Porque a ciência é irrelevante

Todos nós temos nossos ídolos, nossos heróis (estando mortos, o termo se aplica mais adequadamente ainda). Nunca escondi que o meu, em ciências, é Konrad Lorenz. Contudo, há muitos e muitos outros excelentes cientistas, escritores e divulgadores, sem cujas obras eu não teria um décimo da formação científica que tenho. Richard Dawkins é bastante famoso entre os biólogos, dispensando maiores apresentações. Com Stephen Gould aprendi a construir uma introdução que não tem quase nada a ver com o tema do artigo (estou fazendo isso agora). Carl Sagan é um exemplo de divulgador científico, erudito e possuidor de uma escrita clara e agradável. Aliás, falando em escrever bem, não posso deixar de me lembrar de Freud: apesar de eu discordar de algumas de suas ideias, não há como não se encantar com sua prosa quase perfeita. Surpreendentemente agradável de ler é Darwin, que muitos (geralmente os que nunca o leram) creem ser indigesto e inacessível.

Entre esses há um fantástico divulgador das ciências, quem sabe o maior do século XX, que por ser físico é relativamente desconhecido entre os biólogos e os estudiosos da vida. Trata-se de Richard Feynman. Lembro-me da primeira impressão que dele tive quando li, há quase vinte anos, o “Física em seis lições”… Que clareza nas explicações, que analogias fantásticas, que facilidade em tornar clara a ciência! A partir de então Feynman tem sido uma referência para mim, desde seu “Lectures in physics” (que possuo, mas que não estou capacitado para ler; o camarada tem que comer muito feijão pra ser capaz) até “Deve ser brincadeira, Sr. Feynman”. Para quem não o conhece, eis aqui uma excelente oportunidade, uma entrevista que achei no Youtube; clique em CC para as legendas em português:

Bem, um dia desses estava a ler no seu “The pleasure of finding things out” (dei uma rápida procurada pela internet e creio não haver tradução em português) uma palestra intitulada “What is and what should be the role of scientific culture in modern society”, de 1964. Nela, Feynman expressa uma opinião com a qual, infelizmente, concordo plenamente, a saber: a ciência é irrelevante.

Como uma opinião dessas pode ter vindo de um cientista que, como poucos, lutou pela popularização e divulgação das ciências? Como eu mesmo, você se perguntaria, uma pessoa que fala tanto da importância da alfabetização científica (que, aliás, foi a razão que me levou a escrever meu livro sobre biologia evolutiva e, em seguida, a criar esse humilde blog), pode concordar com um absurdo desses? A resposta é simples: porque é verdade. A ciência é irrelevante para o homem moderno.

O que Feynman alega, é óbvio, não é que a ciência deva ser irrelevante para o homem moderno, nem que a ciência não tenha nenhum efeito na vida cotidiana, nem muito menos que há beleza em ser ignorante; ele está apenas constatando um fato: para o homem moderno, para a esmagadora maioria das pessoas, conhecer ou deixar de conhecer as ciências, ter ou não ter uma visão naturalista do mundo, ser ou não ser alfabetizado cientificamente não fará diferença nenhuma, ou quase nenhuma.

Se você não se interessa por ciência você dificilmente estaria lendo esse parágrafo (poderia até ter achado meu blog pelo Google, mas rapidamente mudaria para outra página). Então, suponho que você, leitor do meu blog, tenha ou esteja procurando ter o mínimo de alfabetização científica. Sendo assim, ponha de lado qualquer animosidade e tente perceber o que eu estou alegando, acompanhe-me em meu raciocínio. Imagine um homem comum, com uma profissão comum (que não requeira diretamente um saber científico). Posso pensar num motorista de taxi, num padeiro, numa garçonete, num advogado trabalhista, num designer gráfico de um jornal, num instalador de TV a cabo, num bancário, num operário de uma metalúrgica ou num bombeiro. Para essa pessoa comum, que diferença há entre ele achar que a Terra gira ao redor do Sol e ele achar que o Sol gira ao redor da Terra? Nenhuma, ou praticamente nenhuma. Que diferença há entre ele saber que o DNA contém instruções para a síntese de suas proteínas e ele não saber disso? Que diferença há entre ele achar que a Terra tem 4,5 bilhões de anos e ele achar que a Terra tem 100 milhões de anos, ou 10 mil anos? Que diferença há entre ele achar que homens e chimpanzés compartilham um ancestral comum e ele achar que é parente de um tijolo, tendo sido moldado em barro? Mais uma vez, nenhuma.

Não estou dizendo que eu ache isso bonito, muito menos que me alegre com o atual estado das coisas. Contudo, tenho que admitir, é assim!

