Sobre o que me incomoda

Mudamos de paradigma na biologia evolutiva, o que nos permite dizer que mudamos de paradigma na biologia como um todo. A nova concepção do processo evolutivo, principalmente após o advento da sistemática filogenética, matou e enterrou a scala naturae. Isso entre os biólogos evolutivos. Correção: isso entre alguns poucos biólogos evolutivos. Porque a realidade é outra: não apenas para o público em geral, mas, o que é o mais preocupante (e a razão de ser desta breve nota), para a maior parte dos cientistas, a scala naturae é um monstro bastante vivo e vai bem, obrigado. E, quando menciono os cientistas, infelizmente devo dizer que isso certamente inclui os biólogos, que na verdade deveriam ser os líderes do cortejo fúnebre, os condutores do féretro da scala naturae, a levar essa concepção infeliz para a cova.

Não posso negar que me incomoda ver a scala naturae viva e saltitante nos dias de hoje, em pleno século XXI. Contudo, devo confessar que me incomoda mais ainda vê-la entre professores, entre estudiosos, entre cientistas e entre divulgadores da ciência.

Recentemente, peguei um livro para ler, um livro que estava na minha estante, na lista de leituras futuras há bastante tempo. Trata-se de uma obra de divulgação científica em neurologia e psicologia cognitiva. Na verdade, o autor se propõe a relatar a história da mente humana, desde a origem do gênero Homo até os dias de hoje. Dessa forma, o livro aborda várias áreas do conhecimento, como evolução humana, neurologia, psicologia evolutiva, etologia cognitiva, linguística… O autor é bem conceituado, aparentemente uma autoridade no tema, e além disso, na contracapa, há críticas e elogios ao livro por parte de outros autores que conheço e confio. Assim sendo, comecei a lê-lo.

Infelizmente, a abordagem evolutiva é tão inadequada, a scala naturae é tão presente, os preconceitos são tão evidentes que não consegui passar do segundo capítulo. Não irei aqui dizer o nome do autor nem o nome do livro (apesar de ser possível descobrir, a partir das citações que eu reproduzirei mais abaixo, usando o Google e um pouco de paciência), porque não se trata de uma crítica ao livro em si, muito menos ao autor. Deve ser um livro interessante, com inúmeras informações corretas e úteis; além disso, praticamente todos os livros sobre evolução humana, antropologia, psicologia evolutiva e cognição que já tive a chance de ler incorrem no mesmo erro que mencionarei. Portanto, citar o nome do livro aqui não irá trazer bem algum: o que quero é me debruçar sobre as concepções incorretas que encontrei nas poucas páginas que li e que, como disse, não são de forma alguma exclusividade deste livro em particular.

Pois bem, vejamos. O autor se propõe a descrever a história da mente humana, desde nosso ancestral comum com os chimpanzés/bonobos até os dias de hoje. Logo na primeira página do prefácio, lemos:

My origin story starts at 7 million years ago, so as to cover the time since we emerged from the great apes.

Não há erro algum aqui, você dirá. Bem, estou começando bem devagar, e por algo praticamente sem importância. Mas, se pararmos para pensar, o que há aqui é grave: não apenas temos um resquício da concepção de que o ser humano não é um animal, mas uma clara indicação de que o ser humano não é um “ape” (um grande símio sem rabo). Do ponto de vista evolutivo, nós não emergimos dos “apes”, bem como não emergimos dos primatas, muito menos dos mamíferos. Nós emergimos de um ancestral comum com o chimpanzé/bonobo. Nós somos “apes”, bem como o chimpanzé e o bonobo são “apes” (assim como o gorila e o orangotango). Do mesmo modo, somos primatas, mamíferos e, sem cometer erros, peixes. Contudo, conhecedor que sou da scala naturae e acostumado com suas aparições, previ imediatamente que o autor trataria os “apes” como nossos ancestrais. Eis que encontro, logo no parágrafo seguinte:

… we need to understand what great apes are capable of, and what they don’t do. That will help us to appreciate what happen in ape-to-human brain evolution…

Bem, agora você está sendo muito inflexível, você diria. Apesar do infeliz “ape-to-human”, o autor está apenas dizendo que conhecer o comportamento dos chimpanzés, bonobos e gorilas nos ajuda a reconstituir a história evolutiva de nossa espécie, o que é uma alegação bastante razoável e pertinente. Sim, concordo plenamente, se assim fosse. Mas não é apenas isso que ele faz: como já supus, o ape-to-human é literal. Logo após o breve prefácio, o capítulo 1, dedicado aos chimpanzés e bonobos, trata esses grandes símios como nossos ancestrais:

… it talks of the perceptual and cognitive abilities common to all the primates, then looks at what emerges with the ape-level mentality, before the hominid icing comes along.

