A idade média é agora: uma pequena nota sobre gatos

Até meados do século XVIII praticamente não havia uma história natural ou, em termos mais modernos, um estudo da natureza em que seus elementos fossem considerados por si só, independente de alguma relação que pudessem ter com o ser humano. De forma geral, não apenas a existência da natureza como um todo era encarada por um ponto de vista extremamente antropocêntrico (os demais seres vivos existiam com o único propósito de servir ao ser humano), mas o próprio mundo da vida selvagem encontrava-se repleto de “imagens especulares para as relações humanas”, como nos diz Keith Thomas em seu “Man and natural world”. Enquanto as plantas eram imbuídas de assinaturas, entre os animais encontrávamos as mais variadas facetas dos comportamentos humanos. Cada animal simbolizava uma qualidade ou um defeito dos homens.

Esses estereótipos, é bem claro, baseavam-se muito mais na herança literária grega, romana e principalmente medieval que na observação dos comportamentos reais dos animais (que, para o homem medieval e moderno seiscentista e setecentista, pouco ou nada valia – vide Cremonini e Galileu). Para George Cheyne, “raro é o animal[1], pássaro, réptil ou inseto que, em cada clima particular, não instrui ou censura a espécie humana de alguma verdade necessária para sua felicidade, seja no corpo ou na mente”. Assim, a raposa é astuta, a cabra é lasciva, a formiga é previdente. Para Oliver Goldsmith, o porco é repulsivo, o tigre é cruel e a doninha é impiedosa. A coruja é o símbolo da sabedoria e da magia, enquanto o sapo simboliza a avareza (pois, apesar de poder se alimentar de areia – assim se pensava na idade média – e ter abundância dessa ao seu redor, não a come). Em cada uma das gravuras que fez para os sete pecados capitais, Brueghel representou um animal ao lado do personagem principal: o asno para a preguiça, o urso para a ira, o peru para a inveja, e assim por diante (infelizmente, na excelente coletânea portuguesa que tenho de Brueghel, falta-me a gravura da luxúria). O vaga-lume representava o espírito santo, assim como a lagarta representava a ressurreição.

Como é bem sabido, cada um de nós tem uma opinião sobre si mesmo um pouco mais bondosa e positiva que a realidade; do mesmo modo, tendemos a ver nossa época como mais esclarecida e intelectualmente iluminada que épocas passadas. Mas, como infelizmente é bastante comum, costumamos perpetuar preconceitos e equívocos sem pensarmos muito a respeito, apenas por fazerem parte de uma tradição, por terem se instalado, devido à repetição incessante, naquilo que chamamos de “sabedoria popular”, e pelo fato de o repetirmos constantemente – o que, é óbvio, não faz um engano tornar-se uma verdade. Dessa forma, para um grande número de fatos sobre o mundo natural, comportamos-nos como o homem medieval: repetimos uma tradição literária equivocada e simplesmente não observamos a realidade. Esse é o caso das características (defeitos e, em menor grau, virtudes) que atribuímos aos gatos.

Atualmente associado à má sorte, a aparição de um gato preto era, há poucos séculos, sinal de boa sorte... (Fonte: Science Photo Library)

Quase tudo (o “quase” é apenas um recurso retórico para evitar críticas mais severas) o que dizemos sobre os gatos, ou que o “senso comum” diz sobre os gatos, é herança de uma simbologia clássica ou medieval, sedimentada através das gerações. Da simbologia vitoriana aos quadrinhos que abundam na internet (onde um cão diz “se os homens me alimentam, os homens devem ser deuses”, e o gato diz “se os homens me alimentam, eu devo ser deus”), uma por uma, todas essas características são derrubadas se pararmos para observar o comportamento real dos gatos. Sem antropomorfismos, sem paixões, sem preconceitos… Uma etologia direta e científica, para honrarmos Lorenz, Tinbergen e tanta gente boa que surgiu nos últimos setenta anos (mais ou menos o tempo de vida que a etologia moderna tem).

