O design estúpido

Costumo falar que um fato histórico deve ser compreendido e analisado dentro do contexto histórico no qual está inserido. É muito simples dizermos que os europeus pós império romano eram um bando de sujismundos, que fugiam dos banhos como um vampiro foge de uma cruz. De fato, a queda de Roma, com suas mais de 950 casas de banho (thermae), é também a queda da higiene na Europa. Não há como não compararmos os romanos, cuja esmagadora maioria da população se banhava diariamente, com Luis XIV e seus famigerados três banhos em toda a vida adulta, e seu palácio, Versailles, que só foi ter um banheiro – para banhos – em 1768 (há uma anedota romana, em que um estrangeiro pergunta “por que vocês, romanos, tomam um banho todos os dias?”, e o romano responde “porque não temos tempo de tomar dois”). Contudo, convém considerarmos historicamente esse hábito europeu de não tomar banho. Em primeiro lugar, a ascensão do cristianismo após a queda do Império Romano reduziu ou mesmo proibiu o contato com o corpo, a limpeza das partes e a atividade, certamente erótica, do banho. Não é exagero dizer que o cristianismo, com sua pudicícia mórbida, é a religião da falta de higiene (como nos diz Foucault em seu A história da sexualidade, volume II). Além disso, convém percebermos a vertiginosa queda tecnológica, quando comparamos o Império Romano com as idades média e moderna que seguem-no. Tomar um banho quente era fácil em Roma, mas desconfortavelmente difícil na Europa medieval. Esquentar a água não é uma coisa simples, não é como entrar debaixo de um chuveiro elétrico nos dias de hoje e, pra quem nunca morou na Europa, principalmente na Europa setentrional, saiba que o troço é frio! Em terceiro lugar, o banho era uma atividade perigosa: a relação causal entre bactérias (ou microorganismos em geral) e doenças só foi estabelecida por Koch em 1876; logo, não era incomum as pessoas pensarem que o banho poderia adoecê-las. Bem, toda essa contextualização histórica não altera o terrível fedor que deveria imperar no palácio de Versailles no século XVIII. Contudo, permite que nós o compreendamos mais adequadamente, que saibamos quais suas razões.

A mesma coisa se dá com seres vivos, apesar de muitos de nós nos esquecermos disso com certa constância. Os seres vivos são fatos históricos; a morfologia de uma planta, a fisiologia de um componente celular, o comportamento de um determinado grupo animal são fatos históricos e, assim sendo, devem ser compreendidos dentro de um contexto histórico, o contexto histórico no qual surgiram e se desenvolveram.

Há inúmeras estruturas em seres vivos nas quais botamos os olhos e imediatamente nos perguntamos “mas por que isso é assim? Que coisa estúpida, que solução mal feita!”. Meu exemplo preferido, assim como de Futuyma, é o cruzamento dos sistemas respiratório e digestivo na faringe dos tetrápodos. À primeira vista, essa é uma morfologia bastante infeliz, levando milhares de pessoas à morte anualmente: muito mais simples seria construir separadamente as vias aéreas e digestivas, em paralelo. Portanto, por que um design tão desastrado e ineficaz, por que os tetrápodos foram construídos de maneira tão ineficiente? A resposta é bem simples: porque nós não fomos construídos. Esse design infeliz é fruto de uma série de eventos históricos, e deve ser compreendido como tal.

Posição do pulmão (ou da bexiga natatória, dele derivada) em diferentes tetrápodos.

Para simplificarmos a história (quem quiser ler mais a esse respeito deve consultar um bom livro-texto de zoologia ou de evolução), o surgimento do pulmão nos ancestrais dos tetrápodos, ainda na água, se deu ventralmente; assim, os pulmões são estruturas que afloram ventralmente a partir do tubo digestivo. Mesmo que em seguida os pulmões tenham se movido para o mesmo plano do esôfago, ou mesmo para dorsalmente a esse, a traqueia surge ventralmente da hipofaringe. Esses ancestrais respiravam pela boca, situação em que não há diferença entre a posição ventral ou dorsal dos pulmões. Quando se deu a lenta transição da vida na água para a vida na terra, esses ancestrais pulmonados se achavam numa situação em que o ar estava acima deles, e a água abaixo (imagine um crocodilo flutuando num lago). Assim, as aberturas nasais passaram a se comunicar com a cavidade oral, permitindo que o animal respirasse de boca fechada. Contudo, estava estabelecida uma das estruturas mais desastrosas dos tetrápodos, que irá os assombrar pelos próximos 380 milhões de anos. Há diversos textos sobre esse assunto, escrito por zoólogos e biólogos evolutivos. Porém, procurando pela internet, achei esse interessante artigo, escrito por um médico, que explica a seus colegas de medicina as razões históricas desse design. Convém lembrar que médicos não têm treinamento em biologia evolutiva, o que devemos desculpar, dada a quantidade massiva de informação que seus estudos já contém (aviso para quem for ler o artigo: em medicina, anterior é o que nós em biologia chamamos de ventral e posterior é o nosso dorsal, superior é nosso anterior e inferior é nosso posterior).

