem, Tetrapoda não é nada. Ou, para corrigir o erro matemático da frase anterior, não há nenhuma categoria taxonômica associada a Tetrapoda. Devemos apenas compreender que Tetrapoda é um clado, um grupo monofilético, contido em outros clados (como, por exemplo, Vertebrata) e contendo outros clados (como, por exemplo, Amniota).

Ainda usamos bastante as categorias taxonômicas, e os poucos livros-texto que as eliminaram costumam confundir os alunos, que usam as categorias taxonômicas como verdadeiras muletas (algo que te ajuda a começar a caminhar mas que, se você se mantiver apegado a elas, vai impedir seu progresso futuro). Até hoje, por exemplo, qualquer verbete sobre um organismo vivo na Wikipédia requer uma “taxocaixa”, ou seja, uma caixa (no canto superior direito da página) com as categorias taxonômicas daquele organismo, de Domínio a Espécie. Mas, imaginando um futuro onde esses resquícios da sistemática lineana sejam abolidos, podemos antecipar que a eliminação das categorias taxonômicas trará uma série de vantagens, mas com ela uma série de problemas e complicações. Uma delas é fácil de visualizar: O número de categorias, ou seja, de “camadas” taxonômicas é atualmente oito. Mas, se não existirem mais categorias taxonômicas, o número de “camadas” taxonômicas ou, para quem não conseguiu ainda visualizar, o número de “grupos dentro de grupos” é bem maior, tão grande quanto o número de nós (plural de nó) que separa um ramo terminal do LUCA (last universal common ancestor), e esse número pode ser facilmente maior que quarenta ou cinquenta camadas, talvez chegando mesmo às centenas. Imagine, por exemplo, você determinando a classificação taxonômica de um organismo qualquer, começando do clado mais abrangente (digamos, Domínio, apenas para a clareza do raciocínio) até o menos abrangente (espécie), mas tendo que preencher cem ou duzentos nomes de clados entre um e outro! Não é difícil perceber que a sistemática filogenética vai ter que criar uma quantidade gigantesca de nomes para todos os táxons que existem, considerando como táxons apenas os grupos monofiléticos.

Em segundo lugar, com tantos nomes assim sendo necessários, temos que admitir, contra nossa vontade, que um grupo taxonômico não é necessariamente um grupo fácil de visualizar, ou melhor falando, a apomorfia que caracteriza um determinado grupo taxonômico pode não ser óbvia, ou pode não possuir um nome popular ou sequer um nome facilmente associável. Tomemos, por exemplo, o caso do Domínio Eukarya, discutido na postagem anterior:

Cladograma dos principais "Domínios"

Cladograma dos principais “Domínios”.

Eukarya é um nome que continua válido, para um grupo que continua sendo monofilético. Archaea também é um nome que continua válido, para um grupo que também continua sendo monofilético. Mas perceba que há um táxon contendo Eukarya, Crenarchaeota, Thaumarchaeota, Aigarcheota e Korarchaeota. Que nome daremos a esse grupo?

Deixe-me trazer o problema para organismos mais próximos de nós, para que você perceba que criar nomes de táxons pode ser uma atividade contraintuitiva. Vejamos esse cladograma das plantas:

Cladograma generalizado das plantas;

Cladograma generalizado das plantas.

Excetuando os ramos terminais, temos aqui seis clados, e vamos tentar nomear todos eles. O clado mais abrangente, contendo todos os organismos, é bem famoso e chama-se Plantae. Vamos agora para o canto superior direito. O clado agrupando angiospermas e gimnospermas também é famoso, e chama-se Spermatophyta. O clado que vai dos licopódios (club mosses) até as angiospermas também já tem nome, e chama-se Trachaeophyta. Mas a coisa começa a ficar complicada: como denominar o clado que contém as samambaias, gimnospermas e angiospermas? Vou aqui inventar um nome, Megaphyllophyta (plantas que têm megáfilos), nem sei se esse nome existe ou se o clado já foi batizado. Mas que nome inventar para o clado que vai de musgos a angiospermas? E que nome inventar ao clado que vai de hepáticas a angiospermas? Perceba que a apomorfia que caracteriza o grupo pode ser algo microscópico ou, mesmo se macroscópico, uma estrutura só conhecida pelos estudiosos, sem nome popular. Teríamos que inventar nomes a partir do grego e do latim, e em seguida aglutinar esses nomes para formar palavras maiores ainda.

Vamos trazer a coisa mais para perto de nós ainda, focalizando os mamíferos. Observe o cladograma abaixo:

Cladograma dos mamíferos, baseado em análises moleculares.

Cladograma dos mamíferos, baseado em análises moleculares.

O cladograma estabelece a relação de parentesco entre diferentes grupos de mamíferos a partir de análises moleculares. Esse cladograma não é definitivo, e é bem diferente de um cladograma feito a partir de análises morfológicas. Ou seja, várias dessas relações podem não estar corretas. Mas, se esse cladograma está correto ou não isso pouco importa, o que eu quero mostrar aqui é a dificuldade que a sistemática filogenética terá em criar nomes.

Por exemplo, os peixes-boi são denominados Sirenia, e os elefantes Proboscidea. Até aqui, nenhuma novidade. Mas os elefantes e os peixes-boi formam um clado. E, aqui, cabe a pergunta: por Zeus, que nome dar ao conjunto Proboscidea + Sirenia? Alguém tem alguma sugestão? Carnivora e Perissodactyla, por exemplo, formam um clado. Que nome dar a esse clado, com leões, tigres, ursos e lobos, mas também com cavalos e zebras? E, uma vez que tenhamos dado um nome a esse clado, o trabalho não para: o clado recém-nomeado, quando unido a Cetartiodactyla (que, por sua vez, é uma união entre Cetacea e Artiodactyla), formará um clado maior… Que nome daremos a esse clado mais inclusivo? E que nome daremos ao clado mais inclusivo ainda, que é formado ao incluirmos os Chiroptera?

Qual o possível nome para Rodentia + Lagomorfa? Qual o nome para Primates + Dermoptera? E qual o nome para todos juntos?

Se você for pesquisar esse último parágrafo, verá que os nomes já existem. A resposta para a primeira pergunta é Glires, e para a segunda pergunta é Euarchonta. Para a terceira pergunta a resposta está no próprio cladograma, Euarchontoglires. Mas o que eu quero deixar claro é outra coisa: os nomes, se já existem, são complicados e normalmente pouco intuitivos. E, o mais importante de tudo, uma imensa quantidade de clados ainda não foi denominada… Por isso, precisamos de nomes, numa quantidade bem maior do que inicialmente supúnhamos.

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