Há uma passagem dessa palestra de Feynman que gostaria de reproduzir aqui, para tirar dela uma conclusão preocupante e pessimista. Feynman está imaginando o que aconteceria se Galileu fosse transportado para os dias de hoje:

And now finally, as I’d like to show Galileo our world, I must show him something with a great deal of shame. If we look away from the science and look at the world around us, we find out something rather pitiful: the environment that we live in is so actively, intensely unscientific. Galileo could say: “I noticed that Jupiter was a ball with moons and not a god in the sky. Tell me, what happened to all the astrologers?” Well, they print their results in the newspapers, in the United States at least, in every daily paper every day. Why do we still have astrologers?

Isso é absolutamente preocupante. Foi dito em 1964, mas se aplica a 2012. Todos os jornais que já li no Brasil, absolutamente todos, têm um horóscopo. E, até onde me lembre, todos os jornais estrangeiros que já li também. Como podemos justificar um absurdo desses, em pleno século XXI? Como as pessoas podem achar que a posição relativa de planetas distantes, no dia em que elas nascem, pode interferir ou determinar eventos futuros, concepção essa que qualquer experimentação científica e qualquer análise estatística as mais elementares mostram sem qualquer sombra de dúvida tratar-se de uma balela sem pé nem cabeça? Se as pessoas tivessem o mínimo de alfabetização científica os horóscopos seriam curiosidade de um passado relativamente vergonhoso. Mas muitas delas não têm. E isso pouco afeta suas vidas, pois para elas a ciência é irrelevante.

Todos nós somos sabedores da importância da alfabetização científica, para que possamos deixar para trás esses absurdos medievais, desde os horóscopos até as rezas curadoras. Porém, como convencer o homem comum, o público leigo, a se alfabetizar cientificamente, se para ele, para o homem moderno comum (principalmente aquele preocupado em resultados práticos, imediatos), isso vai fazer pouca ou nenhuma diferença?

10 comentários sobre “Porque a ciência é irrelevante

  1. Acho que isso é ( e continuará sendo por um bom tempo ) um desafio, principalmente em se tratando de Brasil, pois já é algo impresso na cultura. O brasileiro é criado desde cedo a acreditar no mais prático, e não só se tratando de ciência. O brasileiro não tem o costume de checar o manual quando compra um eletrodoméstico por exemplo, mas prefere confiar na palavra do vendedor, se algo der errado é com o vendedor que ele irá gritar, e irá se indignar se isso não for coberto pela loja física onde comprou.
    O maior desafio acredito ser para os professores, que por mais que passem todo seu amor pela ciência para os alunos, serão desestimulados por estarem cercados de outras pessoas que acreditam que a ciência é algo inútil. E quando na escola os alunos são apresentados à matérias que fogem do prático (ex:quando saem do 2 x 4 e aprendem báscara) muitos acabam desistindo e desmerecendo, pois não irão precisar disso na hora de aplicar seu dinheiro, por exemplo. Falo do Brasil por ser o único país que tenho conhecimento real, mas sei que não difere tanto em outros países. É como apontado no texto: o brasileiro se desinteressa pela ciência,a menos que esta tenha um resultado palpável em sua vida.

  2. Muito interessante teu texto, porém discordo com você em um ponto. Assim como você, eu não acredito em horóscopos ou rezas curadoras que você chamou de “absurdos medievais”, entretanto acredito que devemos respeitar a crença de cada um. Se a pessoa acredita que vai ficar curada por meio de uma reza, deixe-a rezar, não tome isso como um absurdo que deveria ser abolido. Você deve também saber que já existem estudos que comprovam que faz bem ter fé, seja em Deus, Alá, Sol, ou até mesmo num copo d’água, pode até ter apenas efeito placebo, mas faz algum efeito. Era isso, no mais, parabéns pelo texto!

  3. Muito bem colocado. Mesmo que elas não achem importante a ciência, elas ainda assim dependem dela em quase todos os aspectos de sua vida. Afinal o que temos hoje é fruto de estudos e dedicação de nós, cientistas.

  4. gostei do artigo altamente é interressante, mas o que acontece,principalmente no meu pais,nao sei nos restantes é o egoismo por parte daqueles que tiveram oportunidade de ter conhecimento cientifico em transmitir para aquele que nao tiviram por diversas causas tais como carencia e outras formas .Por isso mesmo os padeiros, sapateiros e outros seguem as cegas as curas religiosas e outras foram de crencas como disse.

    A forma como aborda este tema cria muita sensiblidade o que poderia ajudar a comprender muita coisa. Mas o delima é este, nem todos tem acesso a este meio e outros nem sabem utilizar. se todos aqueles que tem conhecimento de usar a internet podessem transmitir este conhecimento aos que nao tem poderiamos incurtar o caminho do analfabetismo cientifico.