Vejamos:

Os gatos são traiçoeiros. Bem, eu nunca emprestei 50 reais a nenhum dos meus gatos. Nem pedi que algum deles vigiasse pra ver se uma visita limpava o nariz no sofá enquanto eu ia ao banheiro. Nem pedi a nenhum deles que segurasse a escada enquanto eu fazia um reparo no telhado. Portanto, não sei o que essa “traição” significa. Deixando o sarcasmo de lado, o que as pessoas querem dizer é que não podem confiar num gato, em relação a se o gato irá atacá-las ou não. Isso, contudo, reflete uma ignorância das pessoas em relação ao gato, e não uma traição desse. Quem quer que tenha convivido com gatos e os observado suficientemente para entender algumas de suas sinalizações não tem dificuldades nesse campo. Em todas as circunstâncias em que eu vi um gato se incomodar com carinhos humanos, em absolutamente todas, ficou bastante claro para mim que o gato estava incomodado e eu poderia prever, com razoável grau de acerto, se o gato iria morder, arranhar ou simplesmente fugir do ser humano. Basta saber perceber os sinais, que são bastante claros. Então os gatos não gostam de carinho, dirão alguns. Bem, se o ser humano gosta de se vangloriar de ser a mais inteligente espécie da Terra, é hora de fazer jus à fama: em primeiro lugar, deve-se ter em vista que encarar um gato, olhando-o diretamente nos olhos (coisa comum em quem faz carinho), é sinal de agressividade. Além disso, gatos gostam de carinho no pescoço ou no dorso, e com uma pressão maior; jamais na barriga, nem por períodos prolongados na mesma região.

Os gatos não demonstram contentamento. Mais uma vez, trata-se de não saber observar o comportamento de uma espécie dada. Muita gente, por exemplo, quando vê um chimpanzé mostrando os dentes, acha que ele está rindo; acontece que chimpanzés riem de outra maneira, aquilo não é um riso. Em relação a cachorros, muita gente associa a imagem da boca aberta à alegria, quando o cão está apenas termorregulando. Do mesmo modo, balançar o rabo não significa necessariamente alegria canina: cães balançam o rabo antes de atacar (mas para um lado e numa frequência distinta do balançar por alegria). Voltando aos felinos, gatos cumprimentam quando esfregam a base da orelha contra alguma parte sua; gatos beijam, quando olham para você e em seguida fecham lentamente as pálpebras, girando a cabeça para um dos lados; e, por fim, gatos demonstram claramente contentamento: a forma mais óbvia é contraindo e estendendo alternadamente os dedos das patas anteriores. O ronronar também está associado ao contentamento, mas aqui deve-se ter uma certa cautela: gatos ronronam nas mais diversas situações, inclusive após uma lesão grave.

Gatos têm apego pelo lugar, e não pelo dono. Essa é uma “verdade popular” divulgada principalmente por aqueles que defendem a (falsa) dicotomia “você gosta de cão ou de gato?”. Logicamente, cães e gatos têm comportamentos distintos, apesar de compartilharem uma série de homologias comportamentais (uma vez que o ancestral comum dessas duas espécies não está tão distante assim no passado). Um gato se adapta a um novo ambiente em poucas horas, ao passo que pode demorar dias ou semanas para se adaptar a um novo ser humano ou a uma nova família de humanos (isso quando ele se adapta!). O fato de gatos serem tímidos e, ao contrário de cães, não gostarem de seguir seus donos (ou tutores, para usar um termo mais adequado) pela rua diz respeito ao receio que os gatos têm de novos ambientes, e não a uma hipotética falta de amor pelos donos. Havendo condições adequadas e, principalmente, inexistindo fatores que os ameacem ou os amedrontem, os gatos estarão quase sempre perto de seus tutores. O fato de eles não manterem a proximidade que cães mantêm, nem a frequência de proximidade que os cães mantêm, em nada diminui esse apego. Pelo contrário: quando se compreende que cães (evolutivamente, lobos pedomórficos) são altamente hierárquicos e que gatos, mesmo castrados, podem manter sob sua tutela um território de mais de um quilômetro quadrado, nos impressionamos mais ainda com o apego que gatos podem demonstrar pelo seu tutor.

Gatos trazem azar. Bem, se você é supersticioso… A idade média é mesmo a sua época!

De certa forma, a relação do tema desta curta nota com a biologia evolutiva não é tão distante como se poderia julgar. Juntamente com outras mudanças paradigmáticas dos séculos XIX e XX, a biologia evolutiva é uma ferramenta extremamente poderosa para modificar nossa concepção do mundo, e especificamente nossa concepção das espécies não humanas.