Já posso aqui deixar claro o que me incomoda. Há, certamente, um enorme número de características que são exclusivas dos seres humanos, inexistindo no chimpanzé ou no bonobo. Contudo, há um número enorme de características que são exclusivas do chimpanzé e do bonobo, inexistindo no ser humano. O que praticamente todos esquecem é que o tempo evolutivo que nos separa do nosso ancestral comum com o chimpanzé é exata e rigorosamente o mesmo intervalo que separa o chimpanzé desse ancestral comum. Modificações drásticas ocorreram não apenas na linhagem que levou ao ser humano, mas também na linhagem que levou ao chimpanzé (e ao bonobo). Porém, a quase totalidade dos biólogos cognitivos, antropólogos e psicólogos ainda enxerga a evolução da mente como uma passagem de níveis (nada errado até agora), na sequência “nível do lêmur” → “nível do macaco” → “nível do gibão” → “nível do chimpanzé” → “nível do ser humano” (bastante errado!).

O chimpanzé (Pan troglodytes) não é seu ancestral! (Fonte: Sciencephotolibrary)

O chimpanzé (Pan troglodytes) não é seu ancestral! (Fonte: Sciencephotolibrary)

Deixe-me ilustra isso com um exemplo. Seres humanos falam, chimpanzés não. Uma das explicações possíveis é que o ancestral comum não falava, e que falar é uma apomorfia dos humanos. Mas há outra explicação: o ancestral falava, e a perda da fala seria uma apomorfia dos chimpanzés. Eu sei que a segunda explicação não é correta, pois uma série de outros ancestrais exclusivos dos humanos não falava, e a fala surgiu há bem pouco tempo, muito depois da separação evolutiva do homem e do chimpanzé. Mas por que tratar todas as outras características mentais distintas entre o homem e o chimpanzé como aquisições exclusivas do ser humano? Além disso, os chimpanzés e o ancestral comum de chimpanzés e humanos, por compartilharem essa plesiomorfia do exemplo dado (não falar), não compartilham necessariamente outras, muito menos são o mesmo bicho! Pensar assim é supor que cognitiva e mentalmente o chimpanzé não mudou rigorosamente nada desde a separação do ancestral comum com os humanos, há 7 milhões de anos.

De uma vez por todas, os chimpanzés não são nossos ancestrais, nem os lêmures são os ancestrais dos primatas, nem os sapos são ancestrais dos tetrápodos. Pensar assim é defender algo que tem um nome: scala naturae.

Analisando apenas a árvore evolutiva do homem e do chimpanzé/bonobo (deixando de fora o gorila, o orangotango e o gibão), há pelo menos cinco diferentes possibilidades evolutivas, tendo em vista comportamentos ou qualquer outra estrutura (morfológica, bioquímica etc):

  1. Há comportamentos que são compartilhados pelos humanos e pelos chimpanzés.
  2. Há comportamentos exclusivos dos chimpanzés, que surgiram na linhagem desses.
  3. Há comportamentos exclusivos dos humanos, que surgiram em nossa linhagem.
  4. Há comportamentos comuns, mas que foram perdidos na linhagem dos chimpanzés.
  5. Há comportamentos comuns, mas que foram perdidos na nossa linhagem.

Como se não bastasse, há a cereja do bolo, a última frase do primeiro capítulo (que é uma citação de outro livro):

The chimps lack language and symbol, virtually lack true teaching, and [there is no] evidence of the sort of metacognition – awareness of mental process – that is the essence of human culture.

Ah, essa foi demais. Como se diria no weekend update, “really???”. Tudo bem que a declaração de Cambridge (que afirma que mamíferos e aves têm consciência) é recente, de 2012, e o livro é de 7 anos antes. Tudo bem, mas e todos os outros trabalhos da etologia cognitiva? A declaração de Cambridge não surgiu assim, do nada, da noite para o dia. Dizer que chimpanzés e bonobos não tem consciência e intencionalidade (trata-se de um conceito filosófico, nada a ver com a definição cotidiana de “intencional”) é de uma má vontade antropocêntrica que só pode ter razões religiosas.