Das nossas células fotorreceptoras voltadas para o lado errado (para a nuca ao invés de para a pupila, de onde vem a luz!) à Rubisco que adiciona oxigênio à ribulose, a natureza está repleta desses exemplos de estruturas desastradamente mal feitas. E aqui reside a beleza da coisa: essas estruturas, que devem ser compreendidas dentro de um contexto histórico, são excelentes evidências de que nós não fomos construídos, de que nós não fomos deliberadamente planejados; ao contrário, somos frutos de processos históricos, que chamamos de evolução.

Não pude deixar de lembrar de um interessante e bem humorado artigo da Scientific American, bem antigo por sinal, em que os autores imaginam como seria o ser humano se fosse criado do zero, numa prancheta de engenheiro, e feito para durar. O PDF desse artigo pode ser baixado aqui.

Por fim, gostaria de indicar um vídeo interessante sobre esse assunto. Estava eu lendo a coluna Dúvida Razoável, em que se discute exatamente o caso do olho dos vertebrados (convém notar que o olho dos cefalópodes tem as estruturas nas posições “corretas”), e lá achei esse vídeo do físico Neil Tyson (antes que perguntem, é ele mesmo, o sujeito daquela imagem – recuso-me, em respeito ao Dawkins, a chamar essas imagens de memes – conhecida como “Ui, que medo”):

 

Neil Tyson mistura duas coisas diferentes nesse vídeo, a hipótese antrópica e o design inteligente, atacando ambos. Gostei bastante do nome que deram (não consegui descobrir quem cunhou o termo), design estúpido, em resposta a essa balela chamada design inteligente.

A gente sofre, mas a gente ri…

6 comentários sobre “O design estúpido

  1. Essa é a primeira referência que vejo à “design estúpido”. Me lembrarei deste “conceito” nas próximas conversas. Gosto muito de exemplificar as “falhas” no “nosso projeto” para questionar o criacionismo, pena eu não ter a sua bagagem Gerardo.🙂

  2. Se não há design então observe a complexa e densa maquinária genética e bioquimica no intracelular, e comece explicando a evolução do ciclo de krebs, se é que é possível

  3. Pode-se estabelecer a verdadeira diferença entre os dois estudos: o chamado “projeto inteligente” é uma leitura científica, uma dedução a partir do que a natureza mostra a especialistas em biologia celular; a “evolução das espécies”, um espetacular exemplo da imaginação fantasiosa.

    • As ciências naturais são necessariamente naturalistas e materialistas por conta de uma NECESSIDADE METODOLÓGICA. Para funcionar, a epistemologia das ciências naturais precisam se apoiar nessas premissas. José Seabra, para refutar a “evolução das espécies”, termo usado pelo senhor que aliás é vago, é simples: mostre um organismo vivo cujo pool genético não muda. Como refutar “projeto inteligente”? A pergunta que se deve fazer nem é essa, a pergunta que se deve fazer é: seria o “projeto inteligente” passível de ser investigado via metodologia de análise materialista, que é prerrogativa das ciências naturais? Eu chego à conclusão que não. É passível, sim, de ser discutido em outros campos epistemológicos, da metafísica à teologia, mas as ciências naturais não. Por favor, se puder, mande artigos científicos que passaram pelo crivo do peer-review produzidas por especialistas da área de biologia celular que testa empiricamente o “projeto inteligente”. Grato.

      • Filipe, o intracelular apresenta-se como consequência de projeto, mas fica impossível por enquanto saber que é que projetou vida; talvez mais adiante a ciência tenha uma resposta, uma explicação se não total pelo menos parcial – e explicação natural, não metafísica. Mas a nossa discussão diz respeito mais exatamente à divulgação da palestra “stupid design” do cientista norte-americano; daí sugiro que leia o texto “inteligência”: procurar em “chezsilvia”, clicar em “diversos” e procurar pelo título “inteligêncfia”.

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