Não ao Descartes-Rei

Devo iniciar essa brevíssima nota esclarecendo que não tenho nada contra Descartes pessoalmente. Nem poderia tê-lo, uma vez que 4 séculos e 10 mil quilômetros nos separam, ou seja, nunca o conheci. Quando ataco algo que ele disse (ou escreveu) estou investindo contra a opinião, e não contra a pessoa, que não são a mesma coisa. Do mesmo modo, você pode discordar dessa postagem, ou mesmo do blog inteiro, sem me conhecer ou ter qualquer opinião em relação à minha pessoa (é claro que, quanto mais você discorda das minhas opiniões, mais você antipatiza comigo, mesmo sem nunca ter me conhecido. Isso, porém, é apenas uma consequência).

Os argumentos de autoridade foram e são bastante comuns, infelizmente. Aristóteles disse que os planetas são esferas perfeitas, e essa foi a verdade durante os próximos 1800 anos. Quando Galileu mostrou que a superfície da Lua era irregular (a lua é um “planeta” na astronomia clássica) não foram poucos os que disseram que ele estava equivocado, pois estava contrariando Aristóteles. De nada adiantava ele mostrar imagens em seu telescópio, fazer desenhos, trazer a Lua puxando-a com uma corda e esfregá-la no nariz do cidadão: Aristóteles não havia dito que sua superfície era plana? Pois então ela é plana, ora bolas! Isso me faz lembrar a famosa frase “se os fatos não se adequam à teoria, tanto pior para os fatos…”

Então, quando você vai matar um porco ou um cachorro, mesmo que ele chore, gema, tente fugir desesperadamente, se contorça de dor enquanto você o esfaqueia e berre horrorosamente até que o último sopro de vida se esvaia, isso não significa que ele sinta dor, sofra ou tenha qualquer outra emoção… Por quê? Ora, porque Descartes disse que é assim, que animais não-humanos (um grupo claramente parafilético!) são apenas autômatos, desprovidos de qualquer estado mental interno. E fim de papo!

Essa bobagem cartesiana não veio se juntar à visão católica e judaica de que os animais não-humanos são apenas bens móveis, propriedade pública ou privada, desprovidos de “alma” e passíveis de qualquer tratamento que os seres humanos queiram lhes dispensar. Na verdade, essa bobagem cartesiana nasce dentro dessa visão católica e judaica, como é fácil perceber.

Explorando os estados mentais internos de abelhas a vacas, a etologia cognitiva está se tornando cada vez mais sólida.

E assim, pelos próximos quatro séculos, a autoridade cartesiana pairava (será que já parou de pairar?) sobre toda a pesquisa científica, sobre toda a biologia, sobre toda a zoologia, sobre toda a etologia. Já ouvi diversas vezes, de meus alunos, que “o homem é o único animal racional”. Bem, eu atribuo esse tipo de opinião mais à tradição cristã que a Descartes. Contudo, já ouvi meus colegas no mundo acadêmico, e não menos que uma dúzia de vezes, dizendo “animais (não-humanos) não têm emoção”, “animais não têm racionalidade”, “animais não sentem dor”, usando explicitamente o nome de Descartes como argumento de autoridade. Imagino que esses sujeitos sejam capazes de fazer vivissecções sem anestesia; porque não, já que animais não sentem dor?

A etologia cognitiva, ramo da etologia que, em poucas palavras, procura estudar os estados mentais internos dos animais, não é propriamente uma ciência nova, apesar de ter apenas uns 30 ou 40 anos (para quem não a conhece, aconselho os livros de divulgação científica de Mark Bekoff e Colin Allen, especialmente “Species of mind”). Contudo, tenho a impressão de que a etologia cognitiva está ganhando força, produzindo cada vez mais papers e sendo levada cada vez mais a sério no mundo acadêmico. Posso estar enganado, mas aposto algumas fichas que não estou.

Essa, portanto, é a razão desta breve nota: chamar a atenção para o progresso recente de uma área da biologia extremamente interessante e complexa. Abelhas com estados emocionais, vacas que demonstram compreensão de sua estrutura social, demonstrações de afetividade em galinhas, cachalotes que dão nomes umas às outras… Os últimos anos foram bastante prolíferos para a etologia cognitiva, e a tendência é que ela se torne cada vez mais sólida e cada vez mais importante. Que, do mesmo modo que Galileu e seu telescópio, a etologia cognitiva mostre que um argumento de autoridade não pode se sobrepor aos fatos e às análises científicas.

