O teste do canário

Traduttore, traitore. A primeira e única vez que me deparei com esse ditado italiano foi lendo “Os chistes e sua relação com o inconsciente”, há muitos e muitos anos, mas até hoje me lembro dele. Bem, para fazermos justiça, se não fossem os tradutores não teríamos acesso a uma quantidade formidável de obras indispensáveis. A maioria de nós não lê em inglês, muito menos em alemão, italiano ou francês. E o que dizer do russo, do latim, do grego, do japonês ou do árabe?

Ainda assim, o tradutor (eu juro que quase escrevi traidor!) é um mal circunstancial, que deve ser descartado sempre que possível. Quem quer que saiba inglês percebe que não há tradução, nem a de Fernando Pessoa nem a de Machado de Assis, que seja o mesmo (e como seria possível ser?) que ler “The Raven” no original. Tenho o imenso prazer (resultado de um imenso esforço) de ler Platão em grego (Aristófanes, infelizmente, está muito acima de meu nível…), e posso dizer que não há como pintar, em português, as cores que só o grego é capaz. Não estou afirmando aqui, em hipótese alguma, que existam pensamentos e imagens mentais que só são capazes em uma língua, como naquela bobagem do “só é possível filosofar em alemão”. O grego tem o neutro, o português não; ainda assim, todos nós entendemos a noção do neutro (do mesmo modo que os anglófonos conseguem entender o conceito de adjetivos masculinos e femininos, mesmo inexistindo tal distinção no inglês). Sou da opinião, portanto, que a estrutura linguística do pensamento humano é similar em todos os membros da espécie. O que estou dizendo é que há particularidades em cada língua que se perdem irremediavelmente quando se faz uma tradução. Em relação ao grego, por exemplo, como traduzir o aoristo, o infinitivo futuro, a beleza do uso do particípio como sujeito ou mesmo a sonoridade dos casos (que no grego são cinco) para o português? Assim, vou chover no molhado: O ideal é ler no original.

Mas a coisa fica bem mais grave quando há uma tradução da tradução! Aí não há alternativa senão evitar a leitura, a não ser que ela seja urgentemente necessária. Lembro-me que passei um bom tempo sem ler os irmãos Karamázov, como uma série de outros livros de Dostoiévski, pois simplesmente me recusava a ler uma tradução de uma edição em francês traduzida do russo, uma tradução de uma tradução. Até que Bóris Schnaiderman, Paulo Bezerra e outros vieram melhorar a situação, com traduções diretamente do russo. E por que cheguei à questão de traduções de segunda ou terceira mão?

Estava um dia desses a passear pela internet quando me deparei com o excelente blog Não gosto de plágio, escrito por Denise Bottmann. Comecei a clicar aqui e ali, até que encontrei uma seção sobre Darwin. Isso mesmo, ela não escreveu uma postagem apenas sobre a sofrida e maltratada Origin of species: há uma seção inteira, e a novela é longa! Para quem quiser ler, eis aqui o link.

Foto de um exemplar da primeira edição de "On the origin of species" (Fonte: The complete work of Charles Darwin online, http://darwin-online.org.uk/).

Tenho uma versão da “Origem” em português, da editora Hemus, mas nunca a li. Já sabia previamente que todas as traduções existentes em português haviam sido feitas a partir da sexta edição da “Origem”, e por isso mesmo resolvi que, se iria ler a “Origem”, deveria ser a primeira edição, a de 1859, indiscutivelmente a melhor das seis que Darwin escreveu (as justificativas disso podem ser assunto para uma postagem futura). Com isso em mente, fiz uma procura na Amazon e descobri um fac-símile da primeira edição, feita pela Harvard University Press, que comprei imediatamente. Até hoje, é a única edição que eu li da “Origem”. Há um link para ela na seção prateleira.

Porém, o que eu ignorava redondamente é que a edição em português que eu tenho, juntando poeira em minha estante, não é uma tradução do inglês, e sim uma tradução do francês! Mais estarrecedor ainda foi saber que não apenas a edição da Hemus, mas a da Ediouro, a da Folha de São Paulo e muitas outras são cópias da mesma tradução feita a partir do francês, tradução esta elaborada em 1913 por Joaquim da Mesquita Paul.

