Mudando sem mudar muita coisa…

Uma das conclusões que poderíamos ser levados a tomar depois de ler “A estrutura das revoluções científicas”, de Thomas Kuhn, é que, para um novo paradigma científico realmente se estabelecer, temos que esperar que todos os professores mais velhos morram e que sejam substituídos por professores mais novos, defensores do novo paradigma. É um exagero, admito. Mas não está muito longe da verdade, em relação a algumas áreas particulares da ciência.

Um novo paradigma é desconfortável, e por duas razões bem elementares: ele nos mostra que nosso antigo paradigma (tão amado por nós durante tanto tempo) está errado e, como se não bastasse, nos obriga a aprender um paradigma novo, uma coisa nova. Trocar de paradigma requer que se saia da zona de conforto. Porém, o que eu vejo hoje em dia (oxalá esteja eu errado) é que as pessoas cada vez mais falam coisas como “temos que sair da nossa zona de conforto”, “é importante sair da zona de conforto” e demais frases do tipo, mas, depois de uma semana numa nova dieta ou depois de uma semana numa nova postura profissional, por exemplo, voltam (às vezes sem perceber) para a situação anterior e ainda se consideram satisfeitas, pois, na cabeça delas, “saíram da zona de conforto”. Sair da zona de conforto não é brincadeira, não é algo que se faz só para se sentir melhor consigo mesmo: é algo sério e que traz um profundo incômodo, um profundo desconforto… Porque a zona de conforto é confortável, ora bolas!

Há inúmeros exemplos dessas que denominarei saídas falsas da zona de conforto na biologia. Um deles é a classificação quanto à variação de temperatura. Até o fim dos anos 80, os livros didáticos classificavam os animais em homeotérmicos e pecilotérmicos. Contudo, essa classificação era problemática e inadequada, pois muitos animais homeotérmicos tinham uma variação, ao longo de um único dia, de dezenas de graus Celsius em sua temperatura corporal, enquanto muitos animais pecilotérmicos passavam suas vidas inteiras sem exibir mais do que dois ou três graus Celsius de variação na temperatura corporal. Portanto, a classificação mudou, e foram introduzidos novos termos, endotérmicos e ectotérmicos. O que muitos professores fizeram, infelizmente, foi simplesmente substituir os termos, usando endotérmicos no lugar de homeotérmicos e ectotérmicos no lugar de pecilotérmicos. Isso, contudo, não muda nada! O erro persiste, ele não vai desaparecer apenas porque alteramos uma nomenclatura. Portanto, como é que devemos usar corretamente a nova classificação?

Primeiro, percebendo que a própria estrutura da classificação mudou, e compreender isso envolve o que chamamos de sair da zona de conforto. Os animais (mas a classificação é válida para outros grupos, convém lembrar), são classificados quanto à regulação da temperatura e quanto à fonte de energia utilizada. Quanto à regulação da temperatura, os animais são termoconformes ou termorreguladores; os primeiros não têm mecanismos para regular a temperatura corporal e essa é, normalmente, bem próxima da temperatura do meio. Os últimos, ao contrário, podem regular a temperatura. Quanto à fonte de energia, os animais são classificados como ectotérmicos, quando a fonte é externa, ou endotérmicos, quando a fonte são as próprias reações metabólicas do organismo. Os termoconformes são todos ectotérmicos; já os termorreguladores podem ser ectotérmicos, como os lepidossauros e alguns anfíbios, ou endotérmicos, como os mamíferos, alguns répteis (as aves), alguns peixes ósseos e alguns insetos. Perceba que ectotérmico não é sinônimo de termoconforme, pois alguns animais termorreguladores são ectotérmicos, nem endotérmico é sinônimo de termorregulador (pelo mesmo motivo). Ou seja, não se pode simplesmente substituir pecilotérmico por ectotérmico (nem por termoconforme) e homeotérmico por endotérmico (nem por termorregulador): deve-se ensinar a nova classificação, que tem outra lógica e que possui três possibilidades (termoconforme ectotérmico, termorregulador ectotérmico e termorregulador endotérmico).

Mais isso é um prolegômeno, um hors d’oeuvre! O que eu queria mesmo era falar sobre outro exemplo: o uso da sistemática filogenética.

Muitos professores abraçaram para valer a sistemática filogenética, estudaram-na, compreenderam seus conceitos e passaram a aplicá-la em sala de aula, tanto no ensino médio como no ensino superior. E, muitos deles, passaram a utilizá-la de forma tão profundamente arraigada em suas respectivas matérias ou cadeiras que, de fato, podemos dizer que a sistemática filogenética veio para ficar. Há excelentes exemplos da aplicação didática dos princípios da sistemática filogenética, alguns até mesmo no ensino fundamental!

