A evolução da palavra evolução

Eu já fui muito mais chato e intransigente em relação às vicissitudes dos nomes e das palavras; poderia até dizer que eu me comportava como um “purista da língua”, coisa que hoje em dia acho uma bobagem. Devo essa mudança à minha mulher e à leitura de Steven Pinker.

O fato é que o significado das palavras muda com o passar do tempo, o que equivale a dizer que as palavras mesmas mudam. Bizarro, por exemplo, num passado remoto já significou bonito, elegante, charmoso. Hoje em dia, como qualquer um sabe, significa estranho, peculiar, diferente, com um tom levemente pejorativo. Usar o significado original de uma palavra não só provocará mal-entendidos facilmente evitáveis como suscitará a própria discussão do que vem a ser um significado original.

Evolução é um desses termos, cujo significado atual difere consideravelmente do significado anterior, para não falarmos de um significado original. É fato bem conhecido dos biólogos evolutivos e daqueles que gostam de estudar biologia evolutiva, por fruição ou deleite apenas, que o termo evolução já havia sido cunhado e já era usado antes do surgimento da biologia evolutiva como ciência, que podemos localizar no século XIX.

O substantivo evolução surge a partir do verbo evoluir, que por sua vez vem do latim evolvere, que significa desenrolar, no sentido de desenrolar um livro, desenrolar um pergaminho. Entre os biólogos, o primeiro uso da palavra evolução, que podemos atribuir a Charles Bonnet em 1762, foi para se referir ao processo ontogenético, o desenvolvimento embrionário de um organismo. Portanto, o significado original da palavra evolução, em biologia, era o de desenvolvimento embrionário, ontogenia, ou seja, o desenrolar dos eventos que levavam à formação de um organismo adulto, a partir de uma célula formadora.

Além desse significado de desenvolvimento embrionário, a palavra evolução, no sentido de desenrolar, estava associada à ideia de progresso enquanto melhora, enquanto aprimoramento. Provavelmente por essa razão Charles Darwin não usa o termo evolution uma única vez sequer em seu “On the origin of species” (havendo uma única ocorrência de uma forma verbal, evolved, no último parágrafo do livro), preferindo denominar aquilo que atualmente chamamos de evolução como “descendência com modificação”.

Charles Bonnet, naturalista suíço.

Foi a partir do século XIX (mais precisamente em 1832, com Charles Lyell) que o termo evolução passou a ter o significado atual, o de evolução biológica. Mas as vicissitudes do termo e as reminiscências de seu significado anterior trazem uma série de problemas, e não seria exagero pensarmos que um termo novo e inédito, uma palavra cunhada especificamente para designar esse processo, se faz necessário. Por quê?

Em primeiro lugar, só o fato de eventualmente precisarmos adjetivar o termo e falar evolução biológica no lugar de simplesmente dizermos evolução já deixa evidente a existência de uma polissemia indesejável. O raciocínio é que, se há evolução biológica, é porque há outros tipos de evolução, sendo a evolução biológica um caso especial. E, se é assim, fica montado o cenário para que haja confusão sempre que usarmos o termo evolução sozinho, sem adjetivá-lo.

Em segundo lugar, ainda há muitos campos da ciência que usam o termo evolução no seu significado original, e um dos exemplos são as várias áreas da medicina. Em medicina, evolução, ciclo evolutivo e outros termos correlatos não se referem àquilo que compreendemos como evolução biológica, e sim ao desenvolvimento, à ontogenia. Quando, por exemplo, falamos de “ciclo evolutivo do Ascaris”, estamos nos referindo ao desenvolvimento do verme, desde o ovo fecundado até as formas adultas na luz intestinal.

Por último, a associação entre a palavra evolução e a ideia progresso, de melhoria, de aumento da complexidade ainda é fortíssima, praticamente ubíqua (entre o publico leigo, principalmente). Não é à toa que as pessoas denominam a redução ou perda de uma estrutura numa determinada linhagem pelo incorreto e inexistente termo involução.

E então, que fazer? O ideal, como havia dito mais acima, seria cunhar um termo novo e inédito. É claro que um tal nome jamais substituiria a palavra evolução, tão fortemente enraizada (o que, contudo, não nos impede o agradável e inútil exercício de pensar e elaborar um tal termo). Portanto, uma vez que a criação de um novo nome para o processo evolutivo é inexequível, nos resta o esforço de tentarmos nos apoderar desse nome (assim como os astrônomos tentam se apoderar do nome astrologia), eliminando sua relação com o processo embrionário (algo relativamente fácil, se contarmos com a boa vontade dos médicos e dos autores dos livros de medicina) e com a ideia de progresso (algo bem mais difícil, pois não há como domarmos o monstro vivo que é a língua popular, a língua comum).

Fica aqui uma pergunta, para os criativos leitores dessa pequena nota: Que palavra poderia substituir evolução? Deixem seus comentários.

12 comentários sobre “A evolução da palavra evolução

      • O fato de ter sido usado anteriormente não significa que ele seja problemático. O termo “evolução” tem um significado usual na linguagem popular, fortemente ligado à noção de progresso. O termo “transmutação”, por outro lado, não incorre no mesmo erro.

        Lívia, isso não é um problema. O significado que o ocultismo ou qualquer outro misticismo possa atribuir à transmutação não é popular e não está ligado à ciência.

  1. É, também já tinha visto esse tipo de uso da palavra ‘transmutação’,
    mas sempre achei que remetesse a algo fantástico (fantasioso), cômico, meio ‘super-herói’… como se um ser se transmutasse instantaneamente em outro!

    Quase dá pra ouvir os Power Rangers: “É hora de transmutar (morfar)!”

    hehehehe

  2. É difícil se desfazer da palavra evolução, apesar da idéia de progresso que ela carrega. Não consigo pensar em nenhuma que pudesse se colocar no lugar dela. Talvez tenhamos que disseminar o real significado atual dessa palavra (para mim mágica!), pois o problema maior não está tanto na palavra, mas na compreensão do processo em si. Concordo…transmutar é meio alienígena.

  3. poderia dizer-se “curso natural” ou uma palavra que englobe esta ideia de curso natural.. (fluxo?) O curso natural de uma semente é tornar-se uma árvore como o curso natural da água que sai da fonte é chegar ao mar…
    Seja como for, ainda que se mude as palavras para dar entendimento. Será apenas uma questão de tempo para que novas deturpações ocorram. E a raiz do problema que origina deformações no significado da palavra, vai para lá da raiz da palavra. Por exemplo, preguiça, o medo de errar, o desejo de aceitação… são apenas um exemplo de características humanas que deformam o entendimento.

  4. Tenho um conceito espiritualista de que todos os seres vivos são manipulados geneticamente pela espiritualidade no proposito de modificação e melhoria, gerando como disse Dawin, uma geração com modificação, por isso ontogenia é mais próprio para definir a ocorrência sob essa ótica.

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