Cladogramas em zoom

Todas as tentativas de matar e enterrar com umas boas pás de cal a scala naturae são bem vindas. Como já reiterei diversas vezes neste blog, a ascensão da sistemática filogenética parece ser o fator fundamental para uma mudança de paradigma generalizada e permanente, uma vez que, infelizmente, a biologia evolutiva por si só parecia incapaz de gerar essa mudança de percepção. Ou, para sermos mais justos, a biologia evolutiva não seria tão capaz de gerar essa mudança quanto a sistemática filogenética (em tempo, biologia evolutiva e sistemática filogenética não são a mesma coisa).

Tenho visto diagramas, infográficos, desenhos e esquemas cada vez mais alinhados com a sistemática filogenética, cada vez mais comprometidos com o enterro da scala naturae. Dia desses, no Facebook, estavam compartilhando uma dessas imagens, que basicamente tentam transmitir um conceito, uma ideia que me é muito cara: que organismos atuais não são ancestrais de outros organismos atuais. Contudo, essa imagem era um pouco diferente: além de comparar uma scala naturae (algo errado) com um cladograma (algo correto), a imagem comparava o processo macroevolutivo com uma história familiar. Aqui, a meu ver, reside o problema. Evidenciá-lo e discuti-lo é o fito dessa breve postagem.

Antes de tudo, e quero deixar isso bem claro, a intenção do autor da imagem é louvável. Como já falei, todas as tentativas de enterrar a scala naturae devem ser bem vindas. Contudo, o uso inadequado dos cladogramas pode trazer certos problemas, e nós devemos estar atentos para eles, pois essas incorreções podem não só complicar o processo de aprendizagem, por parte do aluno, como podem nos confundir, minando nossa capacidade de transmitir corretamente um conhecimento.

Eis a imagem em questão, retirada dessa página do Facebook:

Um "cladograma familiar".

Um “cladograma familiar”.

Então vejamos. O lado direito da imagem, por sinal visualmente agradável e bem elaborada, é irrepreensível, e transmite a ideia de que organismos atuais não são ancestrais de outros organismos atuais; e, além disso, transmite a ideia (tão complicada de se explicar para algumas pessoas…) que não há em evolução os conceitos de “mais evoluído”  e de “menos evoluído”. Bem, o problema está do lado esquerdo da imagem: a comparação com um histórico familiar (e a construção de um cladograma para esse histórico familiar) foi infeliz. Por quê?

Vamos inicialmente fazer uma análise filogenética. Se seus irmãos foram colocados em um ramo, constituindo um clado (ou seja, um grupo monofilético), e você foi colocado em outro ramo, constituindo outro clado, podemos concluir daí que o parentesco entre seus irmãos é maior que o parentesco de qualquer um deles com você. E isso está simplesmente errado. Da mesma forma, o parentesco entre os primos (sejam eles quais forem, filhos de diversos tios diferentes) é maior do que o parentesco de qualquer um dos primos com um irmão seu, ou com você. E isso também está errado.

Outro problema é que, num cladograma, um determinado ancestral e todos os seus descendentes formam um clado. Logo, no “cladograma familiar”, do nó constituído por seu pai e sua mãe em diante (ou seja, seus pais, você e seus irmãos) temos um clado. Sendo assim, concluímos que o parentesco entre seu pai e você, ou entre seu pai e seu irmão, é maior que o parentesco entre seu pai e seu avô. E essa é outra informação errada.

Além disso, vale ressaltar que seu pai e sua mãe são organismos bem diferentes, e podem ser geneticamente bem distintos. Ainda assim, a imagem representa ambos (pai + mãe) como um nó no cladograma, assim como os avós, os bisavós etc. O que podemos concluir a partir disso, que tanto o pai como a mãe originaram-se daqueles avós? Que pai e mãe são um só organismo?

Temos mais um problema. Em um cladograma, um nó indica um evento de especiação: assim, cada ramo que parte de um nó representa, daquele ponto em diante, uma história evolutiva única, não compartilhada com o outro ramo. Porém, no cladograma apresentado, todos os elementos, logicamente da mesma espécie, são perfeitamente intercruzantes. Deixando as convenções sociais de lado, é relativamente comum o casamento entre primos (ou entre primos em segundo grau). Nesse caso, como representar o cladograma?

Esses são problemas que surgem apenas pela interpretação do cladograma. Contudo, se levarmos em conta a construção do cladograma, teremos outros problemas. Vejamos: a construção de todo e qualquer cladograma baseia-se em duas regras, que são as regras fundamentais da sistemática filogenética:

  1. Dados dois elementos, A e B, há um ancestral comum a ambos.
  2. Dados três elementos, A, B e C, há um ancestral comum a dois deles que não é ancestral do terceiro.