Quando Darwin publicou a “Origem”, começou a lenta mas inevitável morte desse conceito nefasto que é a scala naturae. Da mesma forma, eu espero que o amadurecimento da etologia cognitiva dê início à lenta morte dessa bobagem cartesiana, primeiramente no meio acadêmico, e em seguida na sociedade como um todo.

Post Scriptum 1: O título da nota é uma brincadeira com Foucault.

Post Scriptum 2: “Adequar” era um verbo defectivo. Era…

7 comentários sobre “Não ao Descartes-Rei

  1. Certo dia li um outro texto seu e fiquei curioso em ler outros. Alí no cantinho diz que seu objetivo principal é produzir divulgação científica. Lá também diz que as discussões parecerão óbvias para os especialistas. Não sou especialista e as idéias não me parecem óbvias. Talvez isso facilite que eu discorde de modo mais simples e direto, sem rodeios. Se me permite, aqui vai uma colocação que espero ser de ajuda:

    Em qual livro de Descartes está escrito que um animal não possui dor? É fácil encontrar comentários desses sem fonte alguma, assim como seu texto, mas saiba: essa discussão não é simplista como posta aqui e poderia se prolongar até mesmo pelo motivo de Descartes desenvolver sua concepção, que como as outras, tinha como objetivo ruir o edifício da tradição e construir tudo, desde os fundamentos. No caso, nessa discussão, na tradição continha a idéia de vida regida pela Escolástica, onde todo ser vivo é dotado de alma. Descartes, portanto, quis diferenciar o homem dos outros seres do ponto de vista antropológico, gnosiológico, ao mais cru, o biológico. A aposta de Descartes valia mais contra a não-diferenciação do homem no mundo, da vanidade de sua natureza e da miséria de sua razão – ocasionando em irrealizações no mundo pelo ceticismo, etc. Em suma: dizer que o homem se diferencia dos outros animais, para a época, é o primeiro passo.
    Concordo sobre o teor das autoridades no seu texto, mas pense bem: ele [seu texto] não está regido de ditos autoritários? Há um nível de submissão à autoridade que é aquele do sujeito não carregar o próprio pensamento, aceitando facilmente a opinião alheia. Sendo bem cartesiano nesse ponto, deixemos as diversas opiniões e vamos ao que interessa para que daí julguemos por nós mesmos, ou seja, o dito do próprio. Descartes escreveu em sua resposta às Sextas Objeções das Meditações Metafísicas:
    “(…) aqueles que me objetam afirmam que não acreditam que o modo como os animais funcionam possa ser explicado por meios mecânicos sem recurso a qualquer sensação, vida ou alma. Tomo isso como querendo dizer sem recurso a pensamento; pois aceito que os animais têm o que comumente se chama de ‘vida’ e uma alma corpórea e sensação orgânica.”
    Repito: alma (anima, movimento, sopro) corpórea e sensação orgânica. Lembra-se do que disse no começo sobre diferenciar o homem dos outros animais naquele contexto? Pois bem, a diferença é o pensamento, a consciência de si, o cogito – que no Discurso do Método, na Quinta Parte, essa diferença muito bem explicada. Afirmar isso não nega a sensação de dor nos animais, mas apenas que neles não há a consciência da dor. No plano cartesiano isso quer dizer: o animal expressa corporalmente a dor, mas não raciocina sobre a dor, maquina uma arma, e retorna dias depois para matar o agressor depois de esconder o corpo assoviando de prazer. Deixo pra ti um comentador de Descartes chamado Cottingham. Em seu livro “A Brute to the Brutes? Descartes’ Treatment of Animals” encontrará mais argumentos sobre. São 00:40 e não consigo pensar muito.
    Apenas olhe pelo telescópio de Galileu, e não esqueça de limpar a lente!

    No mais, você escreve gramaticalmente bem!
    Parabéns!