Porém, uma nada desprezível parcela dos professores, executando uma saída falsa da zona de conforto, manteve seus mesmos paradigmas lineanos, seus mesmos paradigmas do século XVIII, fazendo apenas algumas mudanças aqui e ali para ajustar o novo paradigma à sua maneira tradicional de pensar, ou seja, para usar cladogramas e outras ferramentas em sala de aula. Utilizar para valer a sistemática filogenética é compreender que aves são répteis, que nós somos peixes ósseos, que o Reino Monera não existe, que peixes não constitui um grupo, que algas não significa biologicamente quase nada, que Porifera não deveria existir, entre outras coisas…

Vejamos o exemplo a seguir, razão de ser desta presente postagem. Nós aprendemos no colégio que o Reino Plantae é dividido em quatro Filos ou Divisões, a saber: Bryophyta, Pteridophyta, Gymnospermae e Angiospermae. O cladograma abaixo, retirado de um livro-texto de biologia da McGraw-Hill (excelente editora), mostra exatamente isso.

Cladograma 01

Cladograma 01

Acontece que o que esse cladograma faz é tentar encaixar a forma tradicional de ver as plantas no novo paradigma, para sair o mínimo possível da zona de conforto. Se alguém se propõe a construir um cladograma, uma ferramenta da sistemática filogenética, esse alguém deve estar a par das regras dessa sistemática e ser capaz de usá-las adequadamente, o que não foi feito no cladograma acima. Por quê? Porque a maior parte dos grupos que acabamos de mencionar e que estão, da forma que mencionamos, representados no cladograma (nonvascular plants = briófitas, seedless vascular plants = pteridófitas) não está correto, do ponto de vista da sistemática filogenética. Como assim? Vamos descobrir observando o cladograma abaixo (retirado de um artigo científico), bem mais correto.

Cladograma 02

Cladograma 02

Perceba que agrupar os musgos (“mosses”), as hepáticas (“liverworts”) e os antóceros (“Hornworts”) no mesmo grupo, que chamávamos de briófitas, apenas porque são plantas sem vasos condutores, é errado: o que acabamos tendo aqui é um grupo parafilético. Portanto, Bryophyta não é um clado, ou seja, não é um grupo monofilético (um grupo cujo ancestral comum é exclusivo). Pela análise do cladograma acima, nota-se claramente que um musgo é mais aparentado com uma goiabeira que com uma hepática, e que um antócero é mais aparentado com um pinheiro que com um musgo. Bryophyta é um grupo parafilético. Ou seja, briófitas não existe. Acostume-se com isso.

A mesma coisa ocorre com as pteridófitas. Como assim? Agrupar as plantas vasculares sem sementes no mesmo grupo também é incorreto. Veja o cladograma abaixo:

Cladograma 03

Cladograma 03

De acordo com essas relações evolutivas, as samambaias (ferns) são mais aparentadas com as plantas com sementes do que com os licopódios (club mosses). Portanto, Pteridophyta é um grupo incorreto, parafilético (mas não Pterophyta, que é monofilético!)

Agora, uma confissão: quando planejei escrever essa breve postagem, pensei em falar sobre as gimnospermas. Até o fim da década de noventa, quase todos os bons livros-texto diziam que as gimnospermas formavam um grupo parafilético, ou seja, um grupo errado do ponto de vista da sistemática filogenética. Porém, antes de escrever essa postagem, resolvi dar uma breve pesquisada pela rede, e descobri vários artigos, escritos entre 5 e 10 anos atrás, afirmando que Gymnospermae é um grupo monofilético (aliás, essa é a interpretação do livro do qual retirei o cladograma 03). Bem, há especialistas que ainda afirmam que Gymnospermae é um grupo parafilético, enquanto outros asseguram que se trata de um grupo monofilético, de maneira que a coisa ainda não está bem definida. Mas vou, apenas por brincadeira, fingir que eu não fiz essa pesquisa prévia e escrever o que eu pretendia escrever inicialmente. Observe, então, este quarto cladograma:

Cladograma 03

Cladograma 04

Caso essas relações evolutivas estejam corretas, não é apenas Bryophyta e Pteridophyta que deixam de existir: Gymnospermae (ou seja, as plantas com sementes mas sem flores e frutos) é um grupo igualmente incorreto, igualmente parafilético. Curiosamente, este cladograma difere do segundo, por considerar “musgos+antóceros” um grupo monofilético.