De que maneira poderíamos justificar a construção do “cladograma familiar” a partir das regras acima? Não podemos. Por exemplo, suponha que você tenha dois irmãos (três elementos, A, B e C): o parentesco entre vocês é exatamente o mesmo, 50% de compartilhamento do material genético. Logo, não se verifica a regra número 2, fundamental para a elaboração das dicotomias. Além disso, para piorar mais ainda o imbróglio e desandar o caldo: o compartilhamento de material genético entre você e seu irmão é em média 50%, pois pode ser qualquer valor entre zero e 100%; contudo, o compartilhamento entre você e seu pai (ou entre você e sua mãe) é de exatamente 50% (desconsiderando mitocôndrias – ou cloroplastos, se você for uma planta – e cromossomos sexuais). Logo, é possível que um irmão seja mais aparentado com o pai que com outro irmão. E, por fim, chegamos à confusão dos casais (pai e mãe, avô e avó etc): apesar de eles acasalarem e gerarem um filhote com metade dos cromossomos de cada um, o parentesco deles pode ser extremamente remoto. Portanto, o que nos autorizaria a representá-los nos nós do cladograma?

Para finalizar, uma última consideração: o desenho da parte superior direita está errado porque nós não recebemos genes ou cromossomos de uma salamandra atualmente existente. Ao contrário, tanto nós como as salamandras recebemos genes e cromossomos de nosso ancestral comum (daí o termo compartilhamento). Assim sendo, o título está correto, “isto não é evolução”. Mas a coisa é diferente no lado esquerdo: você de fato recebeu genes e cromossomos do seu pai, que os recebeu do seu avô, que os recebeu do seu bisavô etc., mesmo que essas pessoas todas ainda estejam vivas. Portanto, contrariamente ao que diz o título, a imagem superior esquerda representa sim um segmento da sua genealogia.

A que conclusão chegamos após tudo o que foi dito? Os cladogramas são ferramentas poderosas para um ensino correto da história evolutiva e para a superação de uma série de conceitos ultrapassados e medievais que ainda rondam a biologia evolutiva; porém, há um “limite de zoom” num cladograma, ou seja, podemos ampliar um cladograma apenas até certos limites. Uma ampliação exagerada, como a tentativa de se construir um “cladograma familiar”, acaba mandando para o espaço as duas regras básicas da sistemática filogenética e dá origem a uma série de paradoxos (quase todos oriundos da reprodução sexuada), como os que tentei evidenciar nessa postagem (a não ser que tratemos de bactérias, ou de outro organismo que se reproduza assexuadamente). Portanto, convém usarmos cladogramas a torto e a direito, quanto mais cladogramas melhor! Mas convém saber quais cladogramas utilizar e, principalmente, como construir os cladogramas que utilizaremos. A melhor maneira de representar uma história familiar ainda é o velho e bom heredograma.

Por falar nisso, um dos mais curiosos paradoxos que temos quando ampliamos exageradamente um cladograma é o paradoxo discutido por Dawkins em seu livro “The ancestor’s tale”. Esse, por sinal, será o assunto de uma postagem futura.

6 comentários sobre “Cladogramas em zoom

  1. Não gostaria de comentar nada sobre o seu post, uma vez que não faço parte dos especialistas na área da evolução; pelo contrário, sou um simples aluno do ensino médio (aliás, nunca tive aulas com você, por azar do destino). De qualquer modo, o assunto abordado nos mês passado (justamente cladogramas!) me fez lembrar de que não entendo absolutamente (ou quase) nada sobre grupos monofiléticos, parafiléticos, polifiléticos, merofiléticos, entre outros, e, por isso, gostaria de que, se possível, você me indicasse um site – confiável, note-se – que explicasse tudo isso de uma maneira didática, pois, para mim, por exemplo, todos os grupos aparentam ser monofiléticos, uma vez que quase sempre os descendentes derivam de um ancestral comum. Ainda, para que se tenha maior ideia de minha angústia, transcrevo um trecho da explicação de Bernardi (que achei na internet, por sinal) acerca dos parafiléticos: “grupo resultante da exclusão de um ou mais grupos monofiléticos do menor grupo monofilético de que fazem parte”. Quando não se conhece sequer uma definição clara de monofilético, que se pode depreender desse último fragmento? Nada! Enfim, todas as explicações sobre o assunto encontradas me pareceram bastante confusas… Agradeço de antemão qualquer tipo de ajuda e obrigado, mais uma vez, pela atenção dispensada.

  2. De fato, foi justamente o seu site que me motivou a ir atrás desse assunto, até mesmo porque as aulas que eu tive sobre ele foram muito superficiais. Realmente, esse site que você me passou é bem didático. Graças a ele, consegui entender sua última postagem (“Três domínios? Provavelmente não…”) sem maiores dificuldades. E as definições de parafilético, monofilético etc. não são nem de longe tão difíceis quanto eu pensava. Muito obrigado!

  3. Nossa! Muito interessante a análise da imagem e me rendeu uma boa discussão entre amigos da faculdade. Estou no primeiro período e sistemática filogenética e a nossa matéria vip entre química e matemática superior, justamente por algumas confusões e dúvidas que surgem na hora de classificar um cladograma,; conheci o blog por acaso e serei visitante fiel agora. É realmente difícil achar algum site confiável que tenha informações sobre sistemática, até mesmo livros, o único que conheço e que tem na nossa biblioteca e o do Amorim. Agradecida pela iniciativa me possibilitou saber um pouco além daquilo que nós é ensinado na universidade! Espero que meu professor não fique chateado rsrsrs, gostamos muito das aulas dele e da matéria em especial, mas é bom ter outros meios de informação sobre o assunto. Muito obrigada novamente por todo o conteúdo do blog.

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