    • Olá, Ítalo, muito obrigado pelo comentário.
      Bem, queria inicialmente dizer que, se você reler o texto atentamente (não me entenda mal, não estou querendo ser grosseiro, essa coisa tão comum na internet ultimamente: estou pedindo de fato!), você verá que eu não escrevi que Descartes disse que animais não sentiam dor: eu escrevi que, para ele, animais não têm estados mentais (id est, teoria da mente), no 3o parágrafo. Porém, você está correto: quando falo de dor, um pouco antes no parágrafo, quis falar do uso que se faz de Descartes, e passei a impressão que Descartes é que havia dito isso. Peço perdão por não ter sido claro, foi uma inabilidade de escrita minha, quis fazer uma ponte entre “não ter alma” e “não sentir dor”, ponte feita pelos que usaram a obra de Descartes, mas não por ele próprio.
      De fato, em nenhum texto de Descartes ele diz explicitamente que animais não sentem dor. O texto de Descartes que deve orientar toda a discussão é bem claro, creio que você o conheça:

      It is also very worthy of remark, that, though there are many animals which manifest more industry than we in certain of their actions, the same animals are yet observed to show none at all in many others: so that the circumstance that they do better than we does not prove that they are endowed with mind, for it would thence follow that they possessed greater Reason than any of us, and could surpass us in all things; on the contrary, it rather proves that they are destitute of Reason, and that it is Nature which acts in them according to the disposition of their organs: thus it is seen, that a clock composed only of wheels and weights can number the hours and measure time more exactly than we with all our skill.

      Sim, conheço Cottingham, obrigado pela referência. Havia lido também um paper interessante, sobre essa demonização de Descartes em relação ao sofrimento animal (Descartes on animals, Peter Harrison: http://www.jstor.org/pss/2220217), muito bom. Novamente, peço desculpas por ter misturado o Descartes real com o uso que se fez dele nos séculos XVIII e XIX.
      Gostaria apenas de discordar de você em dois aspectos: Primeiro, ataquei os argumentos de autoridade, não a questão da autoridade, que inúmeras vezes é válida e deve ser aceita; meu texto pode ser autoritário, mas um “argumento de autoridade” (argumentum ad verecundiam) é outra coisa (por exemplo, “eu estou correto porque eu sou pós-doutor”). E quanto à relação entre dor e consciência: se não há consciência, a informação é uma nocicepção. Já a “dor”, para existir, requer a presença de estados mentais. Nem todos os filósofos concordarão com isso (que é uma premissa da etologia cognitiva). Mas, como eu escrevi no texto, isso talvez seja fruto dessa mesma tradição “cartesiana”.
      Sim, tenho que lembrar-me de limpar sempre as lentes do telescópio! Vez ou outra cometemos os mesmos absurdos que criticamos…
      Abraço.

  2. “No plano cartesiano isso quer dizer: o animal expressa corporalmente a dor, mas não raciocina sobre a dor, maquina uma arma, e retorna dias depois para matar o agressor depois de esconder o corpo assoviando de prazer.”

    É claro que sadismo e vingança são privilégios humanos, mas muitos animais reconhecem e sentem medo de pessoas que costumam agredi-los, podem desenvolver traumas e muitos são diagnosticados com depressão.

    • Vingança é privilégio humano? bem, meu cachorro não esqueceu o menino da vizinhança que o atormentava sempre que podia, vez que estando preso, meu cachorro só podia latir. Até que um dia….sem o menino ter feito nada, talvez tenha somente olhado para o cachorro SOLTO (!) e….o bichinho não viu mais ninguém, o alvo dele era somente o garoto….a sorte é que o menino foi rápido e se trancou no carro, tempo suficiente para eu pegar de volta o meu cãozinho. Mas, assustou….a mim também, porque nunca o vi tão determinado, segundos antes eu o havia agarrado com as mãos para evitar que se afastasse, mas ele me mordiscou para se soltar (ele nunca me ataca), ou seja, não seria eu que o impediria de seu revide…

  3. Descartes tenta salvaguardar os últimos traços de superioridade humana. É o que impede uma compreensão sólida da etologia hoje em dia. Ainda possuímos um forte dualismo plâtonico…nem mesmo cartesiano em voga.

  4. Concordo plenamente com o professor Gerardo Furtado que há 17 anos atrás foi meu professor em um colégio aqui em Fortaleza. O problema que advém de sua tese é que com que parâmentros podem ser realizados experimentos em animais, com o intuito de desenvolver a ciência

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