[1] Perceba que o termo “animal” era usado para se referir aos mamíferos.

28 comentários sobre “A idade média é agora: uma pequena nota sobre gatos

  1. Texto espetacular, maravilhoso. Convivo com gatos e tudo que o autor expõe no texto é verdade. É uma companhia tão maravilhosa como a de um cão, lógico, com temperamento distinto. Viver ao lado deles é para mim fonte de Energia, Paz e Afeto. Abraços

  2. Texto impecável, excelente! tenho 4 gatos e 1 cão e todos se dão bem. Os gatos, cada um com personalidade distinta, me seguem, respondem quando chamo e vem até mim. Um deles fica sempre ao meu lado e vocaliza como se
    conversasse comigo. Gatos são muito companheiros sim. Att, Milene.

  3. Gostei muito, muito do texto! Faz um ano que convivo com um gato e desde sempre já sou muito apaixonada por ele. Este texto ajudou-me a entende-lo mais ainda. Ele me ensina a amar sem apego. Adoro esses “bichinhos de estimação”!

  4. Nino, antes de dormir o sono eterno, deu voltas pela casa, foi a cama, sofas, cadeiras, e depois aninhou-se no pequeno recinto, (digamos, uma área interna, onde em um canto ficava o local de sua tigelinha de comida e ao lado a de água, em outro canto distante, estava o recipiente de plástico, grande, cheio de areia, para suas necessidades),dava pequenos miados, fui até lá, com um baita nó na garganta, sabendo que a hora tinha chego, olhando fixamente para mim, cambaleando, veio até meu pé, onde recostou sua cabecinha, e olhando fixamente de novo, agora nos meus olhos, arfando, com meu calor a acaricia-lo, se foi………., lá se vão 02 anos, mas ele insiste em ficar grudado em minha memória.

  5. Realmente!
    Convivi e convivo com gatos (inclusive os de rua) a minha vida toda e tenho por eles uma grande afinidade, e a leitura do texto me deixou pensativa. Quantos pré conceitos em relação a esses seres! Quantas maldades são cometidas por causa disso!

  6. Convivo, há vinte anos, com gatos abandonados. Muitos são deixados próximo a minha casa, creio eu, de propósito. Aprendi muito com eles. Carinhosos e de personalidade forte, cada dia demonstram mais seu carinho, sendo pulando em meu colo quanto sendo ou subindo em minha cabeça para dormir (acreditem, eles fazem isso). Conversam comigo, resmungam quando me atraso e levam um pedaço do meu coração quando partem.
    As maiores traições sofri de seres humanos, ditos racionais e inteligentes, cujas marcas ainda trago comigo mas, dos gatos, nunca recebi nenhum golpe. As cicatrizes dos arranhões passam, a maldade humana não.

  7. Muito legal! Só um detalhe: 3 dos meus gatos se amarram em um longo carinho na barriga, um chega a se jogar no chão!
    O ideal é que quem NÃO GOSTA de gato ler. Quem gosta já sabe disso tudo, e é quem realmente se interessa em ler.
    Está muito legal este artigo! Adorei.

  8. O texto é ótimo! Acho que só faltou pontuar a questão da igreja católica, na época da inquisição. Nessa época o gato era um ser amaldiçoado, assim como as mulheres bruxas, que eram queimadas vivas. O gato na Grécia antiga era um ser adorado, venerano. Com a Inquisição, tudo mudou. Sou católica, mas abomino totalmente essa época em que muitas descobertas científicas ficaram prejudicadas por causa da Igreja Católica, assim como a figura do gato, ter se transformado em um ser traiçoeiro. O Padre Marcelo Rossi, que se acha tão pra frente, parece estar ainda vivendo nessa época.

  9. Gostei muito de como foi apresentado nesse texto o comportamento dos gatos.Amo os gatos desde crianca, tenho muita afinidade com eles, e entendo tudo que eles me transmitem, Voce realmente precisa ter muita sensibilidade pra lidar com eles, sao otimos companheiros. Nao tive depressao depois que minha mae se foi, porque a minha gata me dava me deu a maior forca. Me esperava todos os dias quando eu chegava do trabalho e me fazia companhia, sou muito grata a ela por ter me ajudado a superar essa dor com a companhia dela. Minha gata é preta e linda, nao tive o menor problema e nem nunca me deu azar, pelo contrario. Superticao pra mim é falta do que fazer.