Além disso, temos que nos livrar dos achismos, em todas as áreas da ciência, mas na etologia cognitiva em particular. Há procedimentos para tentarmos inferir os estados mentais de outros animais, procedimentos bastante complexos. Mas eles não incluem preconceito cartesiano nem bobagens antropocêntricas, como a citação infeliz abaixo (também retirada do capítulo 1), com a qual eu encerro a presente nota.

Did you ever walk in a room and forget why you alked in? That’s how dogs spend their lives.

Há tantos erros aqui que nem sei por onde começar…

6 comentários sobre “Sobre o que me incomoda

  1. Obrigado. Att,   ___________________________________ Thiago de Ávila Medeiros Bacharel e Licenciado em Ciências Ambientais Pós-graduado em Gestão e Planejamento Ambiental Professor de ensino fundamental, médio e superior

    ________________________________

  2. Parabéns,
    Muito pertinente a discussão. Todos esses preconceitos só deturpam o pensamento evolutivo e nada contribuem para o entendimento dos processos que tornam a vida do jeito que vemos hoje. Escritos assim são perniciosos e ajudam a perpetuar a ignorância. Ainda bem que existem muitos em busca de romper com essa lógica.
    abraço

  3. Obrigado por essa nota, Gerardo. Realmente, o pensamento linear é uma herança tóxica para a ciência, e o antropocentrismo parece estar mais vivo do que nunca, abrindo portas para o preconceito e para o determinismo.

  4. Caro,

    Sou graduando de filosofia pela Universidade de Brasília (UnB), e recentemente terminei um projeto de pesquisa de 1 ano na área de ‘filosofia da biologia’. Devo dizer que, você simplesmente tirou as palavras na minha boca. Não no contexto específico o qual você apresentou, mas sim com relação a postura ‘antropocêntrica’ de alguns pesquisadores. Você estuda ‘a teoria da evolução por meio da seleção natural’ e espera que no mínimo a ideia de ‘scala naturae’ tenha sido deixada para trás, ledo enganado. Infelizmente, mesmo depois de Darwin, alguns estudiosos não entendem, ou não querem entender, que o ser humano não é um ser ‘especial’, advindo dos céus, criação última da natureza. Querem encontrar um modo ‘qualitativo’ de separar o homem do restante do reino animal. O que poderia ser mais anti-darwiniano do que isso? Isso não significa negar a singularidade humana, é claro. O ser humano é único, assim como todas as outras espécies, é isso que as demarcou como ‘espécies’ em primeiro lugar, isso é tão difícil de entender assim?

    Enfim, gostei muito do seu post, por favor escreva mais textos assim, eles estão fazendo falta. Deixo aqui um artigo muito bom que usei em minha pesquisa. Ele foi escrito pelo eminente etólogo Frans de Waal “Towards a bottom-up perspective on animal and human cognition”. Nesse escrito, o cientista crítica a presença da ‘scala naturae’ na etologia contemporânea e busca propor um método mais ‘darwinista’ de se estudar o comportamento animal. Segue o link ====> http://www.emory.edu/LIVING_LINKS/publications/articles/deWaal_Ferrari_2010.pdf

    Valeu.

    • Tiago,
      Obrigado pelo comentário, e muito obrigado pelo link! Há 11 anos comecei minha aventura pela etologia cognitiva com um livro do de Waal, chamado “The ape and the sushi master”, você deve conhecer. Se não, vale muito a pena a leitura…
      Abraço.

  5. Gerardo, por falar em `macacos ´ … e sem querer lhe incomodar, gostaria que lesse – com atenção tibetana, há/a anos-luz da disputa Evolucionismo/Criacionismo – o link GENES COMUNICACIONAIS do site http://www.adiferencaanimalhomemnodna.com.br. Ele sinaliza a existência de um novo nível genômico a ser detectado pelos pesquisadores da EVO-DEVO (abaixo dos HOX, PAX, … ), e é nele que reside a macro-diferença AH. Não repare na convicção. Ela vem de anos de observação das linguagens corporais primárias, em pares animais de conduta sensorial oposta :

    sensorialidade tipo AVE sensorialidade tipo RÉPTIL
    FELINOS CANINOS
    EQUINOS BOVINOS
    . .
    . .
    . .
    planos corporais planos corporais
    p/ VEROUVIR p/ SEREM VISTOSOUVIDOS
    (os VO) (os SVO)

    A irresistível pergunta: … e nós humanos, em qual dos lados estamos ?

    Abraços.

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