  5. Adoro ciências, acompanho o seu blog com muito entusiasmo via reader e essa é a primeira vez que comento porque, bom… sou técnica em comércio exterior e, teoricamente, estaria nessa categoria que você usou pra classificar pessoas pra quem a ciência seria irrelevante.

    Eu poderia dizer que, o comércio exterior deve ser tão irrelevante pra você quanto a ciência seria pra mim. Digo, regras, normas, avanços, imposto de importação, Mercosul… talvez você saiba sobre tudo isso, mas esse tipo de conhecimento é irrelevante pra você e pra boa parte da população. Por exemplo, existe alguma reflexão intra sociedade se o Mercosul é um modelo bom ou não (e olha que é algo bem importante)? No máximo os diretamente interessados são capazes de se posicionar, enquanto que a maioria das pessoas vai acreditar na primeira revista sensacionalista que ler ( o que pra mim equivale a ler o horóscopo)…

    O que estou dizendo é que se a leitura de horóscopos é uma afronta pra ciências, pode saber que todos os outros ramos do conhecimento são afrontados diariamente com máximas como “direitos humanos é coisa de quem quer defender bandido”. Creio que o problema não seja a irrelevância da ciência, mas sim a irrelevância de se conhecer com mais profundidade qualquer tema, ou, principalmente, a irrelevância de ser crítico em relação a qualquer coisa que esteja fora do seu quadrado.

    Bom, o meu quadrado é comércio exterior e por isso mesmo tenho a humildade de reconhecer que outras pessoas sabem mais sobre eu em determinados assuntos. Por isso acompanho seu blog, afinal você melhor capacitado pra falar de evolução do que o meu vizinho… Mas é por isso também que leio sobre direitos humanos (e tantas outras coisas), pra não desmerecer o trabalho de pessoas que estudam e debatem sobre o tema há anos, mas que acabam sendo diminuídas por pessoas cheias de opiniões pré-concebidas.

    Enfim, pra mim, a chave é sempre ouvir os especialistas, gente que leu e estudou determinado assunto em profundidade.

    E como mulher comum, leiga em ciências mas talvez com um mínimo de alfabetização científica, creio que para termos uma sociedade em que a busca por um conhecimento menos leigo seja algo relevante de fato, é preciso que essa postura seja estimulada desde cedo, nas escolas. Quando se aprende desde cedo a se ter uma postura crítica e duvidar de verdades absolutas proferidas por pessoas sem base alguma, não importa em que ramo você venha a se especializar no futuro, você vai saber separar o joio (opiniões leigas, sem fundamento algum), do trigo (conhecimento científico).

    Abs!

  6. Concordo quando colocaram que a comunidade não tem idéia e pensa que não precisa da ciência, mas o resultado da ciência nos cerca nesse mundo que diz não necessitar dela. E quanto mais entendedor, mais seríamos questionadores e menos manipulados. Também é uma questão política? Porque o que seria do nosso mundo hj (mesmo com a grande massa da população sem entender ciência) sem o resultado da nossa ciência?

  7. Horóscopos de jornais são uma comédia. São uma vulgarização da astrologia feia e bruta. Já a astrologia, como outras abordagens ao longo da história, pelo mundo inteiro, são tentativas de categorizar e ordenar padrões que se vão observando. A nossa tentativa de dar ordem/entendimento a este caos/mistério que é o mundo. É certo que utiliza metáforas e uma linguagem desajustada à nossa época e consequentemente ao nosso entendimento. A psicologia saiu do mundo das bruxas, arduamente, pela revisão dos pares, a estatística e o forjar técnico da linguagem. Na astrologia e outras técnicas a revisão dos “pares” tem vindo a ocorrer, a estatística também, o forjar técnico da linguagem nem por isso.

  8. Caro Gerardo, também tinha `quase´ a mesma opinião sobre Astrologia (comédia ou enigma?), até que me deparei com a descrição sensorial – e, portanto – biológica, dos caracteres astrológicos. A partir deste ponto, … a surpreendente Biologia Evolutiva do Desenvolvimento (EVO DEVO) tem me auxiliado a reparar o erro acima. O resultado está no site:
    http://www.adiferencaanimalhomemnodna.com.br

    Caso leia com atenção tibetana, os três passos sublimes … da janela GENES COMUNICACIONAIS, quem sabe não mude de idéia !?

    Abraços.

  9. Ótimo texto, mas que infelizmente isso que Feynman falou é verdade. Tive muita curiosidade de Biologia evolutiva e achei seu blog e a estou achando em incrível. Acho a Astronomia realmente fascinante e é uma pena que jornais prefiram falar sobre Astrologia do que uma ciência tão legal.
    Abraços.

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