  10. Boa tarde,

    Sou responsável pelo site do Gilberto Primavera, gostaria de saber se poderia compartilhar suas materias referente à animais, temos um blog chamado PET PRIMAVERA, onde replicamos materias sobre animais a ´nivel de informação. Aguardo contato por e-mail

    Att,
    Luciana Bessone.

  11. Muito bom… Sempre convivi com gatos e tenho ótimas referências desse animal tão incompreendido. Nunca na minha casa teve menos que cinco gato(a)s. Eles são diferentes sim… Porém uma diferença que só a convivência e observação nos faz ver. Eles são os animais mais carinhosos do mundo animal… gatos estão sempre se abraçando como nenhum outro animal faz com seus iguais… gatos tomam banho e dão banho o tempo todo como outros não fazem consigo mesmo e seus iguais… gatos dão sinal quando percebem iminente perigo ou algo estranho – são uma anteninha. Gatos por não se submeter demonstram uma personalidade de quem saber o quer e a hora quer fazer alguma coisa… gatos fazem companhia e percebem a tristeza de seu dono quando alguma coisa nos ocorre. Gatos são tolerantes com seus filhotes que a maioria de outros “pais”… Haja vista que uma gata-mãe deixa a seus filhotes mesmo já crescidos mamarem (eles tem a ilusão que mamam), uma mãe-cachorra desmama sua cria assim que nascem os dentinhos… Claro que gatos, cachorros, macacos, etc… São animais que tem comportamentos diferentes afinal são de espécies diferentes. Independe de gostar muito de gatos sem distinção de raça, todos que tive/tenho chegaram a minha porta maltratados, bebês e os aceite e só fui recompensada com grande dose de carinho. Nina uma gata que tive, me ajudou na criação de muitos bebês gatos que deixaram na minha porta, adotou todos eles os deixou mamar (incrível que conseguiu ter leite… ) viveu 15 anos (ela também foi deixar na porta) morreu a dois de câncer… seu último miado antes de virar estrela foi no colo. Teria muitas mais histórias para contar de gatos… mas fico por aqui… Os animais são definitivamente seres que trazem muitas alegrias e sorte tem o ser humano que já descobriu o quando pode ser feliz tendo em sua companhia um deles.

  12. Pingback: A idade média é agora: uma pequena nota sobre gatos |

  13. Excelente texto, Gerardo! Aproveitando a oportunidade, gostaria de perguntar se, de fato, existe uma “rivalidade” entre cães e gatos como tantos apregoam por aí. Se por um lado já vi cães perseguindo gatos, por outro conheço alguns casos em que esses mesmos animais foram criados sob o mesmo teto e mantiveram uma convivência harmoniosa. Enfim, isso é um caso para você solucionar.🙂

    Abraço!

    • Sim, cães e gatos podem conviver harmoniosamente, assim como gatos e camundongos, gatos e galinhas, cães e galinhas, cães e tigres, etc…
      Algo que ajuda bastante é estampar (é um conceito da etologia, “imprintig”), por exemplo, fazer uma cadela amamentar filhotes de tigre. Mesmo adulto, o tigre e a cadela coexistirão quase sem problemas.
      Ainda assim, é bom lembrar que há reconhecimento entre eles. Minha cadela coexistia tranquilamente com meus gatos. Mas se um gato estranho passeasse pelo muro, ela tentava atacá-lo.
      Abraço.

  14. Oi, resolvi comentar só porque tenho gatos e amo eles, como voce salientou no seu brilhante artigo é muito fácil reconhecer o comportamento deles, o que querem dizer com suas atitudes e vocalizações, um tutor atento sempre sabe o que fazer quando seu gatinho mia de determinada forma ou quando parar de brincar ou fazer carinho porque o bichinho ficou muito agitado… É básico isso até mesmo com cães, existem certos carinhosos e brincadeiras que deixam os animais excitados demais e nessa é que começam a morder ou arranhar… Traiçoeiro com certeza é o ser humano… e quanto a emprestar uma nota de R$ 50,00 a seu gato, pode ter certeza que existem grandes chances que ele vá sujá-la e destruí-la, mas brincando, sem maldade… rsss…

  15. Pingback: A tempestade e a “traição” felina | Opinião Vegana

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