Sobre o declínio da inteligência humana

Há alguns anos escrevi aqui neste blog duas breves notas sobre fossilização gênica (que podem ser lidas aqui e aqui). De forma bastante resumida, coisa que compromete a acurácia da explicação, a fossilização gênica ocorre quando a pressão seletiva exercida sobre um gene é reduzida ou eliminada. Isso ocorre por que o processo seletivo não é apenas responsável pela manutenção das variantes mais adequadas, ele é também responsável pela própria integridade informacional dos genes responsáveis por tais variedades. Explicando de outra forma, o processo seletivo limpa continuamente o reservatório gênico, fazendo uma faxina e eliminando as mutações deletérias. Quando um determinado gene não exerce mais nenhuma função aparente, as mutações começam a se acumular (ou, em termos físicos, a entropia aumenta), a informação genética é irreversivelmente degradada e, finalmente, o gene acaba por desaparecer, podendo eventualmente deixar alguns resquícios, ou fósseis, no material genético. Analisar algumas alegações recentemente divulgadas pela mídia à luz da fossilização gênica é o fito desta breve postagem.

O artigo científico intitulado “Our fragile intellect” foi publicado na Trends in Genetics de novembro de 2012. Como nós, meros mortais, não temos acesso ao artigo completo (e o abstract é desapontadoramente curto), tive que obter informações nas entrevistas dadas pelo autor, Gerald Crabtree, a jornais não especializados. De forma geral, o autor alega que nossas capacidades intelectuais e cognitivas dependem de um grande número de genes, algo entre 2000 e 5000 genes, e que pelo fato de nós, seres humanos, não estarmos mais submetidos às pressões seletivas pré-civilização, há um acúmulo de mutações que não são eliminadas (ou seja, há uma tendência à fossilização genética), e esse acúmulo de mutações pode levar à deterioração de nossa capacidade intelectual e cognitiva. Apesar de não ter tido acesso ao paper original, pude achar o press release, divulgado pela Cell Press (editora da Trends), que é bem explicativo:

Human intelligence and behavior require optimal functioning of a large number of genes, which requires enormous evolutionary pressures to maintain. A provocative hypothesis published in a recent set of Science and Society pieces published in the Cell Press journal Trends in Genetics suggests that we are losing our intellectual and emotional capabilities because the intricate web of genes endowing us with our brain power is particularly susceptible to mutations and that these mutations are not being selected against in our modern society.

“The development of our intellectual abilities and the optimization of thousands of intelligence genes probably occurred in relatively non-verbal, dispersed groups of peoples before our ancestors emerged from Africa,” says the papers’ author, Dr. Gerald Crabtree, of Stanford University. In this environment, intelligence was critical for survival, and there was likely to be immense selective pressure acting on the genes required for intellectual development, leading to a peak in human intelligence.

From that point, it’s likely that we began to slowly lose ground. With the development of agriculture, came urbanization, which may have weakened the power of selection to weed out mutations leading to intellectual disabilities. Based on calculations of the frequency with which deleterious mutations appear in the human genome and the assumption that 2000 to 5000 genes are required for intellectual ability, Dr. Crabtree estimates that within 3000 years (about 120 generations) we have all sustained two or more mutations harmful to our intellectual or emotional stability. Moreover, recent findings from neuroscience suggest that genes involved in brain function are uniquely susceptible to mutations. Dr. Crabtree argues that the combination of less selective pressure and the large number of easily affected genes is eroding our intellectual and emotional capabilities.

Sumariando o press release, o desenvolvimento de nossa capacidade intelectual se deu num meio extremamente competitivo, onde a seleção natural exercia uma forte pressão. Após o surgimento da civilização e a revolução agrícola, as pressões seletivas foram enfraquecidas, e o maior acúmulo de mutações, deteriorando os genes relacionados à cognição, levam e levarão a uma redução de nossa capacidade intelectual. Não pude deixar de me lembrar do filme “Idiocracy”!

No filme "Idiocracy", o futuro intelectual dos norte-americanos não é nada promissor...