Dos quatro grupos que ensinamos (e aprendemos) no segundo grau, apenas um existe, apenas um é válido: as angiospermas. Ah, mas há uma ressalva: dentro das angiospermas, dicotiledôneas também não existe…

19 comentários sobre “Mudando sem mudar muita coisa…

  1. O post é bem interessante mas como professor uma coisa me incomoda muito sobre este assunto. O fato de que por causa do livro adotado ou de provas não elaboradas por você mesmo (principalmente vestibulares) você tem que ensinar e reforçar para os alunos as definições erradas por que são elas que o vestibular quer dos alunos. Caso você ensine apenas o certo você ficará como um professor incompetente por não falar do assunto do vestibular ou similares. Tentando não ficar com a consciência muito pesada sempre falo do caso dos dinossauros,répteis, crocodilos e aves ou do caso dos “peixes” para os alunos, mas tenho que dizer como se fosse uma curiosidade, algo novo e em recente elaboração para não embaralhar a cabeça do aluno que irá estudar pelo livro errado para uma prova que cobrará o errado.

  2. E isso tudo se pensando em grupos atualmente viventes.
    Agora, pensemos por um minuto nos grupos fósseis, para os quais não se tem evidências de DNA. Fica bem mais complicado de se aferir o parentesco. Então, construir-se um cladograma preciso e verossímil é tarefa em contínua construção.
    No final, classificações e comparações são uma forma que nossa mente encontrou para entender o mundo: fatiando-o para, em seguida, e comparar as fatias.
    Algo que usamos para capturar o mundo, mas que, inerentemente, nos separa dele.
    Sempre achei todo esse processo muito alheio à real natureza das coisas. Quase que um artefato. Fruto da nossa mente. Ou, ao menos, mais da nossa mente do que oriundo diretamente da realidade.
    É a eterna busca da ciência em criar mecanismos de se aproximar dos fenômenos naturais. E, normalmente, o próprio mecanismo é tão alheio à natureza, que acaba por nos distanciar dela enquanto tentamos atingi-la por meio dele.

    • Toda as tentativas de classificar residem num dos princípios mais utilizados na ciência e também na nossa vida pragmática cotidiana: “Não tem tu, vai tu mesmo!” Por isso, são inerentemente falsas, incompletas, insuficientes e, provavelmente, passageiras.

    • Concordo que as classificações são um artefato, Fernando. Só que há um detalhe que a gente não pode esquecer: as histórias evolutivas, ou seja, as relações de parentesco, são reais! Não são artefatos, não dependem do ser humano para terem existido. E são essas relações de parentesco que a gente tenta evidenciar…

  3. O foda é que, em nossa cultura, busca-se privar os estudantes de escola da bagunça que é a ciência! Privados das dúvidas, das incertezas inerentes ao processo científico, do “saber que não sabe”, são mandados para o front de guerra do vestibular. Avaliações elaboradas por doutores, pesquisadores do mais alto nível, professores de universidades, contém simplificações deletérias à construção do raciocínio e da reflexão enquanto mantém padrões de pensamento anacrônicos que remontam a séculos pretéritos. Por quê?

    Alguém poderia me dizer?

  4. Muito bom o post, Parabéns. Sou estudante de Ciências biológicas e, como todo recém chegado do ensino médio, fiquei bastante confuso com as classificações que (ainda) são bastante dinâmicas. Um grande motivo para tanta confusão é a separação dos táxons (parece muito com a evolução linear de lamarck) no ensino fundamental e médio, como se nada tivesse relação, parentesco. Blocos de táxons estudados separadamente!!! Veja como é difícil depois de tudo isso chegar a universidade e olhar para um cladograma…

    Sou fã do blog!!!

  5. Os grandes exames de seleção para universidade acabam por engessar o ensino da ciência. Muitas vezes me sinto “estuprando” meus alunos mentalmente com abordagens que eu sei que estão incorretas… No entanto, meu aluno precisa entrar na universidade…. O que me chama a atenção é que não é tão difícil assim modificar esse cenário, qual problema em realizarem uma “reforma” nos livros de ciência do ensino médio para que ao menos o básico esteja o mais próximo possível do real? Todos os anos livros são reeditados, revisados…. e a questão filogenética permanece praticamente a mesma…

    • Pois é, Carol, o problema não é nem sermos “reféns” das provas de vestibular, pois isso acontece com a física, a matemática, a química etc… Porém, na matemática, 2+2=4 no fundamental, no ensino médio, no vestibular, na faculdade, na Argentina ou na China. Mas com a biologia não: a gente nunca sabe que abordagem errada/ultrapassada/incoerente/antiquada o elaborador do vestibular vai usar. Isso dá origem a uma frase que só professores de biologia usam: “Pessoal, isso aqui é assim, mas para o vestibular é desse outro jeito…”

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