“Mentira” e outras palavras bonitas

Tenho um grande prazer, cujas origens me escapam, de conhecer e de brincar com a etimologia. Não o nego, apesar de ter certas razões para tal. Contudo, ao custo de um esforço deliberado, não sou daqueles que se apegam ferrenhamente ao significado primeiro da palavra (se é que há tal coisa) e que não compreendem que as palavras cambiam. Essas vicissitudes são, na verdade, uma das características mais interessantes das línguas e das linguagens.

Ainda assim, é interessante (pelo menos um passatempo mental) comentar sobre palavras que, ao longo de sua história, adquiriram um sentido completamente distinto do original (mais uma vez: se é que há tal coisa) e, em certos casos, diametralmente oposto. Lembro-me de bizarro, que já significou um dia elegante, nobre, pomposo, bonito, para atualmente situar-se em algum lugar perto de estranho, esquisito, feio e assustador.

Algumas palavras atualmente associadas a coisas ruins ou malévolas têm um sentido original bem diferente, e às vezes verdadeiramente bonito. Diabo, por exemplo, vem de διαβάλλω (diabálló), que significa “lançar através”, “transpor”, “separar”, “atacar” e “acusar”. O diabo, portanto, é um acusador. O mesmo ocorre com um exemplo bem mais famoso, Lúcifer, composto de “lux” e “fero”, adjetivo que significa luminoso, que dá claridade, que traz luz.

O fito desta presente e curta nota é falar sobre uma dessas palavras, associada atualmente a um defeito, mas cuja etimologia revela um sentido genuinamente bonito: mentir. Todos sabemos o que significa mentir, não perderei o meu e o seu tempo detalhando o que é uma inverdade, uma calúnia, uma falsidade. Meu intuito é outro: atentar para o fato de que “mentir” é uma capacidade cognitiva altamente complexa e elaborada, dentro das possibilidades evolutivas dos comportamentos das atuais espécies animais (que tenham sistema nervoso, é claro…). A beleza da palavra “mentir” é relativamente óbvia, para quem já parou para analisá-la: ela vem de mens, “mente”, que significa mente, espírito, inteligência, e por consequência: intenção, plano, projeto, razão, discernimento.

O que fica claro quando se percebe a conexão entre os vocábulos mentir e mente é que a mentira é um processo cognitivo que requer uma elaborada e complexa atividade mental; isso ocorre porque, para mentir, o indivíduo deve supor que possui uma informação desconhecida para outro indivíduo. E aqui chegamos ao ponto importante: para que uma entidade seja capaz de mentir, ela deve necessariamente ser capaz de supor um estado mental numa segunda entidade (aquela para a qual a mentira é dirigida), ou seja, ser capaz de possuir uma “teoria da mente” e demonstrar não apenas intencionalidade, mas uma surpreendente intencionalidade de terceira ordem! (Para quem quiser se familiarizar com os conceitos de “teoria da mente” e “intencionalidade” — não, não há relação com o significado cotidiano da palavra “intenção” —, aconselho que pesquisem no Stanford Encyclopedia of Philosophy) Possuir consciência já é uma realização evolutiva tremenda; ser capaz de atribuir a outrem consciência é algo mais espantoso ainda. Quando a mente para b, a não apenas determina que ele próprio possui uma informação que b não possui, mas principalmente a a determina que b possui um estado mental interno. Isso não é pouca coisa, em relação à complexidade do aparato mental capaz de realizar tal tarefa.

E por que me enveredei nesse caminho? Para, mais uma vez, lutar contra a noção estúpida, merofilética, anacrônica e infundada de Descartes, de que os animais não-humanos são apenas autômatos, desprovidos de qualquer capacidade cognitiva e incapazes sequer de sentir dor. As razões religiosas, sociais e filosóficas por trás desse pensamento são várias e vêm sendo bastante discutidas; interessa-me aqui apenas mostrar como a etologia cognitiva pode contribui para reformular essas balelas e crendices que infelizmente perduram em pleno século XIX.