No filme “Idiocracy”, o futuro intelectual dos norte-americanos não é nada promissor…

Não quero aqui desafiar uma revista científica bem conceituada e respeitada, nem discordar de um artigo científico revisto por pares, que suponho (uma vez que não o li) ter um excelente embasamento teórico, estatísticas bem fundamentadas e tudo mais. A questão é outra: Nada nos impede que analisemos criticamente as alegações do autor. Senão vejamos:

A fossilização gênica é um fenômeno que depende do relaxamento das pressões seletivas sobre determinado gene ou grupo de genes. Ora, se o ser humano não tem mais pressões seletivas (como é tão comum alegarmos), se a seleção desapareceu por completo em nossas populações, por que apenas os genes relacionados à inteligência e à cognição acumulariam mutações? Todos os genes, não apenas os relacionados ao intelecto, tenderiam acumular mutações, e nosso genoma inteiro passaria a lentamente se deteriorar. Claro que há genes mais susceptíveis ao acúmulo de mutações que outros – não estou aqui me referindo a maiores chances de ocorrerem mutações, e sim a uma maior sensibilidade ao acúmulo de mudanças em suas sequências – o que na verdade constitui uma das alegações do autor. Mas, ainda assim, não há por que supor que apenas a inteligência se deterioraria: o número de dedos nas mãos, o padrão de crescimento capilar, o número de dentes, os fotorreceptores do olho, enfim, todas as características que não determinassem de forma óbvia a morte do portador antes da adolescência iriam começar a flutuar das formas mais malucas, não apenas por deriva gênética, mas por efeito da lenta deterioração de seus genes, devido ao acúmulo de mutações.

Contudo, não estamos observando essas flutuações loucas, pelo menos até onde eu saiba. Em minha opinião, temos três cenários possíveis:

  1. Ainda há seleção: O ser humano certamente ainda evolui, quanto a isso não há dúvidas. “Mas por deriva genética e não por seleção”, é o que costumamos dizer. Neste primeiro cenário, a tão propagada noção de que o ser humano não sofre mais seleção seria um engano. Alterações fenotípicas alterariam, sim, as frequências reprodutivas, principalmente entre as populações mais carentes e mais numerosas, onde as taxas de natalidade/mortalidade são mais altas. Neste cenário não há fossilização gênica, devido aos efeitos reparadores da seleção.
  2. Não há mais seleção, mas mesmo assim não ocorre fossilização gênica: Neste cenário, supomos que a tão propagada noção de que não há mais seleção entre seres humanos esteja correta. Contudo, devido a particularidades que ainda não saberíamos explicar (tempo relativamente curto, manutenção enzimática do genoma etc…), os genes humanos não estariam fossilizando na velocidade esperada. Neste cenário, tanto as capacidades intelectuais humanas como as outras características estariam variando apenas dentro dos limites da deriva genética, ou seja, sem o efeito da acumulação de mutações deletérias nas populações.
  3. Não há mais seleção, e ocorre fossilização gênica: Neste cenário não apenas a capacidade intelectual humana mas uma infinidade de outras características se deteriorariam irreversivelmente, a não ser que, num futuro possível, a seleção volte a exercer suas pressões.

Seja qual for o cenário, não consigo aceitar a explicação de que nossa capacidade intelectual se deteriorará sem que as demais características se deteriorem também; todos os genes sobre os quais a seleção afrouxou sua força deveriam lentamente se deteriorar. E minha opinião não é isolada: uma série de outros pesquisadores, ao redor do mundo, se manifestaram contrários às conclusões desse polêmico paper da Trends in Genetics.

Post scritum (em 14/01/2013): Graças a um solícito amigo, tive a chance de ler o artigo original da Trends in genetics. E minha opinião, infelizmente, não melhorou: é basicamente um artigo de opinião, especulativo, com extrapolações questionáveis, carência de dados, erros conceituais e uma abordagem evolutiva que me lembra os primeiros equívocos da psicologia evolutiva. Me espantou os (ou a falta de) critérios usados para publicação em uma revista científica desse porte. Várias criticas ao artigo podem ser encontradas na internet, mas indicarei uma um pouco mais técnica (apesar de sarcástica), publicada no The Guardian:

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