O fato curioso é que nosso finado tradutor não parecia ter uma afinidade muito grande com o francês: em sua versão, ele traduziu canard como canário. Acontece que, em francês, canard significa pato! Canário, em francês, é canari, palavra que por sinal vem do latim para “cachorro”, mas isso é outra história… Creio que nosso amigo achou que pato em francês fosse pateau, ou alguma coisa do tipo. Que fiz eu, então? Abri minha edição da Hemus e achei, na página 25, uma encantadora passagem onde se lê que os ossos da coxa pesam mais no canário doméstico que no canário selvagem! Que maravilha!

Eis aqui o texto original de Darwin, a tradução francesa e a tradução portuguesa, feita a partir do francês:

  • Original (sexta edição): Changed habits produce an inherited effect as in the period of the flowering of plants when transported from one climate to another. With animals the increased use or disuse of parts has had a more marked influence; thus I find in the domestic duck that the bones of the wing weigh less and the bones of the leg more, in proportion to the whole skeleton, than do the same bones in the wild duck.
  • Tradução francesa: Le changement des habitudes produit des effets héréditaires ; on pourrait citer, par exemple, l’époque de la floraison des plantes transportées d’un climat dans un autre. Chez les animaux, l’usage ou le non-usage des parties a une influence plus considérable encore. Ainsi, proportionnellement au reste du squelette, les os de l’aile pèsent moins et les os de la cuisse pèsent plus chez le canard domestique que chez le canard sauvage.
  • Tradução portuguesa (Mesquita Paul, 1913): A mudança dos hábitos produz efeitos hereditários; poderia citar-se, por exemplo, a época da floração das plantas transportadas de um clima para outro. Nos animais, o uso ou não uso das partes tem uma influência mais considerável ainda. Assim, proporcionalmente ao resto do esqueleto, os ossos da asa pesam menos e os ossos da coxa pesam mais no canário doméstico que no canário selvagem.

Imagine quantos outros absurdos não devem existir ao longo dessa tradução medonha! Tentei fazer uma pesquisa, mas não consegui descobrir se existe em português uma tradução da “Origem” feita diretamente do inglês (essa língua tão exótica e incomum, com tradutores tão difíceis de serem encontrados). O blog Não gosto de plágio diz que a tradução da editora Itatiaia foi feita diretamente do inglês, mas não pude verificar isso ainda. Por enquanto, fica aqui a dica: Faça o teste do canário. Se você tem uma tradução das origens, procure, no capítulo I (“Variação das espécies no estado doméstico”), pelo primeiro parágrafo da seção “Efeito dos hábitos e do uso ou não-uso das partes”, parágrafo esse que começa com “A mudança dos hábitos produz efeitos…”. Muito bem: se lá estiver escrito “canário doméstico” e “canário selvagem”, você é o infeliz proprietário de uma tradução não apenas tosca como nem mesmo feita a partir do original.

Deu até vontade de traduzir a “Origem” agora… Se você, fortuito leitor deste post, é um editor em busca de uma novidade no ramo, taí uma boa oportunidade! Dá pra fazer uma publicidade interessante, algo como “pela primeira vez no Brasil uma tradução feita a partir do original inglês”… E eu cobro baratinho!

3 comentários sobre “O teste do canário

  1. prezado gerardo: que ótimo teste, sem dúvida infalível! é inominavelmente ridícula a história dessa tradução d’a origem das espécies…
    obrigada pela gentil menção ao nãogostodeplágio.

    um abraço
    denise

    • Oi Denise, tudo bem?
      quem estuda biologia evolutiva, e principalmente história da biologia evolutiva, já é bem familiarizado com as diferenças entre as seis edições da Origin of species (até mesmo o título mudou de uma edição para outra, quando o Darwin retirou o “on” inicial!), há inclusive muita gente que estuda cada modificação que o Darwin fez, as razões que levaram-no a fazê-las etc… É indiscutível, pra quem estuda evolução, que a edição a ser lida é a primeira, e é por isso, como disse no post, que só li meu fac-símile da primeira edição (o inglês do Darwin é super limpo e bastante agradável de ler), e nunca dei atenção às traduções em português, pois são todas traduções da 6a edição (reconhecidamente a pior!).
      Mas eu não tinha a menor ideia de quão assustadora é a situação das traduções da “Origem” até ler seu blog!!! É um negócio de dar nojo!
      Mais uma vez, parabéns pelo seu site. Tenho acompanhado os processos judiciais, adorei ler a carta do Ministério Público…
      Abraço,

  2. Meu caro,
    Sou um economista reformado, que estou lendo a Origem das Espécies, na tradução do senhor indicado. Pois bem, a sua nota confirma a minha impressão de que não estava a ler uma boa tradução, e que necessitava de ler o livro na língua original. Obrigado.

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