Em primeiro lugar, convém tentar estabelecer um discurso mais adequado, do ponto de vista evolutivo. Apesar de defensor dos “direitos animais” e ativista (de meia tigela), não posso escrever coisas como “os animais têm sentimentos”. Esponjas também teriam, organismos que sequer têm tecido nervoso? E Mesozoários? E hidras? Claramente não. Portanto, para tentar estabelecer um grupo monofilético, quero falar apenas dos mamíferos. Gostaria de ter escrito “amniotas”, mas não tenho dados pra alargar dessa forma o grupo.

Não há muitas dúvidas, para quem analisa a coisa por um ponto de vista científico e deixa de lado seus escrúpulos religiosos, que a consciência é um fenômeno comum entre os mamíferos… De muitas espécies com certeza, possivelmente uma apomorfia do grupo, quem sabe até mesmo uma arqueomorfia (ou seja, grupos irmãos também teriam o caráter). Mas, levando-se em consideração o que foi dito sobre a mentira, não apenas a consciência é uma característica comum em mamíferos, mas a teoria da mente também.

A gorila Koko e um de seus vários gatinhos de estimação.

Diversos mamíferos mentem, desde a famosa gorila Koko (que se comunicava rudemente por sinais) até cães, sendo certamente os primatas o grupo mais bem documentado (uma vez que, quanto mais complexo o sistema de comunicação, mais eficaz é a elaboração da mentira). Ainda assim, o número de estudos é pequeno, e deve haver um vasto campo inexplorado de mentiras, blefes, engodos e pistas falsas… O que proponho aqui como ideia, para quem gosta de comportamento animal e anda meio sem criatividade para pensar numa linha de pesquisa interessante, é que se crie uma “etologia da mentira”, ou uma “etologia cognitiva da mentira”. O número de trabalhos é tão escasso que, mesmo entre os biólogos, não são poucos os que dizem “animais não pensam”, “só seres humanos têm consciência” e assim por diante. Serão esses a minoria? A maioria? Não saberei dizer.

Um maior número de artigos sobre esse tema não só melhoraria nossa capacidade de entender como animais não-humanos mentem como ajudaria a determinar se essa capacidade de mentir, tomando duas espécies, é uma homologia ou uma analogia. Além disso, com um maior número de estudos, poderemos determinar de forma cada vez mais correta o que é de fato mentira e o que não é: um lagarto que exibe tanatose quando o seguramos, apesar de aparentemente estar mentindo (ao se fingir de morto), pode muito bem estar apenas deflagrando um padrão motor fixo, não sendo necessárias aqui estripulias filosóficas como intencionalidade ou teoria da mente. Ao contrário, quando o tratador de Koko pergunta “quem mexeu aqui?”, e Koko responde “foi a gata” (sendo que foi Koko quem havia mexido, a gata era inocente!), temos um claro e inegável exemplo de mentira. De qualquer forma, a etologia cognitiva está apenas engatinhando.

E, por falar em engatinhando, convém notar que nem todos os seres humanos são capazes de mentir, para termos uma ideia clara de o quão complexo é esse comportamento. Estou me referindo a crianças com menos de 5 anos. Um experimento clássico é mostrar para a criança dois bonecos, Alice e Bob, e duas caixinhas coloridas. O palco da encenação pode ser uma mesa. Alice põe uma moeda na caixinha vermelha, e sai do palco. Em seguida Bob tira a moeda da caixinha vermelha e põe na caixinha azul. Quando Alice volta, o experimentador pergunta à criança, “em que caixinha Alice procurará a moeda?” Todas as crianças respondem “a caixinha azul”, porque elas não compreendem que a informação que possuem é ignorada por Alice. Desta forma, a criança crê que o que ela sabe é do conhecimento de todas as outras pessoas, sendo incapaz, portanto, de mentir. A partir dos seis anos as crianças percebem claramente que possuem uma informação (Bob trocou a posição da moeda) que Alice desconhece, e respondem “a caixinha vermelha”.

Não quero dizer com isso que a ontogênese humana reviva a filogênese desse caráter. A ontogênese não revive a filogênese. Essa, por enquanto, é uma tecla na qual não devemos nos cansar de bater.

3 comentários sobre ““Mentira” e outras palavras bonitas

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